Depois da graduação, "doutores sem nome"

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16 Agosto 2016

Antigamente, no meu tempo, isto é, há muito tempo, os jovens estudavam para ter um futuro profissional. Para fazer carreira. Em privado, em público, nas profissões. O meu pai, por exemplo, me levou a continuar os estudos, depois da escolaridade obrigatória. Para que eu pudesse alcançar aquele nível de renda, mas também aquela posição social que ele desejava. Por mim, mas também por si mesmo. Porque, através dos filhos, os adultos promoviam também a sua própria ascensão social. De geração em geração.

A opinião é do sociólogo italiano Ilvo Diamanti, publicada no blog Bussole, do sítio do jornal La Repubblica, 12-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O meu pai, por exemplo, esperava que eu, depois do Ensino Médio, cursasse jurisprudência. Ou seja: Direito. Ele me imaginava como "notário". Salário e prestígio social garantidos. Como alternativa, eu poderia me orientar para a carreira de advogado. Além disso, eu sabia que, com a matemática e com as disciplinas técnicas, eu tinha pouca confiança. E eu realmente pensava em ser engenheiro ou arquiteto.

Assim, quando concluí o Liceu clássico e lhe comuniquei a minha escolha, ele me olhou perplexo. E um pouco deprimido. Ciências políticas. O que eu teria concluído na vida? O que eu seria? "Político"? Isto é, o profissional sem profissão?

Eu deixo claro que o meu pai era politicamente engajado. Vereador socialista, na oposição em um município onde, no início dos anos 1970, a Democracia Cristã recebia 80% dos votos. Mas, em suma, uma coisa era o compromisso, outra coisa era o trabalho. A profissão.

Para tranquilizá-lo, acrescentei que, na verdade, eu tinha decidido frequentar o curso sociológico. Com o resultado de aumentar ainda mais as suas dúvidas. Entre Ciências Políticas e Sociologia: onde eu iria acabar? Que "trabalho" eu faria? Questão que voltou, de modo mais claro, quando, tendo terminado os estudos e me tornado "Doutor em Ciências Políticas", expliquei ao meu pai que eu tinha decidido empreender a profissão de pesquisador. Seria "sociólogo".

Ou seja? O que faz um sociólogo? Como se ganha para viver, para si e para a família? Mas ele já tinha se resignado com aquele filho incapaz de pensar no futuro de forma concreta. Movido por paixões, mais do que por interesses. Empenhado em buscar as matérias e as atividades que mais lhe agradavam do que um trabalho remunerativo e seguro. No entanto, é uma questão de confiança. E ele confiava em mim.

Assim, não fez nada para me "frear". Embora, de vez em quando, discretamente, ele questionava a minha esposa para entender se o sociólogo conseguia sustentar a sua família. Ou se havia problemas de renda. Preocupações que, progressivamente, diminuíram, até desaparecerem. Especialmente no início dos anos 1990, quando o filho, aos 40 anos, tornou-se pesquisador. De papel. Ou seja: "professor". Estatal. Garantido. Até a aposentadoria.

Hoje, porém, para os jovens, muita coisa mudou. Nenhum pai acha que estudar garante um futuro profissional. A maioria dos italianos, por outro lado, está convencido de que, ao contrário do passado, os filhos não vão mais chegar à posição social dos pais. No entanto, todos – ou quase todos – os pais apoiam os filhos nos estudos. Depois do Ensino Básico e Médio, levam-nos a frequentar a universidade. Embora muitos não a concluam. Já que, em número de graduados, a Itália é a última na Europa.

Estudar, por outro lado, tem utilidade. Senão no trabalho, na vida. Ajuda a entender, a pensar. O problema é que, depois da reforma Berlinguer do ano 2000, de reforma em reforma, de ministro em ministro, o sistema universitário italiano se complicou. Hoje, temos pós-graduações curtas e especializações. Ou, melhor: mestrados. Resumidos em um número mágico: 3 + 2. Depois: chega de "Faculdade". Agora, "Escolas" e "Departamentos".

Como observou Federico Bertoni, em um ensaio afiado (UniversItaly. La cultura in scatola, Ed. Laterza, 2016), dentro da universidade "reformada", cresceu "uma complicada engenharia burocrática feita de tabelas e de aulas de graduação, ordenamentos e regulamentos, currículos e planos didáticos". Submergida por créditos e descréditos.

Para identificar o graduado, hoje, é necessário fazer referência aos cursos de graduação. Que, no entanto, têm nomes e definições às vezes complexos. Que mudam várias vezes ao longo dos anos. Que dependem: do número de matriculados, dos fatídicos – e famigerados – requisitos mínimos. Ou seja, de professores de carreira disponíveis.

Assim, muito mudou desde que o meu pai não entendia o que eu seria quando fosse grande. Estudando Sociologia ou Ciências Políticas. Que trabalho eu faria? Que profissão? E como me manteria? Como poderia sustentar a família? E o futuro dos meus filhos?

Hoje, o problema é diferente. Talvez, ainda mais complicado. Porque as faculdades não existem mais, os departamentos são multidisciplinares. Ao lado de Escolas Interdepartamentais. Os cursos de graduação mudam de definição e de nome. Frequentemente. Muitas vezes, torna-se difícil perguntar aos jovens o que vão ser quando crescer. Mas, antes ainda, em que vão se formar. Depois da graduação, serão "doutores sem nome".

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