Oriente Médio: quem instrumentaliza as religiões. Entrevista com Georges Corm

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28 Julho 2016

Dhaka, Istambul, Nice. E, mais uma vez, as vítimas de Bruxelas, assim como as de Tunis, o Bataclan, assim como o bar Pulse, em Orlando: a atualidade nos obriga a uma terrível contabilidade de morte que parece não se esgotar nunca. O rastro de terror de matriz fundamentalista que está ensanguentando o mundo causa vertigens e inevitavelmente traz argumentos para a interpretação daqueles que, das salas de TV aos think tank geopolíticos, relacionam a violência com um irreconciliável conflito entre culturas e religiões.

A reportagem é de Chiara Zappa, publicada no jornal Avvenire, 27-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A teoria do choque de civilizações, exposta por Samuel Huntington no seu ensaio de 1996 e que, depois, se difundiu com uma sorte surpreendente do mundo acadêmico ao da mídia, está hoje na base de todas as leituras mais credenciadas das tensões que atravessam o presente, que se encobrem de motivações confessionais e afirmações identitárias.

"Mas cair nessa armadilha significa fazer justamente o jogo dos terroristas": a convicção é de Georges Corm, economista e historiador libanês, consultor de diversas organizações internacionais (incluindo a União Europeia e o Banco Mundial), que dedicou décadas de estudo para analisar as dinâmicas da área mediterrânea.

Para o eclético intelectual cristão nascido em Alexandria em 1940, ministro da Economia do Líbano de 1998 a 2000, professor em várias universidades também europeias – atualmente na Saint Joseph University, em Beirute –, exatamente a 100 anos dos acordos de Sykes-Picot que dividiram entre a França e o Reino Unido as províncias árabes do Império Otomano, os efeitos nefastos da famosa "linha na areia" que lançou as bases geopolíticas do atual Oriente Médio continuam evidentes no caos endêmicas da região.

Uma instabilidade que tem muito pouco a ver com as supostas diferenças irredutíveis entre civilizações, como ele defendeu em textos como Oriente Occidente. Il mito di una frattura [Oriente-Ocidente. O mito de uma fratura] (Vallecchi, 2003), Il mondo arabo in conflitto [O mundo árabe em conflito] (Jaca Book, 2005), ou o mais recente Il nuovo governo del mondo [O novo governo do mundo] (Vita e Pensiero, 2013).

Mas é no ensaio Contro il conflitto di civiltà. Sul "ritorno del religioso" nei conflitti contemporanei del Medio Oriente [Contra o choque de civilizações. Sobre o "retorno do religioso" nos conflitos contemporâneos do Oriente Médio], agora traduzido pela editora Guerini e Associati (234 páginas), que Corm se dedica de modo sistemático a refutar leituras considerados simplistas e "cômodas" demais de fenômenos com uma complexidade histórica, econômica e política muito mais profunda.

Eis a entrevista.

O senhor cita alguns eventos da história recente que efetivamente trouxeram a religião novamente para o cenário global: por que defende que estamos diante não de um "retorno do religioso", mas de um "recurso ao religioso" para fins instrumentais?

Depois da Segunda Guerra Mundial, assistimos à emergência de Estados que pretendiam ser porta-vozes de uma religião: pensemos no Paquistão, baseado no Islã, ou em Israel, constituído sobre o judaísmo, apesar do fato de os fundadores se sentirem laicos. Mas também a Arábia Saudita, onde o apoio dos Estados Unidos permitiu que a família Saud, em aliança com a corrente wahhabita, criasse um reino fundado sobre o radicalismo sunita, cuja riqueza devida ao petróleo, depois, influenciou fortemente as políticas na região.

É a mesma lógica que explica o treinamento, por parte dos EUA, de combatentes islamistas em função antissoviética no Afeganistão, que, depois, lançou as bases da Al-Qaeda: um fruto da estratégia do consultor de Jimmy Carter para a segurança nacional, Zbigniew Brzezinski, que visava a instrumentalizar a religião contra o comunismo. Eis o ponto: em todos esses casos, a fé é posta em causa para ser posta a serviço de outros interesses.

A análise política hoje, no entanto, se concentra sorbe fatores como a identidade e a cultura, mais do que nas causas profanas dos conflitos...

Embora seja um dado de bom senso o fato de que as guerras provêm da ambição humana – pelo acesso aos recursos, às rotas estratégicas, às trocas econômicas internacionais –, o marco intelectual fornecido por Huntington – essencialmente, uma revisita à velha tese racista do século XIX, que via a contraposição entre arianos e semitas – deu legitimidade a uma série de escolhas geopolíticas, principalmente as invasões estadunidenses do Afeganistão e do Iraque. Nesse contexto, os princípios do direito internacional já são aplicados de forma diferente dependendo da identidade confessional dos diversos Estados e da sua relação com as potências ocidentais.

Sem falar daqueles que usam a fé para mobilizar as massas...

Exato. Com a agravante de que, quanto mais ela é utilizada como legitimação para atos de governo, internos ou internacionais, menos os cidadãos ousam pôr tais atos em discussão. Trata-se de um método eficaz para paralisar o espírito crítico do povo em relação ao poder, no Ocidente e no Oriente Médio.

Depois do choque das guerras mundiais no século XX, quando nos confrontamos dramaticamente com os limites dos valores iluministas e marxistas, verificou-se um deslocamento para o multiculturalismo: o conceito de igualdade perante a lei foi abandonado em favor do "direito de ser diferente", como uma forma avançada de democracia capaz de acomodar as especificidades étnicas ou religiosas dos cidadãos.

No entanto, isso abre caminho para muitas ambiguidades. Por exemplo, de acordo com alguns, os imigrantes não têm o dever de se integrar nos contextos de acolhida, porque é preciso permitir que eles afirmem a própria identidade. Mas é um conceito perigoso.

É o que o senhor define como o risco da comunitarização do mundo: o que significa?

A história demonstra que, quando as diferenças de cada comunidade individual são organizadas politicamente dentro de uma sociedade, vai-se de encontro com tensões permanentes: observamos isso em contextos que vão da Bélgica (com os contrastes entre flamengos e valões) ao Irã (com a fossilização da identidade xiita depois da revolução de 1979) e, de modo marcante, no meu Líbano, onde vigora uma divisão até institucional entre cristãos, muçulmanos e grupos diversos que se referem ao Islã. Um mecanismo que, mais do que proteger as diversidades, no fim, parece favorecer o divide et impera. Eu defendo, por experiência, que, se, por um lado, é sacrossanto perorar os direitos das minorias, por exemplo, as minorias hoje ameaçadas no Oriente Médio, por outro, o marco de um Estado laico é indispensável para a democracia.

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