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10 Agosto 2016

“Os líderes políticos atuais, sem ideologias e subordinados às finanças, voltaram-se principalmente ao debate administrativo sobre assuntos pontuais, sem contexto, e onde é difícil distinguir entre a esquerda e a direita. Claramente, estamos em um período de cobiça e temor”, escreve o jornalista argentino Roberto Savio, em artigo publicado pelo sítio do Apostolado Social da Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina, CPAL, 08-08-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Uma maldição chinesa diz: “Que você viva tempos interessantes”, já que muitos acontecimentos perturbariam o elemento essencial da harmonia, base do panteão chinês.

E estes são, por certo, tempos interessantes, em que se acumulam acontecimentos dramáticos: de terrorismos a golpes de Estado e de desastres climáticos, passando pelo declive de instituições, a agitação social. Seria importante, mesmo que difícil, repassar brevemente como chegamos a esta situação de “falta de harmonia”.

Comecemos por algo conhecido. Após a Segunda Guerra Mundial, houve consenso na necessidade de evitar que se repetisse o horror vivido entre 1939 e 1945. A Organização das Nações Unidas (ONU) foi o foro que reuniu quase todos os países e a consecutiva Guerra Fria propiciou a criação de uma associação de jovens estados recém-independentes, os Países Não Alinhados, provenientes de uma zona de contenção entre Oriente e Ocidente.

A distância entre o Norte e o Sul Global se tornou o assunto mais importante das relações internacionais. Tanto é assim que, em 1973, a Assembleia Geral da ONU adotou de forma unânime uma resolução sobre a Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI). O mundo pactuou um plano de ação para reduzir as desigualdades, incentivar o crescimento global e fazer da cooperação e o direito internacional a base de um mundo em harmonia e em paz.

Após a adoção da NOEI, a comunidade internacional começou a trabalhar nesse sentido e depois da reunião preparatória de Paris, em 1979, foi organizada uma cúpula com os mais influentes chefes de Estado e de governo, no balneário mexicano de Cancún, em 1981, para adotar um plano de ação global.

Entre os 22 chefes de Estado e de governo presentes, estavam o presidente estadunidense Ronald Reagan (1981-1989), eleito poucas semanas antes, que se encontrou com a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990), e ambos mandatários atuaram para anular a NOEI e a ideia de cooperação internacional. Os países planejariam políticas segundo seus interesses nacionais e não se inclinariam diante de nenhum princípio abstrato.

A ONU iniciou o seu rebaixamento como âmbito para fomentar a governança. O lugar para a tomada de decisões passou para o Grupo dos Sete (G7) países mais poderosos, até então um órgão técnico, e para outras organizações dedicadas a defender os interesses nacionais das nações mais fortes.

Além disso, outros três acontecimentos ajudaram Reagan e Thatcher a mudar o rumo da história.

O primeiro foi a criação do Consenso de Washington, em 1989, pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que impuseram a política segundo a qual o mercado era o único motor das sociedades e os estados passaram a ser um obstáculo e precisavam se encolher o máximo possível. Reagan, inclusive, cogitou a eliminação do Ministério da Educação.

O impacto do Consenso de Washington no chamado Terceiro Mundo foi muito doloroso. Os ajustes estruturais reduziram drasticamente o frágil sistema público.

O segundo, foi a queda do Muro de Berlim, também em 1989, que trouxe consigo o fim das ideologias e a obrigatória adoção da globalização neoliberal, que resultou ser uma ideologia ainda muito mais rígida. A globalização neoliberal se caracterizou pelo predomínio do mercado, que liberou as empresas “livres” ou privadas de qualquer obrigação com o Estado, a redução do gasto público em serviços sociais, destruindo as redes de proteção social, a desregulamentação, a diminuição de qualquer regulação estatal que pudesse reduzir os lucros e a privatização, a venda das empresas estatais, de bens e serviços para investidores privados.

Além disso, significou a eliminação do conceito de “bem público” ou “comunitário” e o substituiu pela “responsabilidade individual”, obrigando as pessoas mais pobres a buscar soluções por conta própria para sua falta de atenção médica, de sistemas de educação e de seguridade social e, depois, culpando-as por seu fracasso, considerando-as “frouxas”.

