Alemanha: católicos e luteranos juntos para "curar a memória"

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23 Setembro 2016

A pouco mais de um mês da visita do Papa Francisco a Lund, na Suécia (31 de outubro) – um evento que está registrando um interesse inéditos um pouco por toda a Escandinávia – com a celebração ecumênica prevista para a catedral, presidida pelo Bergoglio e pelo presidente da Federação Luterana Mundial, Munib Younan, e o subsequente evento na Arena de Malmö, outro passo significativo irá fortalecer ainda mais essa complexa trama das relações ecumênicas entre a Igreja Católica e a Luterana. Uma antecipação que acrescenta outra conotação de positividade em vista das celebrações do 500º aniversário da Reforma que, em nível global, iniciarão precisamente com o evento de Lund.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na sexta-feira passada, foi apresentada em Munique um novo documento ecumênico conjunto assinado pela Conferência Episcopal Católica Alemã (DBK) e pelo Conselho da Igreja Protestante na Alemanha (EKD).

O texto de 92 páginas, fruto de um trabalho iniciado ainda em 2012 (e que, ao menos em parte, tem como precursor um marco como o documento "Do conflito à comunhão", publicado em 2013 pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pela Federação Luterana Mundial), foi apresentado com evidente satisfação pelos dois respectivos presidentes, o cardeal Reinhard Marx, que também é arcebispo da diocese bávara, e o seu colega Heinrich Bedford-Strohm, que reiteraram a intenção específica de comemorar juntos o aniversário com "um grande evento ecumênico".

O título já é digno de nota, "Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo", que lembra, como explicado em Munique, toda a ação de caráter cultural e pedagógico posta em campo na África do Sul depois do apartheid.

"Cura, recuperação ou, se quisermos, purificação", entendida tanto em referência às feridas recíprocas desses 500 anos, quanto a todos aqueles passos do caminho ecumênico pós-conciliar ainda não concluído, mas, acima de tudo, nem sempre conhecido e não plenamente assimilado no tecido conjuntivo das respectivas comunidades.

Em síntese extrema, o documento poderia ser definido como "uma palavra comum", disseram Marx e Bedford-Strohm: comum, porque representa a base teológica para as celebrações que começarão nos próximos meses em diversas localidades de toda a Alemanha e concluirão no dia 31 de outubro de 2017, aniversário da publicação dos famosas "teses" por parte de Lutero e considerado, de fato, como o início da Reforma (já é grande a expectativa para o evento conjunto previsto para Hildesheim, na Baixa Saxônia, no dia 17 de março próximo, véspera do Segundo Domingo da Quaresma).

Mas também serão comuns as orações especialmente preparadas "juntos" por católicos e luteranos.

Depois de uma série de aniversários caracterizados por acusações recíprocas, "desta vez, será diferente", prometem Marx e Bedford-Strohm no prefácio, "será um momento extraordinário para as nossas comunidades: depois de séculos de fechamentos, hoje há a vontade de perdoar e olhar para o futuro".

De acordo com alguns comentaristas, o texto (disponível no site da Conferência Episcopal Alemã, em alemão, aqui) apresenta uma abordagem rigorosa do ponto de vista histórico no que diz respeito ao caso de Lutero: uma questão totalmente interna à Igreja Católica assumida em nível político (conforme a Dieta de Worms em 1521) e conectada às guerras religiosas que ensanguentaram a Europa antes e depois dela.

Conflitos tão "profundamente enraizados na memória coletiva", cujo impacto histórico chega até os nossos dias, embora "com o Vaticano II, tenha-se iniciado a respirar novos ares".

A organização prevê uma primeira parte dedicada à "cultura da memória", com uma descrição das diversas perspectivas e feridas recíprocas do passado e, em seguida, um olhar sobre os passos dados pelo movimento ecumênico, sem ignorar as ainda inúmeras questões em aberto (como o nó da Eucaristia), mas tudo em uma ótica de grande confiança no futuro ("É preciso resistir à tentação de tomar a própria identidade como medida teológica").

Sobre isso, concentrou-se grande parte da apresentação em Munique: "O aniversário de 2017 será o primeiro da história a ser celebrado em conjunto por duas Igrejas separadas", repetiram os dois bispos com satisfação.

Mas há mais: alinhado com toda uma obra de reavaliação e estima pela figura de Lutero (conforme as palavras de Bergoglio na coletiva de imprensa no voo de volta da Armênia: "As suas intenções não estavam equivocadas, ele era um reformador", ou o recente texto do cardeal Kasper, Martin Lutero. Una prospettiva ecumenica, Ed. Queriniana, 2016), Marx assinalou: "Como católicos, podemos reconhecer com toda a honestidade que a sua intenção era a de renovar a Igreja Católica, e não fundar outra. Ele queria chamar a atenção para o Deus clemente e misericordioso e despertar as pessoas do seu tempo".

"É preciso admitir com toda a sinceridade que os conflitos do passado, hoje, parecem ser bastante vergonhosos", acrescentou o bispo Bedford-Strohm. "Os preconceitos por tantos anos enraizados nas nossas Igrejas poderiam ser um obstáculo para a reunificação – explicava o presidente dos bispos católicos da Alemanha – e, por isso, é ainda mais necessário abordar juntos os fatos do passado e pedir perdão a Deus hoje. Estou certo de que o processo espiritual de cura da memória e a reconciliação recíproca permitirão que nos aproximemos com sinceridade e nos compreendamos uns aos outros nas respectivas posições. Uma ferida pode se dizer curada apenas se, tocando-a, a cicatriz não dói..."

O processo de "cura da memória" é uma parte essencial das iniciativas conjuntas predispostas pela EKD e pela Conferência Episcopal Alemã para comemorar o aniversário de 2017, um processo que, por vontade das Igrejas, não deverá se limitar aos dois grupos, mas irá transbordar na sociedade, para assumir as características de uma autêntica "reconciliação" de toda a sociedade alemã.

Neste sentido, as orações comuns (como a oração solene prevista para Hildesheim) assumem um papel-chave, assim como a peregrinação conjunta entre os membros dos dois conselhos da presidência, que será realizada entre os dias 16 a 22 de outubro próximos, na Terra Santa, local de origem da única fé em Jesus Cristo.

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