Por uma Igreja dessacralizada: no princípio não foi assim, nem Jesus foi sacerdote

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29 Agosto 2016

Jesus “não assumiu títulos sacerdotais, nem rabínicos, mas atuou como um simples ser humano (filho de homem), sem ordenações jurídicas, nem documentações credenciais. Não foi ungido para exercer um ministério sagrado no templo, nem recebeu outras formas de ordens sagradas, mas foi um judeu marginal, um galileu de extração camponesa, operário da construção (pedreiro ou carpinteiro), sem terras próprias, ungido diretamente pelo Espírito de Deus”, escreve o teólogo espanhol Xabier Pikaza, em artigo publicado por Religión Digital, 26-08-2016. A tradução é do Cepat.

Imagem: Pixabay

Eis o artigo.

O último número de Iglesia Viva se intitula ‘Por uma Iglesia Desclericalizada’ e vem presidido por três trabalhos de fundo: Um de Javier Elzo, outro de um servidor, e o terceiro de C. García de Andión.

Conforme meu estudo, Jesus foi leigo, não sacerdote. Não quis reformar as instituições sacralizadas antigas, nem criar algumas novas, mas potencializar os valores da vida, partindo dos excluídos, na linha da gratuidade, sendo assassinado por isso. Seus seguidores creram nele e fundaram comunidades para manter sua memória, centrada na mensagem do Reino, do perdão e do pão repartido, criando assim diversos ministérios (profetas, mestres e servidores, anciãos e inspetores) que surgiram da própria entranha secular e messiânica do Evangelho.

Mais tarde, por exigência cultural e pressão do ambiente, os cristãos converteram esses ministérios em instituições patriarcais de tipo hierárquico/clerical. Mas o tempo desse domínio clerical está acabando e, a raiz do Evangelho, surgirão, nas próprias comunidades, crentes liberados para o ministério evangélico, em uma linha não hierárquica. Não se trata de suprimir ministérios, mas de lhes dar mais força missionária e evangélica, para recuperar a mensagem e caminho do Reino.

Aqui, quero apresentar meu trabalho aos leitores que não possuem acesso a Iglesia Viva, e farei isso em três partes, em três dias: 1. Uma parte histórica. No princípio não foi assim. 2. Um intermédio. A grande inversão. 3. Voltar ao princípio, tarefas atuais. Só me resta agradecer aos diretores de Iglesia Viva por ter me confiado este trabalho “em insubstituível companhia”, como poderá ver quem parar e ler a capa da revista: Xabier Pikaza: Causa e consequência do clericalismo.

Mais que do clericalismo em sentido limitado, próprio de países latinos de tradição católica, ocupo-me da hierarquia cristã enquanto tal, de suas causas, limitações e consequências, com a necessidade e urgência de superá-la, por fidelidade evangélica e exigência atual, oferecendo uma visão histórico-teológica do tema, a partir de uma perspectiva bíblica, sem entrar em detalhes.

Elaboro, assim, um estudo de fundo, de tipo construtivo, não para rejeitar sem mais o existente, mas para criá-lo a partir da verdadeira tradição cristã, respondendo a mensagem e projeto de Jesus, para oferecer algumas bases que permitam recriar os ministérios da palavra, perdão e eucaristia de uma forma evangélica, não clerical no sentido hierárquico.

O tema me interessa há tempo, e lhe dediquei alguns trabalhos mais especializados. Aqui, limito-me a apresentá-lo de forma geral, sem notas eruditas.

I. No princípio não foi assim

1. No tempo de Jesus, havia sacerdotes, uma hierarquia sagrada e, nessa linha, algumas tradições do Antigo Testamento (sobretudo no Levítico) haviam desenvolvido uma teologia do sacerdócio, centrada na pureza ritual, que os fariseus queriam estender a todo o povo. Mas, em seu conjunto, a identidade de Israel era histórica, profética e sapiencial, com uma forte dose de apocalíptica, não era dada por uma hierarquia de tipo sagrado. No Novo Testamento, os sacerdotes de Jerusalém, a quem o próprio Pilatos considera invejosos (Mc 14,10), se mostram contrários à visão de Jesus e de seus primeiros seguidores. Mas, o judaísmo posterior (a federação de sinagogas) deixou de ser sacerdotal, e o mesmo fez o cristianismo, ainda que de formas distintas.