O terceiro, foi a eliminação progressiva das normas que regiam o setor financeiro, iniciada por Reagan e completada por Bill Clinton (1993-2001), em 1999, no marco da qual os bancos de depósitos puderam utilizar o dinheiro de seus clientes para a especulação.

Então, as finanças, consideradas o lubrificante da economia, seguiram seu próprio caminho, embarcando em operações muitos arriscadas e sem relação com a economia real. Atualmente, para cada dólar de bens e serviços produzidos, são gerados 40 dólares em transações financeiras.

Ninguém mais defende o Consenso de Washington, nem a globalização neoliberal. Ficou claro que embora do ponto de vista macro, a globalização aumentou o comércio e impulsionou o crescimento financeiro e global, em escala micro, resultou um desastre.

Os defensores da globalização neoliberal sustentavam que o crescimento chegaria ao mundo todo. Ao contrário, concentrou-se cada vez mais em um número crescente de mãos. Em 2010, 388 pessoas concentravam a riqueza de 3,6 bilhões de pessoas. Em 2014, este número foi reduzido para 80 pessoas e, em 2015, para 62.

Tanto é assim, que agora o FMI e o Banco Mundial pedem que o Estado seja reforçado como regulador indispensável. Desde a queda do Muro de Berlim, a Europa perdeu 18 milhões de pessoas da classe média, e os Estados Unidos 24 milhões. Além disso, no momento, existem 1.830 multimilionários com um capital líquido de 6,4 bilhões de dólares. Na Grã-Bretanha se prognostica que, em 2025, a desigualdade será a mesma que em 1850, em plena era vitoriana e quando nascia o capitalismo.

O novo mundo criado por Reagan se baseou na cobiça. Alguns historiadores sustentam que a cobiça e o medo são os dois motores da história, e os valores e as prioridades mudam em uma sociedade cobiçosa.

Voltando a nossos dias, temos um novo grupo de cavaleiros do Apocalipse, os danos dos passados 20 anos (1981-2001) se agravam nos seguintes 20 anos (2001-2020), que ainda não transcorreram.

O primeiro cavaleiro foi o colapso do sistema bancário nos Estados Unidos, em 2008, por especulações absurdas com os créditos hipotecários. A crise se expandiu para Europa, em 2009, baseado na queda do valor dos títulos imobiliários, como os gregos.

Recordemos que para salvar o sistema financeiro, os países destinaram cerca de 4 bilhões de dólares, uma quantia enorme, caso se leve em conta que os bancos continuam tendo cerca de 800 bilhões de dólares em ativos tóxicos.

Enquanto isso, os bancos tiveram que pagar 220 bilhões de dólares em multas por atividades ilegais, mas nenhum gerente foi condenado. A Europa não voltou à situação em que estava antes da crise. Além disso, numerosos postos de trabalho desapareceram por conta do deslocamento da produção a lugares mais baratos e aumentaram os empregos de baixos salários, além dos precários.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), um trabalhador ganha atualmente, em termos reais, 16% menos que antes da crise, atingindo principalmente os setores mais jovens, com 10,5% do emprego médio na Europa. No entanto, o único estímulo ao crescimento é para o setor bancário, para o qual o Banco Central Europeu destina 80 bilhões de dólares por mês. Esse montante resolveria facilmente a falta de emprego juvenil.

Atualmente, os economistas falam de uma “Nova Economia”, na qual o desemprego é estrutural. De 1959 a 1973, o crescimento mundial ficou acima de 5% ao ano, sendo reduzido para 3%, em 1973, com a crise do petróleo, que marcou uma mudança. E, desde 2007, não conseguimos chegar a 1%.

Além disso, é preciso adicionar o desemprego crescente propiciado pelo desenvolvimento tecnológico. As fábricas necessitam de uma proporção menor de trabalhadores. A Quarta Revolução Industrial, que implica a produção robotizada e que agora representa 12% do total, subirá para 40%, em 2025.

Alguns economistas, como o estadunidense Larry Summers, uma voz oficial do sistema, dizem que estamos em um período de estagnação que durará vários anos. O temor pelo futuro se tornou uma realidade, avivado pelo terrorismo e o desemprego e pelo sonho de muitas pessoas que acreditam que é possível voltar a um passado melhor.

