Diaconato feminino: limites e possibilidades da "tese Menke". Artigo de Andrea Grillo

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09 Agosto 2016

Utilizar a tradição histórica e a dogmática para impedir o desenvolvimento de uma pastoral integral – respeitosa da igual dignidade de homens e mulheres diante de Deus e a serviço de Deus – constitui não um desenvolvimento do Concílio Vaticano II, mas uma forma muito sutil para se defender dele e para se fechar em relação a ele.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 07-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Acabamos de ler os nomes dos componentes da Comissão de Estudo sobre o "diaconato feminino", instituída pelo Papa Francisco nos últimos dias, e encontramos, quase simultaneamente, uma entrevista concedida ao jornal alemão Die Welt por Karl-Heinz Menke (foto), um dos membros nomeados à Comissão.

Ao contrário de alguns comentários que surgiram nos últimos dias, embora compreensíveis, eu não acho que o teólogo de Bonn se equivocou ao dizer logo, claramente, aquilo que pensa sobre o assunto. Em vez disso, acho que a sua "parrésia" pode ser útil para identificar os primeiros pontos sobre os quais a Comissão deverá trabalhar.

Dizer abertamente aquilo que se pensa, e de modo argumentado, e com base em um estudo sério e documentado, não me parece ser um defeito. Seria um defeito se fosse acompanhado pela pretensão de impedir que a Comissão trabalhasse sobre a "questão".

Das palavras do professor Menke, de fato, se poderia supor – erroneamente, é claro – que o problema do "diaconato feminino" é inexistente, que a Comissão não teria sequer a chance de abordar. Eu não acho que seja assim e gostaria de tentar mostrar isso, ilustrando os limites e as dificuldades que emergem das palavras da entrevista concedida por esse renomado membro da Comissão.

Apresento, em primeiro lugar, as palavras dele (1), depois as examino criticamente (2), para concluir com algumas perspectivas de desenvolvimento possível da questão (3).

1) As palavras de Karl-Heinz Menke

Reporto a seguir as passagens fundamentais a partir do site Pray Tell, com alguns grifos.

Um membro [da Comissão] – Pe. Karl-Heinz Menke, professor emérito de Teologia Dogmática da Universidade de Bonn e membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano – recentemente expressou as suas opiniões sobre o assunto em uma entrevista ao Die Welt. Ele defende um papel maior para as mulheres e não vê nenhuma objeção dogmática para presidir batismos, matrimônios e funerais por parte de pessoas não ordenadas. Ele também é aberto à possibilidade de cardeais do sexo feminino. Mas ele não acha que as mulheres podem ser ordenadas para o primeiro nível das ordens sagradas, o diaconato. Ele vê apenas a possibilidade de um papel não sacramental de "diaconisas" para as mulheres.

Aqui, traduzidos, estão alguns trechos da entrevista.

Die Welt – Como o papa chegou até o senhor?

Karl-Heinz Menke – Eu não sei. Mas eu posso fazer algumas conjecturas. Em 2013, eu publiquei um exame do tema "Mulheres diáconos?", na revista Theologie und Philosophie, de Frankfurt (Die triadische Struktur des Ordo und die Frage nach einem Diakonat der Frau, in: Theologie und Philosophie 88 (2013) 340-371). E o papa me nomeou para a Comissão Teológica Internacional em 2014.

Die Welt – Qual é, precisamente, o mandato da nova comissão sobre as diaconisas?

Karl-Heinz Menke – Ele ainda não foi fixado por escrito. Eu presumo que o papa vai querer examinar se a reintrodução de um ministério [Beauftragung] ligado ao título de "diaconisa" pode servir à missão da Igreja e, não menos importante, a uma incorporação mais forte das mulheres. Embora muitas pessoas de fora, erroneamente, assumam-no, isso não diz respeito, em caso algum, à admissão de mulheres ao sacramento da Ordem. Porque o Concílio Vaticano II declarou de forma definitiva que o diácono recebe o sacramento da Ordem. O sacramento da Ordem é recebida não apenas pelo bispo e pelo padre, mas também pelo diácono. Assim, como existe apenas um único sacramento da Ordem (em três níveis, isto é, diácono, padre, bispo), a admissão de mulheres ao diaconato sacramental, concedida pela ordenação, significaria a sua admissão também à ordenação sacerdotal e episcopal. (…)

Die Welt – Que papel as diaconisas desempenharam na Igreja primitiva?

