As sete definições mais relevantes de Beatriz Sarlo sobre Jorge Luis Borges

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06 Setembro 2016

“Venho de Escobar para vê-la”, disse Patricia, a primeira pessoa a chegar – e com mais de uma hora de antecedência – ao encontro. Ela foi a primeira a ocupar um auditório que, logo depois, ficou lotado com um público que contradisse o preconceito de que a literatura provoca cada dia menos interesse, e que ouviu a crítica e acadêmica Beatriz Sarlo, que, durante uma hora, discorreu sobre o legado literário de Jorge Luis Borges, a 30 anos da sua morte.

A reportagem é publicada por InfoBae, 31-08-2016. A tradução é de André Langer.

O encontro, que por streaming teve mais de 100 mil reproduções, foi chamado de “Borges, inventor e herdeiro” e foi realizado no marco do lançamento da rede social para leitores Grandes Libros. Estas são as frases mais marcantes ditas por Sarlo em sua dissertação.

“Esta é uma conferência sobre alguém habitável na literatura argentina e inabitável na literatura ocidental. Borges nem sempre ocupou este lugar central que tem para nós. Em 1961, um crítico uruguaio escreveu: ‘Os críticos europeus decidiram que este escritor latino-americano não era bastante latino-americano. Faltava-lhe a paixão e os descuidos gramaticais. Não era suficientemente exótico’. Não lhe faltava argentinidade; na verdade, o que gostaria de demonstrar é que Borges constitui o crioulo na literatura argentina e, por isso, esta conversa chama-se ‘Borges, inventor e herdeiro’”.

“Os autores que querem inscrever-se na história têm que ir aos textos que escolhem para trás. No caso de Borges, ele tem a possibilidade autobiográfica de escrever a história de sua família. Se só tivesse feito isso não nos lembraríamos dele. A operação que faz sobre a história de sua família é constituir heróis que depois serão tópicos, modelos de sua literatura. Isto é ‘a invenção de um passado’. O que faz é tirá-lo da nota erudita para colocá-lo no cenário estético que faz parte da invenção”.

“A coragem, que é atávica e sanguinária, é um valor anterior à modernidade. Borges está falando de um mundo no qual a honra deve ser satisfeita pelos mesmos homens que sofreram uma afronta. Nas épocas pré-modernas, ainda era admissível que as afrontas fossem vingadas pela própria mão. Hoje, não tenho nenhuma obrigação, como cidadã, de ter coragem. No século XIX, manter a honra implicava em manter a coragem. Era melhor exagerá-la a estar ausente. Esse é o mundo no qual Borges encontra seus avós. É um mundo violento e ao mesmo tempo essa violência era uma virtude necessária. Hoje, considera-se desnecessária, porque na modernidade a afronta é vingada pela lógica das instituições. Não é vingança, mas Justiça”.

“Vivemos em uma época de paixões mitigadas. Passamos de heróis para nos converter em cidadãos e, segundo alguns teóricos, deixamos de ser cidadãos para nos transformar em consumidores. Com outras palavras, uma porcaria. Uma inclinação em descenso. Borges o define de uma maneira muito especial. Ele disse: ‘Uma canção de gesta foi perdida em sórdidas notícias policiais’”.

“Esta vibração da coragem que permite constituir uma identidade de seus antecessores converte-se em um princípio estético. Há uma forma da fala crioula que mantém o dizer menos antes que o dizer mais. Não há escritor que maneje o understatement (eufemismo) melhor que Borges. Sempre abaixa o tom. Ele abaixa o tom das obras de que gosta e critica as obras que se aproximam muito da ênfase. Por isso, gosta da ideia de pensar nas guerras civis como ‘menos o choque de dois exércitos do que o sonho de um matreiro’”.

Borges poderia ser um escritor pessimista. Não entro na discussão de se os escritores pessimistas são reacionários. Mas há, isso sim, a discussão de que Borges é um pessimista e um vanguardista ao mesmo tempo. Ele teria se sentido horrorizado. Não usava a palavra vanguardista para si mesmo, e se a usava para outra pessoa, era sempre em sentido pejorativo. Borges era um vanguardista no sentido de que pôde fazer misturas que não estavam contempladas na literatura argentina, na literatura latino-americana e até nas europeias que ele estava lendo. Borges é um vanguardista ao tomar os temas mais tradicionais do século XIX que tinham sido massacrados por Lugones, que tinham sido massacrados pelos que antecederam a Borges, e dando-lhe um uso vanguardista. Dessa maneira inventa a literatura argentina”.

Borges é reticente. Pratica o understatement (eufemismo). E pratica o pudor. Tem, como sabemos, uma crítica radical da originalidade. Quando reescreve o Martín Fierro anuncia de maneira mais produtiva e vanguardista o conto Pierre Menard, autor do Quixote. Anuncia que a originalidade está na escrita e não na trama”.

Leia mais...

Jorge Luis Borges. A virtude da ironia na sala de espera do mistério. Revista IHU On-Line, no.193

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