Pharrajimos, o genocídio Rom. Artigo de Katalin Barsony

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05 Agosto 2016

Mais de 70 anos depois do Pharrajimos, os 12 milhões de Rom da Europa são a maior minoria étnica do continente e a mais discriminada: 86% dos italianos, 73% dos dinamarqueses e 60% dos franceses veem os Rom desfavoravelmente. Cerca de 71% dos Rom que vive na Europa Oriental estão em profunda pobreza e ameaçados, de um lado ao outro do continente, pelo retorno de uma ideologia violenta e de extrema direita.

A opinião é de Katalin Barsony, ativista e diretora Rom, diretor-executivo da Fundação Romedia, com sede em Budapeste, Hungria. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 03-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um estado de ânimo sombrio era palpável entre a multidão reunida no dia 2 de agosto em torno do Memorial do Holocausto de Londres, uma pedra posta no coração do Hyde Park. Ao meio-dia, cerca de 100 pessoas, sobretudo Rom e judeus provenientes de todo o país, se reuniram para comemorar o Pharrajimos – a morte de mais de meio milhão de pessoas, cerca de um quarto de toda a população Rom e Sinti da época – ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial. De pé, permaneceram em silêncio para recordar, debaixo da chuva forte e de um céu de chumbo. Alguns seguravam nas mãos uma faixa azul com a frase: "Chega de racismo contra os Rom".

Uma manifestação comemorativa também foi realizada em Berlim, em frente ao Reichstag, onde está o monumento aos Rom e aos Sinti exterminados pelos nazistas. No entanto, entre muitos Rom, há a sensação de que o seu sofrimento foi retocado pela história – uma amnésia que, hoje, torna as comunidades Rom mais vulneráveis à discriminação e à agressão.

Foi escolhida a data de 2 de agosto, porque, nesse dia, em 1944, no campo de Auschwitz-Birkenau, foram mortos os últimos três mil Rom internados no Zigeunerlager especial. Era o "campo de concentração dos ciganos", que foi a prisão de mais de 20 mil pessoas mortas nas câmaras de gás, enquanto as crianças eram submetidas a experimentos terríveis por parte do médico do campo Joseph Mengele.

No dia 16 de maio daquele ano, os seis mil Rom detidos lá souberam que estava programado o seu extermínio para dar lugar a um grupo recém-chegado de trabalhadores internados. Quando os guardas irromperam para conduzi-los ao massacre, os Rom, embora enfraquecidos pela prisão, estavam prontos para reagir com qualquer instrumento que pudessem encontrar à disposição – pedras, tubos, pedaços de madeira. O comandante do campo chamou os guardas para impedir que a revolta se difundisse para além do Zigeunerlager.

Nós recordamos esse ato de rebelião como o "Dia da Resistência Rom". Nos meses seguintes, as autoridades do campo reduziram a população do Zigeunerlager enviando 1.000 dos presos mais jovens para o campo de Buchenwald e 1.000 mulheres para Ravensbruck.

O extermínio, porém, só tinha sido adiado: na noite entre os dias 1º e 2 de agosto, as SS entraram novamente no campo de concentração e fizeram isso com uma força esmagadora. Dentro, havia três mil Rom – principalmente jovens, idosos e doentes – que foram dominados e imediatamente enviados para morrer nas câmaras de gás. A cada ano que passa, a necessidade de reconhecer esses eventos se torna mais urgente, e os meios para fazer isso, mais difíceis.

Já não há quase ninguém que possa recordá-los em primeira pessoa. Não devemos permitir que o dia 2 de agosto de 1944 seja relegado à poeira dos arquivos históricos. A última testemunha ocular conhecida era Erzsébet Szenesné Brodt (foto acima), falecida recentemente, que foi deportada aos 17 anos de idade de Kaposvár, na Hungria, para Auschwitz, com a mãe e a irmã de 10 anos, enviadas para a câmara de gás assim que desceram do trem.

Entrevistada em 2012 pela Romedia Foundation, Brodt, que vivia em uma barraca nos arredores do Zigeunerlager, lembrou claramente aquela noite, quando as SS atacaram com lança-chamas e cães de assalto. No resto da sua vida, todas as vezes em que ela via um cão grande, sentia um arrepio de medo.

A comemoração do dia 2 de agosto como Dia da Memória do Genocídio dos Rom e dos Sinti está tendo algum reconhecimento institucional nos últimos anos. O dia é reconhecido na Polônia, a Hungria e na Ucrânia (os Sinti fazem parte do êxodo Rom que se estabeleceu principalmente na Europa central). Mas o processo é cansativamente lento. O governo da Alemanha Ocidental não reconheceu o Holocausto dos Rom até 1982; a Alemanha reunificada só dedicou um monumento aos Rom e aos Sinti vítimas do nacional-socialismo em 2012.

Em abril de 2015, o Parlamento europeu aprovou uma resolução que institui formalmente o dia 2 de agosto como o Dia da Memória do Holocausto Rom e instou os Estados membros a fazerem o mesmo, recordando a atual situação de dificuldade dos Rom na Europa e expressando "profunda preocupação com o aumento de um sentimento anti-Rom na Europa, acompanhado muitas vezes por violentas agressões".

Mais de 70 anos depois do Pharrajimos, os 12 milhões de Rom da Europa são a maior minoria étnica do continente e a mais discriminada: 86% dos italianos, 73% dos dinamarqueses e 60% dos franceses veem os Rom desfavoravelmente. Cerca de 71% dos Rom que vive na Europa Oriental estão em profunda pobreza e ameaçados, de um lado ao outro do continente, pelo retorno de uma ideologia violenta e de extrema direita.

Para honrar corretamente o mais de meio milhão de vítimas do Holocausto Rom e Sinti, os Rom deveriam ver reconhecido o seu direito de existir como cidadãos europeus de pleno direito e livres.

Diante dos seus olhos, quando mulheres e crianças Rom eram empurrados para as câmaras de gás pelas SS, Erzsébet Brodt prometeu a si mesma que sobreviveria. "O meu dever será o de contar a todos", disse a última testemunha daquela tragédia. "É responsabilidade de todos os sobreviventes lutar para que essas coisas não aconteçam mais."

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