Disso se aproveitam figuras populistas, desde o estadunidense Donald Trump à francesa Marine Le Pen. Uma das consequências da crise é que em vários países europeus apareceram partidos populistas, com plataformas nacionalistas e xenófobas, somando 47 na última contagem realizada. Muitos deles já estão no governo ou integram coalizões governantes, como na Eslováquia, Hungria e Polônia, e será preciso prestar atenção nas próximas eleições da Áustria.

O segundo cavaleiro do Apocalipse é o resultado das intervenções armadas dos Estados Unidos no Iraque e, depois, da Europa na Líbia e Síria, com um papel especial do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy (2007-2012).

Isso fez com que, a partir de 2012, a Europa começasse a receber uma imigração massiva e para a qual não estava preparada. De repente, as pessoas sentiram medo da onda humanas que vinha e de seu impacto no mercado de trabalho, cultura, região, etc., convertendo-se em um elemento importante do medo.

Em seguida, o terceiro cavaleira foi a criação do Estado Islâmico (EI) na Síria, em 2013, um dos presentes da invasão do Iraque, encabeçada pelos Estados Unidos. Não nos esqueçamos da crise global, que começou em 2008, e desde então o populismo e o nacionalismo começaram a crescer.

O espetacular impacto do Estado Islâmico nos meios de comunicação e a radicalização de muitos jovens europeus de origem árabe, em geral marginalizados, acentuou o medo e foi um presente para o populismo, agora capaz de utilizar a xenofobia para mobilizar cidadãos e cidadãs inseguros e descontentes.

A decadência das instituições europeias levou muitos países, após o Brexit, a pedir uma profunda revisão do projeto europeu. No dia 2 de outubro, a Hungria consultará seus cidadãos: Aceitaria uma quantia de imigrantes imposta pela União Europeia (UE) contra a vontade do parlamento húngaro?

Nesse mesmo dia, serão repetidas as eleições na Áustria por questões de formato, depois que que a extrema-direita perdeu por 36.000 votos as anteriores. Serão seguidas por Holanda, França e Alemanha, com a probabilidade de que cresçam os partidos de extrema-direita. Polônia e Eslováquia também querem realizar referendos sobre a União Europeia. É possível que, em fins de 2017, as instituições europeias estejam profundamente danificadas.

O verdadeiro problema é que desde a falida Cúpula de Cancún, em 1981, os países perderam a capacidade de pensar juntos. Índia, Japão, China e muitos outros atravessam uma onda de nacionalismo.

Em Cancún, todos os participantes, do então presidente francês François Mitterrand (1981-1995) à primeira-ministra indiana Indira Ghandi (1966-1977 e 1980-1984), do presidente tanzaniano Julius Kambarage Nyerere (1964-1985) ao primeiro-ministro canadense Pierre Trudeau (1968-1979), compartilharam certos valores de justiça social, solidariedade, respeito pelo direito internacional, assim como a convicção de que as sociedades fortes eram a base da democracia, exceto, é claro, Reagan e Thatcher, a que declarou: “não há sociedade, só indivíduos”.

Também consideravam a paz e o desenvolvimento como paradigmas de boa governança. Tudo isso desapareceu. Os líderes políticos atuais, sem ideologias e subordinados às finanças, voltaram-se principalmente ao debate administrativo sobre assuntos pontuais, sem contexto, e onde é difícil distinguir entre a esquerda e a direita. Claramente, estamos em um período de cobiça e temor.

O tempo não ajuda

Em 1900, a Europa concentrava 24% da população mundial. Em fins deste século, só 4%. A Nigéria terá mais habitantes que os Estados Unidos, e a África, que agora tem 1 bilhão de habitantes, terá 2 bilhões, em 2050, e 3 bilhões, em 2100. Seria o momento de se discutir como encarar o mundo que vem. Foram necessários 25 anos para se chegar a um acordo sobre a mudança climática, e talvez já muito tarde. Em matéria de migrações e emprego, esse tempo é uma eternidade.

Além disso, esse deve ser um acordo global, não só uma reação impulsiva da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em completa solidão, sem sequer consultar o atual presidente da França, François Hollande. Mas, esse tipo de agenda é politicamente inimaginável. Como discutir algo assim com Le Pen, Trump e outros populistas emergentes no marco do nacionalismo que se propaga pelo mundo?

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