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13 Setembro 2016

Elias D. Mallon, padre franciscano, é assessor para assuntos estrangeiros da Associação Católica para o Bem-Estar no Oriente Próximo, agência papal para ajuda humanitária e pastoral.

A reflexão é de Elias D. Mallon, publicada por National Catholic Reporter, 09-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

De pé na esquina da rua onde eu morava, na região do Greenwich, em Nova York, pude ver as chamas saindo das duas torres do World Trade Center. A menos de 3 quilômetros, era possível ver coisas caindo de uma das torres. Achei que o calor das chamas estava estourando as janelas. Mais tarde fui saber que estava completamente equivocado. Eram pessoas pulando dos prédios.

Assisti a primeira torre desabar. O World Trade Center estava lá pela manhã e, à tarde, já havia ido embora. Não mais poderia dizer aos visitantes da cidade para irem em direção ao World Trade Center.

Faz 15 anos desde que o ataque às torres em Nova York, ao Pentágono e ao voo 93 da United Airlines chocou o mundo. Um novo World Trade Center foi construído; um memorial e um museu foram abertos em homenagem aos que perderam a vida. O Papa Francisco participou de uma oração inter-religiosa durante a visita que fez ao país em setembro de 2015. No entanto, apensar de todos os sinais de uma volta à “normalidade”, o mundo mudou – e muito – desde aquele dia.

Desde o dia 11 de setembro de 2001, os EUA travaram duas guerras, no mínimo equivocadas, no Afeganistão e no Iraque; vimos três papas; a al-Qaeda emergiu com grande destaque e, então, em 2014 assumiu o segundo lugar com a ascensão do grupo Estado Islâmico.

No dia 17 de dezembro de 2010, logo depois do fim da Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante na Tunísia, pôs fogo em si próprio como forma de protesto contra o governo. Morreu por em decorrência dos ferimentos no dia 4 de janeiro de 2011. Aquilo que a imprensa ocidental iria chamar – profeticamente, conquanto sem saber – de “Primavera Árabe” havia começado.

Digo profeticamente porque a primavera no Oriente Médio não é a época do renascimento que se dá em muitas partes do Hemisfério Norte, mas, em vez disso, é o início de um calor e uma secura de matar. A Primavera Árabe desencadeou forças que muitas pessoas de fora região acreditaram inicialmente que iria resultar em democracia, tolerância e sociedades pluralistas. Não demorou muito para se saber que a Primavera Árabe estava, na verdade, desencadeando forças que iriam desfazer o complexo e centenário tecido dos contratos sociais no Oriente Médio.

Mais de 3 mil pessoas morreram nos ataques do 11 de Setembro. Desde então, centenas de milhares de civis perderam a vida no Oriente Médio e milhões se viram forçados a tornarem-se refugiados e desabrigados, com outros milhões de pessoas sendo internamente deslocadas em consequência da guerra no Iraque e da guerra civil na Síria.

O Islã político se apresentou ao palco mundial com força durante a Revolução Iraniana em 1979. No entanto, a organização al-Qaeda e seu líder Osama bin Laden capturaram a atenção e o horror do mundo no dia 11 de setembro de 2001, de uma forma tal que não se viu algo parecido nos anos posteriores à Revolução de 1979.

A guerra que se seguiu no Iraque e a derrubada de Saddam Hussein do poder criaram condições favoráveis para que o caos entrasse em erupção na região. E foi o que aconteceu. Um personagem violento, violento chamado Abu Musab al-Zarqawi ficou famoso pelas investidas terroristas contra americanos, xiitas e mesmo contra outros muçulmanos sunitas do Oriente Médio. No vácuo criado no Iraque, foi capaz de formar a al-Qaeda aí, o que em última instância metastatizou-se no que se conhece hoje como ISIS, ISIL ou, em árabe, D-a’ish.

