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08 Agosto 2016

Enquanto o Maracanã dançava ao ritmo febril do samba e se preparava para o "delírio" de acolher a última equipe olímpica da cerimônia inaugural, a do Brasil, dona da casa, de repente, ouve-se um rugido que faz tremer o estádio. Não é a entrada surpresa do fugidio "Rei Pelé", nem mesmo a imagem de um gol mundial dele.

A reportagem é de Massimiliano Castellani, publicada no jornal Avvenire, 07-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Também não é o momento do canto do trio fabuloso Caetano Veloso, Gilberto Gil e Anitta, mas é o da entrada histórica nas Olimpíadas de uma equipe realmente única no mundo, a ponto de desencadear uma ovação de pé arrepiante.

Alguns espectadores, não reconhecendo a bandeira, se perguntam: "Mas quem são eles?". Mas a maioria do povo do Rio sabe que aquela bandeira com cinco círculos não é a de um país como a minúscula e remota Micronésia, porque os dez jovens que estão atrás dela não têm uma bandeira.

"Wow, the team of refugees!", agitou-se ao microfone o apresentador estadunidense. Sim, é o momento tão esperado da Equipe Olímpica dos Refugiados.

Euforia carioca contagiante que deixa espaço para a comoção coletiva ao ver a heroína da equipe, a porta-bandeira in pectore Yusra Mardini. Essa síria de 18 anos parece realmente um anjo que caiu do céu carioca. A menina de Damasco sorri por todas as lágrimas derramadas para chegar até aqui.

Foi em Damasco que, em agosto de 2015, começou a sua odisseia junto com a irmã Sarah, com a qual atravessaram o Líbano para depois chegar à Turquia, onde só depois do roubo dos traficantes – "Nós pagamos 5.000 euros, todos os nossos bens" –, no fim, puderam tentar o caminho do mar.

O risco de morrer afogados sob o bote era muito elevado, mas a natação sempre foi a sua grande razão de viver, e foi a natação que as salvou e as fez levar a salvo pelo menos 20 pessoas que estavam se afogando no mar Egeu.

"Eu, que amo a água, naqueles momentos, odiei profundamente o mar...", conta Yusra, que, com Sarah, depois, conseguiu naufragar – certamente não docemente – nas margens da ilha de Lesbos, para depois começar uma nova vida na Alemanha. Uma bolsa de estudos na Universidade de Berlim e as portas abertas da piscina do Wasserfreunde Spandau 04, para tentar recomeçar, nadando com coragem e orgulho nos 200 metros. Yusra certamente não tem os tempos das melhores nadadoras, mas, mesmo assim, é um exemplo de resistência humana.

"Aqui, eu vou tentar fazer o meu melhor, visando a estar no top para Tóquio 2020", diz Yusra. "Por enquanto, com certeza, a minha irmã Sarah também estará na disputa." Sarah não conseguiu conquistar a qualificação olímpica, mas está feliz, assim mesmo, por ver a irmã "à frente" de uma equipe nacional, cuja presença, finalmente, demonstra também uma sensibilidade concreta do COI, nem sempre atento apenas aos gigantismos financeiros.

É a primeira vez que, nos Jogos, estreia uma realidade como essas, e isso, como diriam os torcedores do Barcelona, é "més que un club", é muito mais do que uma formação esportiva. É a mensagem que o universo de cinco círculos envia para aquela outra parte do mundo louca e terrorista, perenemente em guerra, que fez com que mais de 21,3 milhões de seres humanos (dado da ACNUR, mas se calcula que sejam mais de 65 milhões nesse status) vivam na condição de "refugiados". Os sem-pátria, porque a pátria que tinham e em que acreditava, e talvez ainda acreditam, está queimando com as suas casas, com os quartos de filhos que ficaram órfãos, começando pela própria terra natal.

Yusra e Rami Anis, sírio e nadador que, na piscina, tem braços de borboleta, foram arrancados das suas raízes. Ele era o número um na Síria antes de uma fuga que tem sabor de vitória apenas agora, quando ele vive na Bélgica (em um subúrbio fora de Gent): "Só o fato de poder apertar as mãos de Michael Phelps é a minha medalha aqui no Rio".

Yonas Kinde tem mais de 20 medalhas e troféus naquele que ele chama de "o meu novo país, Luxemburgo". Ele fugiu da Etiópia, esse homem que poderia ser o pai de Yusra: ele tem 36 anos e, há cinco, vive em um vilarejo onde descobriu o "frio, os invernos longos, mas também a possibilidade de chegar às Olimpíadas. Embora essa oportunidade só podia ser dada a mim pela Equipe Olímpica dos Refugiados".

Paulo Amotun Lokoro é grato à equipe, mas não tem o mesmo espírito decoubertiniano. "Eu não escondo. Eu busco o ouro e, talvez, também, o recorde na minha especialidade, os 1.500 metros", avisa o líder do miniequipe nacional interna dos refugiados do Sudão do Sul, que vive e treina no Quênia.

No campo de Kakuma, além de Paulo, com os irmãos e os restos de famílias que escaparam dos horrores do Sudão do Sul, também estão os seus compatriotas Anjelina Nadai Lohalith, atleta que também corre os 1.500 metros, Yiech Pur Biel (atletismo, 800 metros), James Nyang Chiengjiek (400 metros) e Rose Nathike Lokonyen (maratonista), que teve a honra de levar a bandeira do COI na cerimônia de abertura. Uma noite que Rose nunca vai esquecer, um dia incrível como aquele em que, correndo descalça, conquistou a maratonista queniana Tegla Chepkite Loroup, que imediatamente a inseriu no programa da sua fundação.

Um deles conseguirá subir ao pódio? Quem sabe: Biel chegou a pouco no atletismo, passando pelo futebol e redescobrindo a paixão pela corrida, abandonada desde criança. Com Lakoro, os jovens de Kakuma têm um objetivo preciso aqui no Rio: "A nossa vitória será a de fazer com que as pessoas entendam que podemos nos tornar embaixadores de todos os refugiados do mundo, especialmente aqueles invisíveis e que não têm voz, nem a possibilidade de se mostrar, como a que o esporte nos deu".

Palavras que dão a entender porque essa é a equipe do coração do Papa Francisco. E, lá de cima, a grande alma de Nelson Mandela também deve estar orgulhosa, ele que, até o seu último suspiro, repetiu a sua mensagem olímpica, que Yusra e os seus companheiros podem entender mais do que todos: "O esporte tem o poder de mudar o mundo e pode levar esperança aonde, uma vez que, só havia desespero".

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