Normalmente, desde o começo dos tempos conhecidos, os sacerdotes do antigo oriente dependiam dos chefes do clã e dos reis, com quem se encontravam vinculados, por isso, não costumava haver um sacerdócio institucional autônomo, pois o próprio patriarca ou rei atuava como sacerdote. Nessa linha, ao se institucionalizar as funções sociais, políticas e religiosas do povo, em Jerusalém e em outros santuários de Israel também surgiram tribos ou grupos sacerdotais (levíticos), sem terras próprias, especializados em sacrifícios e oráculos. Entre eles, destacaram-se os “filhos” de Aarão, ainda que no início não tivessem grande poder, nem formassem uma casta superior, pois a vida era regulada por normas de aliança social ou tribal.

A situação mudou com a restauração, após a volta do exílio (em 539 a. C.), quando o judaísmo se tornou comunidade do templo, de maneira que triunfou e impôs o Sumo Sacerdote como autoridade superior, por imperativo do império persa, sob o qual os judeus ficaram. Nesse tempo, a Judeia se estruturou como povo sagrado, uma espécie de estado-templo, sob o Sumo Sacerdote e seu conselho, por delegação do rei persa (ou dos impérios seguintes: helenístico, romano). Logicamente, a Lei sacerdotal, centrada no Levítico, mas estendida, de algum modo, em todo o Pentateuco, apresentava o Sacerdote como autoridade sociorreligiosa, cerimonial e jurídica, acrescentando uma vez por ano a função suprema de entrar no Sancta Sanctorum do templo, onde intercedia pelo povo (cf. Lv 16). Nessa linha, o Sumo Sacerdote tendia a assumir quase todos os poderes sociais e religiosos, aparecendo como cabeça do povo, ainda que nunca conseguiu abarcar tudo, pois continuou existindo uma forte identidade laical (representada pelas tendências laicais do Deuteronômio e pelos profetas).

Essa situação se manteve durante o domínio helênico (após 332 a. C.), como mostra o Eclesiástico ou Sirácida (200-180 a. C.), que inclui um longo Hino aos pais e antepassados (Eclo 44-50), em que se exalta a memória dos grandes levitas: Aarão, o fundador (Eclo 44, 6-22), Finéias, o zeloso (45, 23-26), e Simão, o novo sacerdote (por volta de 200 a. C.; cf.  Eclo 50, 1-24), a quem a Mishná, Avot 1, 2, recorda como um dos fundadores da Grande Sinagoga. Nessa linha, o sucessor de Aarão tendia a ser, ao mesmo tempo, líder nacional (chefe político), hierarca religioso (celebrante sagrado) e mestre (educador legal), reunindo os três poderes que Flávio Josefo (Contra Apion B, XVI, 165) condensou, descrito como teocracia ou governo de Deus.

O poder sacerdotal buscou ser absoluto, mas não conseguiu, assim, a partir da conquista romana (64 a. C.) as funções voltaram a se dividir, com um Governante (rei herodiano vassalo ou procurador romano) como poder civil e um Sacerdote como poder religioso (assim como na Idade Média cristã, com um Papa e um Imperador), ainda que os dois poderes estivessem vinculados, pois se necessitavam. Além disso, alguns grupos judeus (como os Qumran) não aceitaram o sacerdócio oficial. Neste contexto, foram formados vários grupos de judeus, alguns de linha mais sacerdotal (saduceus), outros de piedade laical (fariseus) e/ou mais centrados na política (vários tipos de zelosos), com visões divergentes da tradição religiosa. Certamente, os sacerdotes tinham muito poder, mas não totalmente, sobre o povo.