Karl-Heinz Menke – O ofício das diaconisas representa, em um retrospecto histórico, um fenômeno muito complexo, que é marcado por grandes diferenças geográficas e temporais. Na Igreja oriental, existem diaconisas até hoje. Enquanto isso, as fontes históricas foram peneiradas exaustivamente e mostram claramente: em nenhum tempo e em nenhum lugar as diaconisas fazem parte do ofício concedido pela ordenação. O que está testemunhado por toda a parte é a exclusão expressa de qualquer tipo de serviço litúrgico ao altar, de exercício público do ministério da proclamação e da solene celebração do batismo. Na Igreja primitiva, as diaconisas desempenhavam serviços de caridade e administrativos, em parte, também, semelhantes aos de hoje nas ordens religiosas ativas [karitativ] da Igreja Católica: enfermagem, serviço aos pobres, cuidado das pessoas etc.

Die Welt – Na sua opinião, deveríamos reintroduzir um diaconato feminino?

Karl-Heinz Menke – É claro, podemos considerar se a institucionalização da participação das mulheres sob a forma de um ofício semelhante ao do início da Igreja ou da Igreja oriental faria sentido. Mas, nesse sentido, não pode ser uma questão de oficializar ou clericalizar qualquer coisa que possa ser feita na Igreja. Devemos reconhecer que, ao menos no Ocidente, a instituição das diaconisas foi assumida pelas ordens femininas ativas [karitativ tätig]. O apelo justificado por uma maior participação das mulheres na Igreja dificilmente se cumpriria, em todo o caso, admitindo-as a uma função exclusivamente de serviço. As mulheres que fossem chamadas de diaconisas, mas não fossem iguais aos diáconos, provavelmente se sentiriam discriminadas em vez de mais valorizadas. (…)

2) Os aspectos histórico-dogmáticos a serem esclarecidos e as dificuldades na relação entre Igreja e mundo

O texto da breve entrevista, obviamente, é apenas um ponto de partida. Em outra ocasião, gostaria de examinar mais acuradamente o documentado estudo já citado, publicado por Menke em 2013: Die triadische Struktur des Ordo und die Frage nach einem Diakonat der Frau, in: Theologie und Philosophie 88 (2013) 340-371. Mas, por enquanto, limito-me a assinalar uma série de perplexidades que emergem simplesmente a partir da leitura dessa entrevista:

- O horizonte em que Menke parece raciocinar decorre de algumas evidências não discutidas, por terem sido confiados ou apenas à investigação histórica ou apenas à elaboração dogmática. Por um lado, a "valorização das mulheres" parece compatível apenas com "um reconhecimento de autoridade não sacramental"; por outro, a exigência de atribuir um papel novo às mulheres – que é abertamente reconhecido – parece, em vez disso, sugerir o "cardinalato feminino" e não o "diaconato feminino";

- uma releitura da "novidade conciliar" do "único sacramento da Ordem nos três graus" é utilizada por Menke não como um avanço, mas como um atraso. Não se trata de uma melhor articulação da autoridade eclesial, mas de uma redução dela ao seu grau máximo – episcopal – impedindo toda elasticidade para os graus inferiores. O autor diz abertamente que não é possível configurar qualquer "ordenação das mulheres ao diaconato", porque isso implicaria, necessariamente, a abertura também do presbiterado e do episcopado a ministras femininas.