No dia 11 de setembro de 2001, ninguém poderia prever o Oriente Médio de 2016, em que o Iraque estaria perto de falir como país; onde a Síria se encontraria envolvida numa guerra civil suicida; e onde o ISIS controla grandes áreas no Iraque e na Síria, massacrando cristãos, yazidis, shabaks, bem como muçulmanos sunitas discordantes. O autoproclamado califado do Estado Islâmico, sob o assim-chamado Abu Bakr al-Baghdadi, trouxe uma destruição cruel em uma escala que não se via desde as invasões mongóis do século XIII.

Os autodescritos jihadistas têm realizado ataques assassinos na Inglaterra, na Espanha, na França, na Bélgica e na Alemanha, trazendo terror a países que não o tinham experimentado antes. Muitos países europeus estão sendo inundados com refugiados. O mundo de setembro de 2016 tem pouco em comum com aquele de setembro de 2001.

Embora existam pouquíssimos sinais de esperança, há, não obstante, algumas coisas importantes que estão acontecendo e que, muitas vezes, são ignoradas. No Oriente Médio, onde cristãos por vezes simplesmente ignoram uns aos outros, há agora um novo reconhecimento daquilo que o papa chama “ecumenismo de sangue”. Ameaçadas de extinção, muitas igrejas cristãs estão atualmente trabalhando juntas, descobrindo que possuem muito em comum, coisas que passavam despercebidas antes. A crise no Oriente Médio, especialmente a crise dos refugiados, trouxe uma era encorajadora de cooperação entre Francisco e o patriarca ortodoxo grego Bartolomeu.

Muito embora não tenha infelizmente recebido a cobertura que merece, o mundo islâmico vem também reagindo com espanto e horror ao que está sendo feito em seu nome. Líderes muçulmanos do Iraque ao Marrocos, da França à Indonésia estão se encontrando para perguntar o que está acontecendo com o Islã e condenando a violência.

Talvez a ação mais impressionante da parte dos estudiosos de todas as tradições no Islã foi a carta “Uma Palavra Comum” (ou “A Common Word”). Endereçada a todos os líderes cristãos, a carta, publicada em 2007, convida cristãos e muçulmanos a trabalharem em conjunto pela paz. Numa declaração poderosíssima, os estudiosos islâmicos proclamam: “As nossas próprias almas eternas estarão também todas em jogo se fracassarmos em sinceramente empreender todo o esforço para a construção da paz e nos unirmos em harmonia”.

Grupos de pesquisadores da Universidade de al-Azhar, no Cairo, principal instituição universitária do mundo islâmico sunita, vem condenando as atrocidades feitas em nome do Islã e declarou ilegítimo o “califado”. Muitos estudiosos sunitas e instituições estão respondendo negativamente às alegações do Estado Islâmico segundo o qual ele seria um grupo muçulmano. Em janeiro, acadêmicos sunitas em Marraquexe, no Marrocos, prepararam um documento sobre os direitos das minorias religiosas em países islâmicos, enquanto que acadêmicos xiitas publicaram, em junho, a Declaração de Irbil sobre os direitos dos cidadãos no Iraque.

Seria incorreto dizer que o mundo se tornou um lugar melhor e mais seguro desde 11 de setembro de 2001. De forma alguma. No entanto, os horrores, as atrocidades e os genocídios que foram perpetrados em nome da religião têm desafiado muçulmanos e cristãos a reexaminar os textos e tradições sagradas para entender como estas coisas podem ser utilizadas de forma equivocada para justificar a violência.

Estamos trabalhando para usar e interpretar os nossos textos e as nossas tradições para educar um mundo onde as pessoas possam viver a fé em sociedades pluralistas, onde exista liberdade de religião e onde os direitos das minorias sejam protegidos. Estamos ainda muito longe de alcançar esse objetivo, mas pelo menos muitos líderes religiosos, incluindo líderes muçulmanos, já estão percebendo que trabalhar em conjunto é fundamental para a nossa sobrevivência.

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