“Deixemos de psicanalisar o que diz Francisco”, pede jornalista argentina

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Por: André | 20 Julho 2016

“O mundo o escuta, o copia e gosta dele; alguns, admirando, o imitam. Os líderes políticos e religiosos de lugares bem diferentes se reúnem com ele e saem dizendo o quanto aprenderam nesses poucos momentos de intercâmbio. E é justamente em seu país onde é menos compreendido, mais interpretado, mal interpretado e reinterpretado em borgeanas exegeses que deságuam em circularidades eternas e tendenciosas.”

 
Fonte: http://bit.ly/2a6SMHr  

A reflexão é de Virginia Bonard, jornalista e escritora argentina, em artigo publicado por Religión Digital, 15-07-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Não me custa nada fazer lembrar e recordá-lo em seu andar pelas ruelas dos bairros das favelas de Buenos Aires e de qualquer bairro de Buenos Aires. Custa-me menos ainda buscar em minhas próprias recordações as pessoas, uma a uma, quando me acompanhou até o ônibus depois da primeira missa com e pelos explorados trabalhadores do sindicato têxtil, em uma paróquia do Bairro de Barracas, lá pelos idos de 2007, 2008.

Não me custa fazer memória de Bergoglio em Buenos Aires. Mais: encanta-me o fato de que meu coração esteja talhado por sua pregação e seu testemunho, e não chegar novinha à sua descoberta, vendo Bergoglio aparecer, em 2013, vestido de branco na sacada de São Pedro.

E, hoje, nosso (para os argentinos) Bergoglio é o Papa Francisco, urbi et orbi; essa condição mudou coisas, pessoas, atitudes, expressões, ponderações. E a verdade é que vimos mudanças autenticamente extraordinárias e surpreendentes. A única pessoa que não mudou essa nova condição é o próprio Jorge Mario que, em pura essência, segue sendo o mesmo, fiel às suas bordas existenciais, insistente até o cansaço contra a droga e sua condenação do narcotráfico, quase obsessivo com o consumismo depredador que torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, desprezando os liberalismos umbiguistas e festejando as mesas comunitárias, incessante em sua defesa das vidas (de ponta a ponta) com sonhos e esperanças, cabeça dura quando se trata de dialogar, dialogar e dialogar, de perdoar, perdoar e perdoar.

O mundo o escuta, o copia e gosta dele; alguns, admirando, o imitam. Os líderes políticos e religiosos de lugares bem diferentes se reúnem com ele e saem dizendo o quanto aprenderam nesses poucos momentos de intercâmbio. E é justamente em seu país onde é menos compreendido, mais interpretado, mal interpretado e reinterpretado em borgeanas exegeses que deságuam em circularidades eternas e tendenciosas.

Chegamos ao dia 29 de junho deste ano, Dia do Papa, e em Buenos Aires os padres das favelas da cidade de Buenos Aires e do subúrbio junto com a organização Geração Francisco convidaram para uma missa muito intensa do ponto de vista da divulgação: para defender o Papa Francisco dos ataques das corporações midiáticas.

“Por que viemos hoje celebrar neste lugar a festa de São Pedro e São Paulo”, perguntava-se o padre José María “Pepe” Di Paola em sua homilia nessa missa de 29 de junho, na Paróquia Nossa Senhora de Luján, onde o pároco, o padre Lorenzo “Toto” de Vedia, da Villa 21-24, que concelebrou com seus companheiros sacerdotes reunidos no carisma que palpita ao ritmo das periferias. E continuava:

“É bom para todos os cristãos percorrer o itinerário que ele fazia em Buenos Aires para entender com maior clareza o que ele faz hoje como o Papa Francisco. Vamos encontrar as pegadas deste pastor nas periferias, e por isso quisemos celebrar a missa do Dia do Papa aqui. Aqui, sendo Francisco o nosso bispo Jorge, lavou os pés de quem ele considerava seus apóstolos, a rapaziada do ‘paco’, e onde teve origem o Lar de Cristo, numa quinta-feira santa de 2008.

Nas favelas encontraremos testemunhos privilegiados e podemos compreender por que hoje Francisco defende os imigrantes, os sem teto, os que não têm trabalho, os drogados. Assim como não nos chama a atenção o Evangelho como Jesus muda o nome de Simão e passa a chamá-lo de Pedro, mas segue sendo o mesmo, talvez não nos chame a atenção o fato de que Jorge é o mesmo Francisco, porque não é alguém diferente daquele que conhecemos aqui. (...)

Associamo-nos à Geração Francisco nesta proposta de estar junto ao Papa porque não deixa de ser uma voz de alerta. Muitas vezes a injúria quer desprestigiar o guia da Igreja. Enquanto na Argentina muitas vozes buscavam desprestigiá-lo, no mesmo momento ele caminhava junto com o povo armênio sofrido, recordando o extermínio, enquanto as superpotências e os poderosos ignoraram esta realidade deixando de lado todo um povo, é a voz de Francisco que acompanhou o povo armênio.