- ao menos na entrevista ao jornal alemão, Menke parece esquecer que, entre o fim dos anos 1990 e 2009, interferiu-se no Catecismo da Igreja Católica e no Código de Direito Canônico para diferenciar o diaconato do presbiterato e do episcopado em termos de "ação in persona Christi". Ora, justamente essa intervenção, sobre a qual eu já levantei uma série de objeções(veja-se aqui), constitui um procedimento que, surpreendentemente, trabalha em favor do diaconato feminino, em vez de contra, porque, mesmo que de modo forçado, introduziria estruturalmente aquela articulação que Menke, lendo instrumentalmente o Concílio, gostaria de excluir a priori.

- por fim, uma adequada relação entre história e dogma deveria tornar um teólogo muito mais cauteloso para tirar consequências, como faz Menke, a partir da afirmação pela qual "em nenhum tempo e em nenhum lugar as diaconisas fazem parte do ofício concedido pela ordenação" ["at no time and in no place did the deaconess have a part in the office bestowed by ordination"]. Porque a história pode nos dizer o que houve, não o que deve ser.

O fato de que "mulheres a serviço da Igreja" nunca se tornaram "diaconisas", no sentido forte que hoje gostaríamos de entender, não pode ser um impedimento para configurar esta como uma possibilidade de um futuro não muito remoto. Por que, no matrimônio, aprendemos a paridade entre marido e mulher, embora sem qualquer apoio histórico a esse respeito? Se a história nos oferece tantos preconceitos sobre o matrimônio e sobre o poder, devemos necessariamente torná-los normativos para a tradição eclesial?

Em meados do século XIX, tínhamos teólogos que perdiam o seu tempo para encontrar justificativas teológicas para a escravidão. Eu não gostaria que, hoje, repetíssemos o mesmo erro, justificando discriminações já injustificáveis contra mulheres que, objetivamente, são autoridades na Igreja, que devem ser não só reconhecidas, mas também favorecidas e, eu diria, atendidas. Seria realmente paradoxal que uma acurada pesquisa histórica tivesse como único propósito, facilmente realizável, a defesa dos nossos preconceitos em pensar e realizar a relação mais adequada entre sexo e autoridade.

3) Possíveis desenvolvimentos posteriores

Uma boa regra de um trabalho de aprofundamento da tradição é a diferença entre perfil histórico e perfil sistemático da questão. Como recordou R. Guardini, em um estudo fundamental sobre a ciência litúrgica histórica e sistemática, por um lado, a história esclarece o que o diaconado "foi"; mas uma abordagem sistemática deve estabelecer o que o diaconado "deve ser".

É bem possível que a abordagem histórica pretenda passar por cima da sistemática e dogmática, e isso seria um erro; mas igualmente grave seria que uma abordagem dogmática pretendesse reler a história de modo tão orientado a ponto de reduzi-la a uma série selecionada de "demonstrações históricas" de uma tese a priori.

Ao avaliar as palavras de Menke, como vimos, emergem essas duas tentações: de um lado, a tentação de descarregar sobre a história a falta de decisão sobre o futuro; de outro, a tentação de enrijecer a história sobre uma "tese preconcebida", que só é capaz de imobilizar a história futura e presente, e de reler unilateralmente também a passada.

No trabalho da Comissão, será salutar que abordagens históricas e abordagens sistemáticas sejam capazes de se corrigir reciprocamente, para se colocarem a serviço de uma "lógica pastoral" que não pode ser reduzida a uma série de dados históricos, nem a uma série de princípios dogmáticos.

Utilizar a tradição histórica e a dogmática para impedir o desenvolvimento de uma pastoral integral – respeitosa da igual dignidade de homens e mulheres diante de Deus e a serviço de Deus – constitui não um desenvolvimento do Concílio Vaticano II, mas uma forma muito sutil para se defender dele e para se fechar em relação a ele.

Eu acho, realmente, que não será essa a lógica com a qual a Comissão desenvolverá a sua tarefa delicada, valendo-se da preciosa contribuição de todas as diversas competências necessárias.

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