Melancolia e promessas de luta nos atos de Dilma antes do julgamento

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25 Agosto 2016

No alto do palanque, sentada entre a filósofa Marilena Chauí e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), Dilma Rousseff aparentava calma e tranquilidade. Levantava a todo instante para receber presentes vindos da plateia: cartas, livros, camisetas, um origami. Quando gritavam seu nome, ou alguém chamava sua atenção, retribuía com sorrisos, acenos e as mãos unidas em forma de coração.


A poucos dias do desfecho definitivo do processo de impeachment, a presidenta afastada subiria pouco depois ao palco, num auditório na capital paulista, para reafirmar que é honesta, que não há uma acusação contra ela e que ela irá ao Senado apresentar sua defesa. “Não porque eu acredite nos meus olhos bonitos, mas pela democracia”, disse sorrindo. A frase resume um pouco o tom geral do “Ato contra o golpe, em defesa da democracia e dos direitos sociais”, organizado pelos movimentos suprapartidários de esquerda Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, nesta terça à noite.
A reportagem é de André de Oliveira e Afonso Benites e publicada por El País 24-08-2016.

Apesar de lotado pela militância e de uma atmosfera de otimismo, praticamente todas as falas, incluindo a de Dilma, pareciam apontar mais para reafirmação de que é vítima golpe e para questões futuras – como a possibilidade de cortes expressivos em gastos sociais – do que para a reversão de sua saída do poder que, para a maior parte dos analistas e políticos, já está praticamente consumado.

Desde que foi afastada da presidência, em 12 de maio, Dilma participou de cerca de uma dezena de mobilizações em diferentes cidades brasileiras. As viagens, batizadas de “Jornada pela Democracia”, foram possibilitadas graças a uma vaquinha virtual que arrecadou cerca de 800 mil reais em um curtíssimo espaço de tempo. A facilidade com que o dinheiro foi levantado, contudo, nunca se reverteu em uma força capaz de inflamar as ruas em defesa do mandato da presidenta afastada. Os meses passaram, os Jogos Olímpicos passaram, a hora decisiva sobre o impeachment chegou e a temperatura das mobilizações é visivelmente mais fria hoje do que foi em outros momentos da crise política em que o país mergulhou desde fevereiro de 2015.

Nesta quarta, véspera do início da maratona do Senado que deve durar ao menos até ao menos a madrugada de terça, a presidenta afastada foi a mais um evento, no Sindicato dos Bancários, em Brasília. Chegou escudada de ex-ministros que permaneceram no seu entorno, como Jaques Wagner (PT-BA) e Miguel Rossetto (PT-RS) e discursou diante de sua emblemática foto sendo interrogada por militares, aos 22 anos, subjugada à Justiça de exceção da ditadura. "Se considerarmos a democracia uma árvore, um golpe militar é como um machado, que destrói os galhos da árvore, o Governo e um regime inteiramente. (...) Se as instituições democráticas estão de pé, o que é isso que está acontecendo? É um golpe em que o ataque à árvore é feito por parasitas que tomam conta de diferentes instituições."

"A Dilma perdeu o timing. O período imediatamente posterior à votação na Câmara, por exemplo, foi favorável a ela. Depois houve o momento em que o Governo interino cometeu erros, como o fechamento do Ministério da Cultura, e também houve as declarações de Sergio Machado que corroboravam a tese do golpe. Mas ela não soube agregar as forças necessárias para reverter isso em um movimento em favor dela”, comenta o cientista político da UFMG, Leonardo Avritzer. Para ele, o erro é só mais um sinal do caráter pouco agregador da presidenta afastada. A recente proposta de um plebiscito para tratar de novas eleições, a uma semana do impeachment, por exemplo, seria o exemplo mais claro disso.

“Houve um momento em que a Folha de S. Paulo, por exemplo, defendeu isso em editorial. Em que a sociedade estava debatendo essa possibilidade, mas o que a Dilma fez foi pegar a proposta, colocá-la em discussão em um grupo político muito restrito e deixar para decidir mais tarde. Já era muito tarde”, comenta Avritzer. Outro problema era a falta de consenso em torno da proposta entre seus apoiadores e movimentos sociais. Nesta terça-feira, o próprio PT, mais preocupado em sua sobrevivência em meio à Lava Jato do que no destino imediato de Dilma, fechou posição sobre a proposta: não endossá-la. Em entrevista coletiva, Rui Falcão, presidente do partido, desconversou dizendo que “a questão está posta por ela”, sem comentar muito além disso.

Para o cientista político Rudá Ricci, que concorda com a avaliação, a atuação da presidenta afastada nos últimos meses tem sido mais de preservação de biografia do que voltada para algo concreto de fato. “Política é versão, não fato. E se o fato é que as mobilizações aconteceram, não houve versão. O PT, por exemplo, pouco divulgou e propagou os atos”, comenta. Segundo ele, o apoio do partido a ela tem sido apenas protocolar.

“A estratégia nesse momento, parece ser a de deixar o Temer se desgastar sozinho com medidas impopulares e de tentar se reorganizar para fazer oposição em 2017, preparando-se para 2018”, diz Ricci. A defesa de seu mandato seria hoje – tanto por parte do PT quanto por parte de movimentos sociais – mais uma forma de atacar Michel Temer e seu projeto de país do que qualquer outra coisa. Dilma defendia sua inocência com altivez, embora no campo político termine seus últimos dias em Brasília sem forças para qualquer movimento próprio a não ser, pela segunda vez, gravar para a história sua imagem num banco dos réus que considera injusto.

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