Moralidade e purificação no Teatro do Ajuste

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30 Agosto 2016

“Os ideais nobres de moralidade do Estado e da Política se transformaram num reles “ajuste” fiscal, a ser feito pela pior parte do Governo atual, com a pior parte da oposição de sempre”, escreve Tarso Genro, ex- governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil, publicado por Sul21, 29-08-2016.

Segundo ele, “a verdade é que corruptos existem em todos os partidos e não são predominantes em nenhum. Ocorre que os partidos nascem e vivem, dentro de um sistema político que incentiva a corrupção, o fisiologismo oligárquico e a irresponsabilidade programática e que a corrupção só pode ser reduzida, sensivelmente, com a mudança das instituições políticas: fim do financiamento empresarial dos partidos, votação em lista fechada para valorizar os partidos, com a democratização da produção e do acesso à informação, com fim das siglas de aluguel e com o “recall”.

Eis o artigo.

O pequeno livro “Diálogos sobre a natureza humana”, que transcreve um debate intelectual entre o psicanalista e neurólogo Boris CyrulnykEdgar Morin  – sociólogo, testemunha da política e pensador das ciências humanas – foi publicado em Buenos Aires, em 2005, seguindo outras edições a partir da publicação francesa de 2000. Ressalto as datas porque estas duas figuras do humanismo contemporâneo, com seu diálogo, trazem ideias quentes para os que querem compreender a totalidade histórica que vivemos. Reinterpretam em planos diferentes, mas convergentes, a crise moral e política que assola o humanismo tradicional das luzes.

Na sua abertura, o professor Boris manifesta a satisfação de encontrar Morin – que ele “acompanha” e “às vezes lê”, e que sofre as mesmas críticas que ele sofre, como intelectual que “quer meter o nariz em tudo”, ou seja, um suposto generalista. E aduz: “Podemos nos converter em especialistas, (o que é) uma situação extremamente cômoda, já que basta acumular uma quantidade cada vez maior de informação sobre uma questão (…) e assim se termina, como diz o dogma, sabendo tudo sobre nada”. Morin responde, a seguir, que é preciso evitar ambas as tentações: ser um “especialista” ou um “generalista”. E aponta, como exemplo, a “ciência ecológica” que, necessariamente, precisa trabalhar com as categorias da biologia, da geologia e com os modos de regulação e desregulação dos diversos elementos que constituem um ecossistema, sem falar, nas questões do direito, da ética e da política, que informam as escolhas metodológicas preliminares de qualquer teoria. E por vai a “conversa”…

O professor Boris, depois de apontar as experiências de SadeRousseau, afirma que existem “moralidades perversas”, mas uma grande estratégia do perverso “consiste em esconder-se mostrando-se à luz do dia”. E agrega: “Com efeito, é muito comum, os maiores perversos se abrigarem em grupos de defesa moral, que lhes servem de refúgio”. Arrematando: “Acredito que, quando se esgrime uma só verdade, esta não pode ser moral, mas que é, ao contrário, criminosa. E os maiores crimes contra humanidade foram perpetrados em nome da purificação.” Um Estado ou oligopólio da informação – ou ambos – que se escoram numa só verdade, constroem uma verdade ficta que, se não é criminosa em si mesma, chancela os crimes que são cometidos em seu nome, como, por exemplo, uma condenação injusta construída no espaço midiático.

É claro que as moralidades perversas em nome da “purificação”, sempre tiveram causas econômicas objetivas. E também promoveram catástrofes diferentes. As de longo curso, como a moralidade que supunha a inferioridade dos negros, justificadora do tráfico de escravos (para suprir o mercantilismo em ascensão) e as de curso menor, concentradas na sua barbárie radical, como o Holocausto (para dar suporte a guerras de agressão). A moralidade perversa do escravismo tinha ampla aceitação e hegemonia na sociedade escravagista, por “necessidade” econômica. E a moralidade perversa do nazismo conquistava a hegemonia – predominantemente pela força, mas não só por ela – gerando na sociedade alemã (depois da liquidação dos partidos democráticos de esquerda e centristas) um consenso ativo ou por omissão, que tornava “moral” matar milhões em nome da “purificação”. Em ambos os casos, os que engendravam esta moralidade perversa “escondiam-se à luz do dia”, nos governos, no Estado, nas facções políticas, nas famílias, nas corporações de polícia.

