"Contra a Europa da suspeita e para encontrar uma saída, escutem o papa." Entrevista com Zygmunt Bauman

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15 Julho 2016

As migrações vão decidir o destino da Europa? A pergunta, que pareceria exagerada pouco tempo atrás, domina hoje o debate político, assim como as discussões cotidianas. O referendo sobre a Brexit foi jogado, em grande parte, sobre esse tema. E assim também a campanha eleitoral à presidência austríaca, que a Corte Constitucional decidiu fazer com que se repita. Dois momentos de escolha que dividiram a Grã-Bretanha e a Áustria e que, de repente, revelaram a precariedade do quadro institucional comunitário.

A reportagem é de Fulvio Scaglione, publicada no jornal Avvenire, 13-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por isso, é de grande atualidade o congresso "A nova Europa: migrações, integração, segurança", que inicia nessa quinta-feira, em Roma, durante o East Forum 2016, com uma série de personalidades das mais diversas origens, mas de autoridade comum. Do ministro do Interior italiano, Alfano, ao presidente do Unicredit, Giuseppe Vita, do procurador nacional antimáfia Franco Roberti a Romano Prodi, de Ismail Yesil (presidente da Agência para as Situações de Emergência do governo turco) a Giuseppe Scognamiglio, diretor da revista EastWest.

Sobre o tema das migrações, quisemos ouvir o professor Zygmunt Bauman. Sociólogo e filósofo, é o mais agudo estudioso da sociedade pós-moderna e contou em páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo, transformado de produtor em consumidor.

A sua metáfora da "sociedade líquida" (em que o indivíduo é cada vez mais forçado a se adequar aos comportamentos dos grupos para não se sentir excluído) já se tornou proverbial. Nascido na Polônia, de pais judeus, Bauman conheceu, quando jovem, a experiência da fuga diante da perseguição e do exílio. Talvez, também por isso, o seu ponto de vista sobre o encontro-confronto entre migrantes e Europa é original e contracorrente.

"Hoje, muitas vezes, confunde-se entre fenômenos muito diferentes", diz Bauman. "Um deles é a emigração-imigração, de um lugar para outro lugar. Outra coisa bem diferente é a migração: que move de um lugar, é claro, mas para onde? Os dois fenômenos têm raízes muito diferentes raízes, mas efeitos muito semelhantes, porque são semelhantes as condições psicossociais dos locais de chegada. Umberto Eco, bem antes do atual pânico das migrações, observou, nos seus 'Cinco escritos morais', que a imigração pode ser controlada, limitada, planejada ou aceita, enquanto que este não é o caso das migrações. Como todos os fenômenos naturais, as migrações não podem ser controladas. Eco, então, se fazia uma pergunta crucial: ainda é possível distinguir a imigração da migração quando o planeta inteiro está se tornando palco de um incessante deslocamento cruzado de povos? E respondia: a Europa se tornará um continente multirracial ou 'colorido', agrade-nos ou não."

Eis a entrevista.

De acordo com muitos estudos, por exemplo, os do Pew Research Center, de Washington, hoje, os europeus são os mais hostis aos migrantes. Como se explica isso, em um continente que, no passado recente, também enviou migrantes para todo o mundo?

Hoje, os europeus têm medo do futuro, perderam a confiança na capacidade coletiva de mitigar os seus excessos e de torná-lo mais amigável. A palavra "progresso", que ainda usamos por inércia, evoca emoções opostos àquelas que Immanuel Kant sentia quando cunhou o termo. O pensamento do futuro, hoje, desperta em nós, mais frequentemente, a ideia de uma catástrofe iminente, mas não a de uma vida mais confortável. E o estrangeiro representa tudo o que há de instável e de imprevisível na nossa vida. Por isso, olhemos para os migrantes como a um sinal visível e tangível da fragilidade do nosso bem-estar e das suas perspectivas.

Como diria o filósofo Michael Walzer, em primeiro lugar, é sempre contra os estrangeiros que os moradores de um bairro "se organizarão para defender as suas políticas e culturas locais" e tentarão transformá-lo em um "pequeno Estado". Mas é muito difícil, para não dizer impossível, construir um Estado futuro livre de estrangeiros. Portanto, a imagem-guia desse esforço é quase sempre recuperada do passado. O passado como era, mas, mais frequentemente, como pode ser imaginado: todo "nosso", sem nuances, ainda não atacado pela importuna proximidade dos "outros". É a reação típica da política, que, quando perde a capacidade de moldar o futuro, tende a se transferir para o espaço da memória coletiva, que pode ser facilmente manipulada e dá uma sensação de onipotência feliz. É uma ilusão? Sim, é claro. Mas é uma ilusão que mantém à baila um número sempre crescente de europeus.

