Nunca vi um mexicano mendigar nos Estados Unidos. Alejandro González Iñárritu expressa decepção encontro de Peña Nieto e Trump

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02 Setembro 2016

Na quarta-feira à tarde, li incrédulo a notícia na tela do meu celular. Estava viajando de trem de Solana Beach até Los Angeles. Paradoxalmente, pelas janelas, simultaneamente desfilavam inúmeros pontinhos coloridos espalhados sobre os vastos campos de tomates que se estendem ao longo da costa do Pacífico. Os trajes alegres de milhares de camponeses mexicanos e da América Central brilhavam sob o sol, em contraste com o árduo trabalho que realizavam.

O comentário é de Alejandro González Iñárritu, mexicano, diretor de cinema, em artigo publicado por El País, 01-09-2016.

Senti uma profunda tristeza, indignação e vergonha.

O convite de Enrique Peña Nieto a Donald Trump é uma traição.

É endossar e oficializar quem nos tem insultado, cuspido e ameaçado por mais de um ano diante do mundo inteiro.

É faltar com a dignidade e, assim, fortalecer a campanha política de ódio contra nós, contra metade da humanidade e contra as minorias mais vulneráveis do planeta.

É colocar em risco o futuro e a vida de 16 milhões de mexicanos.

Os cerca de 40% de imigrantes mexicanos e da América Central, mais do que sem documentos, são refugiados. Meninos e meninas fugindo da fome, dos estupros, da miséria extrema e das ameaças de morte por parte de grupos criminosos em países que, como o nosso, lhes têm negado um trabalho e uma vida segura e digna.

Os cerca de 40% dos imigrantes mexicanos e da América Latina, mais do que sem documentos, são refugiados

Mais do que um problema de segurança e terrorismo, esta é uma crise humanitária.

No entanto, nunca vi, em toda minha vida, um mexicano pedindo esmola em uma rua nos Estados Unidos. Eles trabalham duro e honestamente, contribuindo e beneficiando indispensavelmente a economia de ambos os países. Mas, por conveniência mútua, continuarão sendo uma comunidade de 11 milhões de invisíveis.

Trump deveria ter sido nomeado, há muito tempo por nosso Governo, persona non grata. Por exaltar o ódio e a divisão em seu país e distorcer esta realidade sem qualquer compaixão, redes de televisão norte-americanas, corporações internacionais, chefes de Estado e inúmeros membros de seu próprio partido cortaram relações, contratos e qualquer tipo de associação com esse indivíduo que, com assustadores surtos sociopatas e fascistas, contaminou o mundo e feriu os valores fundamentais dos quais os norte-americanos se orgulham. No entanto e inesperadamente, nosso presidente o convidou a visitar nosso país, dando-lhe uma oportunidade e plataforma que este aproveitou para se destacar e se coroar no Arizona, prometendo a seus seguidores, ironicamente, que o “amigo” que acabava de lhe abrir as portas de sua casa não sabia ainda que ia pagar um muro e receberia de volta seus milhões de sujismundos e criminosos.

Nosso senhor presidente, com sua inseparável e insubstancial linguagem leiga, não articulou nem exigiu nada de concreto. Trump teve a honra, sem precedentes, de ser o primeiro candidato norte-americano a visitar nosso país, manchando para sempre a memória e a história de nossa nação. Há 168 anos, Antonio López de Santa Ana entregou metade do nosso território. Na quarta-feira, o presidente Peña Nieto entregou o pouco que restava de dignidade.

Depois desse ato e como cidadão mexicano, Enrique Peña Nieto não me representa mais. Não posso aceitar como representante um governante que, em vez de defender e dignificar seus compatriotas, seja o mesmo que os denigre e os coloca em risco ao convidar alguém como ele; já não é digno de representar nenhum país.

Nestes tempos difíceis, vale lembrar a sábia citação do professor Martin Luther King Jr.: “Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa”.

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