2. [Jesus] Não foi sacerdote, mas leigo, na linha dos profetas e pretendentes messiânicos, curandeiros carismáticos e sábios populares, entre os grupos que havia em Israel, retomando os aspectos básicos da experiência profética, em uma linha não sacerdotal. Por isso, ao longo de seu ministério não se enfrentou basicamente com os sacerdotes, mas se manteve fora do campo de sua influência, e inclusive os superou, oferecendo o perdão de Deus sem apelar, para isso, aos ritos sacerdotais do templo. Além disso, compartilhou com os homens e mulheres do povo a comida sagrada, sem passar pelo templo (multiplicações). De qualquer forma, no momento chave de sua vida, subiu a Jerusalém, não para se submeter aos sacerdotes, mas para enfrentá-los, mostrando que o templo havia realizado sua função e já não tinha valor sagrado (Mc 11, 15-17).

Não assumiu títulos sacerdotais, nem rabínicos, mas atuou como um simples ser humano (filho de homem), sem ordenações jurídicas, nem documentações credenciais. Não foi ungido para exercer um ministério sagrado no templo, nem recebeu outras formas de ordens sagradas, mas foi um judeu marginal, um galileu de extração camponesa, operário da construção (pedreiro ou carpinteiro), sem terras próprias, ungido diretamente pelo Espírito de Deus, como dirá a tradição cristã, a partir de seu batismo com João (Mc 1, 9-11).

Por um tempo, tinha sido discípulo do Batista, profeta do juízo de Deus que atuava no deserto (além do Jordão), como outros muitos do povo, sem que isso implicasse algum tipo de ministério sacerdotal. Mas, mataram João, e Jesus teve a certeza que Deus lhe impulsionava a proclamar e instaurar seu Reino (perdão e concórdia universal), começando pelos enfermos, marginalizados e excluídos de Israel (judeus), sabendo que depois se abriria a todos os homens e mulheres, sem necessidade de sacerdotes.

Animado por essa certeza, deixou o deserto e começou a instaurar o Reino de Deus na Galileia, sem papéis, nem selos sagrados que o credenciasse, simplesmente como um israelita consciente de sua identidade e sua tarefa. Não era um espírito do céu (como alguns esperavam, na linha de Enoque e Elias), nem quis se fazer rei, nem foi sacerdote ou guerreiro sagrado, mas um mestre popular, um carismático, oferecendo o ensinamento do Reino e saúde para aqueles que o acolheram e escutaram.

Foi, pois, um leigo ou secular, mestre e curandeiro espontâneo, sem estudos, nem títulos, no interior das tradições de Israel (na linha profética), fora dos organismos sacerdotais, políticos e doutrinais (escribas) de seu contexto. Acreditava que Deus era Pai de todos, e assim promoveu um movimento de sabedoria popular (ensinamento), cura (saúde) e comunhão entre os marginalizados a quem despertava, acompanhava e animava, como os destinatários e herdeiros do Reino de Deus (cf. Mt 5, 3; 11, 5; Lc 6, 20; 7, 22).

Por estado e vocação, era um marginal, e assim podia se colocar no centro de todo o povo. Estava convencido que somente à margem (fora do sistema instituído) poderia implantar a obra de Deus, não a partir do poder dominante. Não utilizou meio de recrutamento e separação classista (com certos tipos de pessoas superiores para transformar as inferiores), como fizeram os grupos de poder. Não adestrou um possível grupo de combatentes (zelotes), nem fundou um agrupamento de especialistas puros (fariseus), nem um pouco de chamados (essênios) sobre a massa perdida. Não apelou ao dinheiro, nem às armas, nem educou um corpo de funcionários bem capacitados.

Não precisou de edifícios, nem de agentes contratados, mas proclamou e instaurou o Reino de Deus sem mediações hierárquicas. Falou com parábolas que todos podiam entender (ainda que provocando a mudança na forma das pessoas pensar) e atuou com gestos que todos podiam assumir, abrindo caminhos pessoais de solidariedade entre excluídos e necessitados, como curandeiro e exorcista (especializado em expulsar demônios) e, sobretudo, como amigo dos pobres. Acolheu (perdoou) os excluídos e compartilhou a comida, em campo aberto, com aqueles que estavam ao seu lado, buscando saúde, companhia ou esperança, cuidando de um modo especial das crianças, enfermos e expulsos da sociedade.