Muitos daqueles que criticam impiedosamente reconhecem que não têm fé, recordamos nos editoriais dos jornais. Que nos deixem, a nós os que temos fé, considerar o que um Papa tem que fazer. Nós estamos contentes, porque ele continua a nos ensinar o Evangelho e nós, como pessoas de fé, sabemos que é a base da qual têm que partir os ensinamentos. Que não se sintam mal se ele perdoa aqueles que o injuriaram, se diz algo que não está de acordo com os interesses dos poderosos nem com cálculos políticos ou ideológicos.

Sabemos muito bem que entre os comunicadores há uma variedade muito grande: há talvez alguns que não o entendem e, portanto, é bom que se aproximem e possam entender o caminho de Francisco. Não pensamos, e por isso a declaração da Geração Francisco, se fala dos meios de comunicação porque distinguimos o trabalho do jornalismo que trabalha buscando sempre a verdade. Pedimos a eles que se aproximem, sim, destes lugares para entender o Papa que hoje temos. Não é possível entendê-lo quando se olha para ele do centro da cidade ou de lugares privilegiados ou do poder. Também não em estratégias políticas que reduzem o olhar que o cristão tem daquele que é o pastor da Igreja.

Por isso, hoje, estamos aqui representando os padres das vilas, e estamos em um lugar onde Francisco deixou uma marca que não se apaga. De fato, hoje, o Lar de Cristo se multiplica nas favelas da Região Metropolitana, além da capital, no resto do país. Nesse lava-pés destes jovens a água foi se multiplicando em outros pés para poder dar aos rapazes uma vida digna. Esse é o pastor que os cristãos querem. Não nos interessam aqueles comentários dos homens que não podem entendê-lo porque não têm fé e daqueles que o analisam somente por uma razão ou uma questão ideológica de acordo com suas percepções.

Por último, recordamos que, no nascimento da nossa Pátria, havia figuras e meios de comunicação (...) que não queriam San Martín (...) fustigaram-no e alcançaram seus objetivos. (...)

Por isso, pedimos reflexão e serenidade àqueles que têm a obrigação de transmitir o conhecimento e analisar a verdade para que não ocorram novamente em nosso país injustiças tão grandes como aquelas que aconteceram com o nosso Libertador; que também não sejam estas as vozes que predominam quando falam sobre o nosso Papa Francisco. Por isso, convidamos toda a Igreja para ter a atitude que Francisco teve: em oração e trabalhando pelos mais pobres”.

E também se disse não às difamações vindas da ignorância ou às supostas expertises entre as fileiras dos líderes da associação Geração Francisco.

Em Roma, enfocado nos chagados da Pátria

No encerramento das celebrações do bicentenário do nascimento da Argentina independente (2010-2016), Francisco escreveu uma carta ao presidente da Conferência Episcopal Argentina, dom José María Arancedo, na qual, e uma vez mais, assinala ações com memória crioula e criatividade pontifícia nestes parágrafos:

“De maneira especial, quero estar próximo daqueles que sofrem: dos doentes, dos que vivem na indigência, dos presos, dos que se sentem sós, dos que não têm trabalho e passam todo tipo de necessidade, dos que são ou foram vítimas do tráfico, do comércio humano e da exploração de pessoas, dos menores vítimas de abusos e de tantos jovens que sofrem o flagelo da droga. Todos eles carregam o duro peso de situações, muitas vezes, limites. São os filhos mais chagados da Pátria.

Sim, filhos da Pátria. Na escola nos ensinavam a falar da  Mãe Pátria, a amar a Mãe Pátria. Aqui precisamente se enraíza o sentido patriótico da pertença: no amor à Mãe Pátria. Nós, argentinos, usamos uma expressão, atrevida e pitoresca ao mesmo tempo, quando nos referimos a pessoas inescrupulosas: ‘este é capaz até de vender a mãe’; mas sabemos e sentimos profundamente no coração que Mãe não se vende, não se pode vender... e tampouco a Mãe Pátria.”

Muito conteúdo, não? Sim, muita Pátria e patriotismo e patriotas estão fazendo falta aos argentinos. Comprometidos. E deixemos de analisar e psicanalisar se o que disse realmente disse porque estava Fulano e porque Cicrano o conhece tanto-tanto que está em condições de entendê-lo melhor do que você ou eu.

E tomando a piada sobre o ego argentino que o nosso Papa tornou famosa ao contá-la  a uma jornalista: basta de egotismos; nada de suicídios desde pedestais ‘euístas’. Congreguemo-nos em torno do bem comum, com generosidade, tanta beleza e possibilidades que há em nosso povo.

E já que estamos com o povo, de cada povo um paisano, reunidos em torno do fogão de Jesus, cada qual com sua pelagem social, sua história e sua projeção vital, compartilhamos essa eucaristia na qual se rezou para que haja luz sobre o nosso Papa Francisco, respeito por suas maneiras de pilotar esta grande barca que é a Igreja universal de Cristo neste tempo. Talvez o mais complexo seja deixar de lado o “eu, me, mim, comigo” e entrar como potros convencidos em um “nós” maduro e solidário.

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