Que moralidade perversa veio “à luz do dia”, para derrubar a Presidenta Dilma, para “purificar” o Estado?  Aquela baseada na informação que transitou de forma subliminar, mas permanente, que o Brasil iria se livrar da corrupção com a interrupção do mandato presidencial e que o conjunto de ações do Ministério Público e da Polícia Federal – com seus reflexos no Poder Judiciário – mostrariam o Brasil acordando para derrotar esta chaga histórica. Um desejo, portanto, de toda a nação, mas um desejo que serviu de mediação para um outro objetivo, puramente econômico-financeiro, que tinha sido derrotado nas eleições: o objetivo não era combater a corrupção, mas realizar plenamente o “ajuste ”, exigido pelo grande capital, de “olho” na inadimplência da dívida pública.

Tenho convicção de que a maioria destes processos judiciais era e são devidos e atacam nódulos centenários de corrupção no Estado Brasileiro. Mas tenho certeza, igualmente, que eles padecem de uma doença grave, com dois sintomas visíveis: primeiro, a sua seletividade, que permitiu à grande mídia, formar a convicção pública, de que a derrubada de Dilma era necessária para acabar com a corrupção e “melhorar o Brasil” e isso passava por desmoralizar a esquerda com força política real, ou seja, um sintoma que revela uma manipulação autoritária; e, segundo, a filtragem das informações sobre os processos investigativos, que permitiu a liquidação da esfera da política, substituída pelo “partido da mídia”,  que tem como exclusivo objetivo promover o “ajuste” radical, seja com quem for. E estamos vendo com quem é! Os ideais nobres de moralidade do Estado e da Política se transformaram num reles “ajuste” fiscal, a ser feito pela pior parte do Governo atual, com a pior parte da oposição de sempre.

Escrevi, em outras oportunidades, que a mitificação da “Operação Mão Limpas” , na Itália, que estava sendo feita pelo Juiz Moro – quando se abriram os grandes processos da “Lava-Jato” -  era um profundo equívoco. Porque, se era verdade que, na Itália, se abriram caminhos importantes para o combate à corrupção (que avançava e ainda avança, por dentro da globalização financeira), de outra parte, a herança da decapitação judicial, da maior parte dos grupos dirigentes da política italiana, fez a substituição dos mandatários dos corruptos, pelos seus mandantes. Mais de uma década de governos da quadrilha berlusconiana, somaram a crise financeira do Estado ao desmantelamento das suas instituições republicanas: corruptos e fascistas se lavaram no Estado, que agora, penosamente, tenta se reerguer para, pelo menos, voltar a funcionar precariamen te como Estado público.

A verdade é que corruptos existem em todos os partidos e não são predominantes em nenhum. Ocorre que os partidos nascem e vivem, dentro de um sistema político que incentiva a corrupção, o fisiologismo oligárquico e a irresponsabilidade programática e que a corrupção só pode ser reduzida, sensivelmente, com a mudança das instituições políticas: fim do financiamento empresarial dos partidos, votação em lista fechada para valorizar os partidos, com a democratização da produção e do acesso à informação, com fim das siglas de aluguel e com o “recall”. Esta “purificação” da política e do Estado, que está proporcionando a derrubada de uma Presidente que pelo menos é honesta, coloca ndo no poder uma Confederação dos Investigados e Denunciados é, na verdade, o grande Teatro do Ajuste, que vai aumentar ainda mais a corrupção e reduzir o apreço à soberania popular.

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