Não foi um sonhador ingênuo, distante da sociedade (um simples adepto da contracultura), mas tampouco um homem da ordem social ou religiosa, como os políticos romanos ou os sacerdotes de Jerusalém. Puderam lhe comparar com os fariseus, que estavam iniciando um caminho de reconstrução do judaísmo, na linha familiar e nacional, mas sem dar primazia à lei e as normas nacionais de pureza. Dessa forma, colocou o serviço aos pobres acima das normas nacionais, de maneira que seu movimento pôde se abrir a todos os povos. Foi profeta e carismático, à margem da boa sociedade, para dessa maneira criar um novo centro humano, promovendo a convivência direta entre homens, a comunicação gratuita com Deus e entre os homens.

3. Foi condenado pelos sacerdotes, ameaçados por sua proposta, em Jerusalém, onde subiu para apresentá-la. Antes, havia oferecido sua mensagem e solidariedade nas ruas e povoados da Galileia, aos homens e mulheres, enfermos e sadios, adultos e crianças. Não foi às cidades (Séforis, Tiberíades, Tiro, Gerasa), provavelmente porque não aceitava aquelas estruturas urbanas, dominadas por uma organização classista, sob a dominação de Roma. Quis ser universal a partir das regiões camponesas onde habitavam os humildes, excluídos da sociedade de consumo. Dessa forma, voltou às origens da vida, de maneira que em sua mensagem podiam caber (desde Israel) todos, acima das leis de separação nacional, social ou religiosa da cultura dominante.

- Os primeiros destinatários de seu projeto eram pobres, publicanos e prostitutas, famintos e enfermos, expulsos do sistema. Para eles viveu, a partir deles quis iniciar seu movimento, do qual dependem todas as igrejas posteriores. Mas, tinha simpatizantes e amigos, da sociedade estabelecida, a quem pediu que se deixassem “curar” pelos pobres, colocando-se a serviço da comunicação do Reino.

- Cercou-se de seguidores e amigos, alguns dos quais deixavam casas e posses para o acompanhar, e com eles caminhava, iniciando um movimento do Reino. Nessa linha, convocou os Doze a quem instituiu como representantes e mensageiros do novo Israel (as doze tribos), e assim os enviou para pregar a mensagem, sem autoridade administrativa ou sacra (não eram sacerdotes, nem escribas), com a autoridade da vida.

Assim, iniciou um movimento que de Israel (Doze Tribos) deveria se abrir, depois, aos pobres do entorno e a todo o mundo. Por isso, no início de sua igreja ou comunidade messiânica estão os enfermos e necessitados, a cujo serviço os Doze e os demais seguidores precisavam se colocar. Não trouxe uma filosofia orgânica, nem uma fórmula de integração forçada, um programa econômico ou político, militar ou religioso que dividisse as pessoas em grupos e estamentos de poder, mas foi simplesmente um homem (filho de homem), amigo de todos, desde os mais pobres, e assim subiu a Jerusalém, cidade do templo (cf. Mt 5,35), para culminar sua mensagem e apresentar sua causa diante do Grande Sinédrio, integrado por anciãos-senadores e escribas.

Veio sem poderes exteriores, mas os sacerdotes, que haviam sequestrado o Deus do Templo, temeram e o acusaram a Pilatos, Governador de Roma, que também lhe viu de alguma forma como invejoso. Morreu pelo crime de ter anunciado (preparado) um Reino universal, que resultava perigoso para o Império e Templo. Os Doze e outros tinham lhe acompanhado até Jerusalém..., mas, ao final, o abandonaram. Um deles o traiu e o restante (inclusive Pedro) se desconcertou, temeu e fugiu.

4. Igreja, comunidade de crentes. Jesus morreu fracassado, mas seu fracasso mostrou que o anunciado era verdade: sua experiência de Deus, sua esperança de Reino (humanidade), cura e reconciliação universal. Morreu, mas alguns de seus seguidores, mulheres e homens, lhe descobriram vivo (ressuscitado) e reiniciaram seu projeto.