No entanto, para justificar a hostilidade contra os migrantes, invocam-se questões econômicas. Em suma: não temos dinheiro para acolhê-los.

As razões psicossociais e culturais são travestidas por razões econômicas para torná-las mais "racionais" e, portanto, "politicamente corretas". As pesquisas mais sérias mostram que os imigrantes contribuem para a riqueza do país de chegada mais do que recebem em termos de serviços sociais. Outros estudos, além das conclusões do bom senso comum, mostram que a desconfiança contra os imigrantes e migrantes é maior onde há um número menor deles.

Na campanha do referendo para a Brexit, os moradores das áreas com menos imigrantes votaram para levar a Grã-Bretanha para fora da Europa. Londres, cidade de infinitas diásporas culturais e étnicas, votou para ficar. A suspeita, portanto, é de que a hostilidade contra os "aliens" foi gerada, principalmente, pelo fato de não ter havido a oportunidade de desenvolver a capacidade de interagir com as diferenças. Na falta desta, é fácil que os estrangeiros se tornem o símbolo das forças, reais mas distantes e desconhecidas, que regulam o andamento do mundo e geram aquele sentimento de precariedade que angustia tantos europeus.

A Europa e outras partes do mundo estão se enchendo de muros. Não é extraordinário que, diante de fenômenos tão complexos, nos confiemos a instrumentos tão primitivos?

Vivemos a crise da separação entre poder e política: os poderes se livram do controle da política, e a política perde, assim, o mais importante dos pressupostos para produzir ações efetivas. Mas, acima dessa crise, há outra, a incongruência assinalada pelo sociólogo Ulrich Beck: já vivemos em uma condição cosmopolita de interdependência e troca em nível planetário, mas a nossa consciência cosmopolita ainda está nos seus primeiros suspiros. O sociólogo estadunidense William Fielding Ogburn, em 1922, em plena época colonialista e imperialista, cunhou a expressão "atraso cultural" para descrever o desconforto dos "selvagens" que eram expostos a uma forte pressão no sentido da modernização, mas ainda eram inocentes em relação à mentalidade moderna.

É como se hoje fôssemos nós, os europeus, a levar o bastão na corrida de revezamento entre os continentes, o que gera ansiedade. O mercado, sob a forma de mercadorias e de bens, nos oferece uma ampla gama de antidepressivos e de "antitudo". Ele quer empurrar cada um de nós a esculpir um pequeno nicho consolador e bem equipado. Cada um por si, e os outros que se arranjem. Assim, nos cegamos em relação à natureza do nosso problema, em vez de nos ajudar a erradicar as suas causas.

E o que fazer para ajudar as pessoas, em vez disso, a abrir os olhos?

Há uma personalidade muito determinada para levantar certas questões, e se trata do Papa Francisco. Que faz isso, aliás, sem ter a pretensão de ter a varinha mágica, mas, ao contrário, convidando a fazer esforços justos, mas que também poderiam fracassar. Há uma passagem do discurso que ele proferiu no dia 6 de maio de 2016, na entrega do Prêmio Carlos Magno, que deveria ser aprendido de cor: "Se há uma palavra que devemos repetir até nos cansarmos é esta: diálogo. Somos convidados a promover uma cultura do diálogo, buscando, com todos os meios, abrir instâncias para que ele seja possível e nos permita reconstruir o tecido social. A cultura do diálogo implica um autêntico aprendizado, uma ascese que nos ajude a reconhecer o outro como um interlocutor válido; que nos permita olhar para o estrangeiro, o migrante, o pertencente a outra cultura como um sujeito a ser ouvido, considerado e apreciado. É urgente para nós, hoje, envolver todos os atores sociais na promoção de uma cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, levando adiante a busca de consenso e de acordos, mas sem separá-la da preocupação com uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões (Evangelii gaudium, 239). A paz será duradoura na medida em que armarmos os nossos filhos com as armas do diálogo, ensinarmos a eles a boa batalha do encontro e da negociação".

O Papa Francisco quer remover o destino da pacífica convivência dos políticos profissionais e do reino escuro da política, para levá-lo para as ruas, entre as lojas e os escritórios, aos espaços públicos onde todos nós nos encontramos. Ele quer confiar as esperanças do gênero humano não aos generais do "choque de civilizações", mas a nós, soldados comuns da vida cotidiana. Para que isso aconteça, no entanto, também devem se realizar outras condições, e o papa nos lembra delas: "A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Se queremos pensar as nossas sociedades de um modo diferente, precisamos criar postos de trabalho digno e bem remunerado, especialmente para os nossos jovens. Isso requer a busca de novos modelos econômicos mais inclusivos e equitativos, não orientados para o serviço de poucos, mas para o benefício das pessoas e da sociedade. E isso nos pede a passagem de uma economia líquida a uma economia social". Eu só tenho uma palavra para acrescentar: amém.

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