Não traçaram um único caminho, mas vários. Não estavam preparados (pensavam que o Reino iria chegar e resolveria tudo), nem sabiam como o movimento deveria se organizar, mas o realizaram, uma vez que a memória de Jesus e o impulso de espírito, com a certeza de que sua obra havia culminado em Deus, lhes fortaleceram. De várias maneiras (Pedro, os doze, mulheres, parentes) retomaram a obra de Jesus e começaram a expandi-la. Não sabiam inicialmente como, nem fixaram um Congresso Instituinte para definir suas estruturas, mas o carisma e liberdade de Jesus foi lhes guiando para criar grupos de amigos e seguidores. Eram ligados pela memória e presença de Jesus, com igrejas fortes em liberdade messiânica (missionária, criadora), mas muito livres, capazes de se adaptar às diversas instituições econômicas ou administrativas, sacralizadas ou legais.

Os cristãos não tiveram ministérios iguais em todos os lugares, mas atuavam de modos distintos, segundo os grupos e as circunstâncias. Não recriaram o sacerdócio de templo, pois todos se sentiam sacerdotes, sem necessidade de templo como Jerusalém. Importavam-se mais com a mensagem que a organização, o carisma que a estrutura, a missão que a contagem das missões. Por isso, houve formas diferentes de viver e expressar a autoridade cristã. Só mais tarde, quando estavam bem estabelecidos, tenderam a unificar seus ministérios.

Houve, além disso, vários grupos de cristãos, hebreus e helênicos, em Jerusalém, na Galileia e a diáspora, como rios que se unindo formaram a Grande Igreja, mas sem dominar uns sobre outros. Por isso, no princípio não houve uniformidade, mas diversos grupos, semi-independentes, várias formas de entender a unidade e ministérios, segundo as circunstâncias, a partir do próprio Cristo.

A igreja de Jerusalém se manteve por um tempo fiel ao templo, mas outros cristãos como Estevão viram que a mensagem e vida de Jesus significava o fim do templo, e assim o viram ao fim todos, sem necessidade de criar uma casta ou grupo sacerdotal, pois seus gestos e ritos (batismo, perdão, eucaristia) pertenciam a todos os crentes.

5. Um corpo messiânico, vários ministérios. Nesse contexto é que se situam os diversos ministérios de tipo laical, não sacerdotal, como sabemos por Paulo, que escreve suas cartas em 50 d. C. O Novo Testamento (finalizado em 150 d. C.) não conhece uma tábua fixa de ministérios ordenados, que surgirão mais tarde, em fins do [século] II d. C., distinguindo bispos, presbíteros e diáconos, que inicialmente eram ministérios leigos (do povo), não sacerdotais (de uma elite), sempre a serviço do corpo da Igreja: Há diversidade de carismas, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de serviços (diaconias), mas o Senhor é o mesmo; diversidade de operações, mas Deus é o mesmo, o que opera tudo em todos (1Cor 12, 4-6).

Eram ministérios laicais, não graus de um novo sacerdócio, eram próprios de todos os cristãos, entendidos como templo de Deus. O primeiro foi, portanto, o “corpo” messiânico, animado pelo Espírito, a comunhão dos crentes, que são em Cristo sacerdotes de uma nova aliança (cf. Hebreus, 1Pedro e Apocalipse). A serviço e para o desenvolvimento desse corpo surgiram, portanto, ministérios de apóstolos, profetas e mestres, servidores de diversos tipos, subordinados ao amor e perdão mútuo (cf. 1Cor 13; Mt 18).

A Igreja é, portanto, um corpo centrado na comunhão de todos, não uma hierarquia (uns acima, outros abaixo), em reciprocidade, partindo dos inferiores e menos honrados que, como sabe a tradição, são os mais importantes (Mc 9, 33-37; 10, 35-45; 1Cor 12, 12-26). Um tipo de lei eleva aqueles que podem realizar obras mais altas, fundando assim uma sociedade piramidal. Contra isso, a comunhão cristã se expressa em chave de comunhão de todos, e o primeiro lugar é dos pobres e excluídos (pecadores). Os ministérios não servem para repartir funções e méritos entre os mais capazes, mas para anunciar e expressar a salvação de Deus a todos por Cristo.

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