“O tempo corre e tudo muda. Tudo, menos a teologia... dos bispos espanhóis”. Artigo de José María Castillo

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Por: André | 14 Julho 2016

“Quando a teologia chega a ser uma ‘teologia intemporal’, que pode ser igualmente válida para qualquer tempo e situação, semelhante teologia torna-se incapaz de apresentar-se como a revelação de Jesus, o Filho de Deus, que nos revelou e nos segue ensinando onde e como podemos e devemos encontrar o Deus e Pai da misericórdia, da justiça e da bondade. É Jesus que nos diz como agora, no momento que vivemos, podemos e devemos encontrar a Boa Notícia, o Evangelho que nos torna mais humanos e mais fiéis”.

A reflexão é de José María Castillo, teólogo, em artigo publicado por Religión Digital, 13-07-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Há alguns dias, foi publicado um documento da Comissão da Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola, que apresenta o pensamento (e o que pretendem ensinar) dos bispos espanhóis sobre “Jesus Cristo, salvador dos homens e esperança do mundo”. Segundo parece, nem todos os nossos bispos estão de acordo com o conteúdo desse documento. Mas, o fato é que o documento foi publicado “oficialmente”.

O que provocou as lógicas e inevitáveis reações que se costumam produzir nestes casos. Desde quem elogia o texto da Conferência Episcopal, até quem lamentou a falta (ou fragilidade) de uma dimensão profética mais clara e contundente ou a ausência da devida sensibilidade diante do sofrimento dos pobres.

Evidentemente, em um documento que não é, nem pode ser, uma “definição dogmática”, os cristãos podem (e devem) sentir-se livres para manifestar o seu ponto de vista, e inclusive suas discordâncias, naquelas questões que não lesam a fé da Igreja, mas que, ao contrário, veem que são questões importantes que podem fortalecer a fé e a vida cristã.

Pois bem, dito isso, é compreensível que haja quem sente falta, neste documento episcopal, de um destaque da missão profética de Jesus, que os Evangelhos tão amplamente explicam e repetem. E talvez mais chocante ainda seja, que, em um país e em uma situação na qual o sofrimento dos pobres seja sentido tão escandalosamente, nossos bispos não tenham aproveitado a oportunidade proporcionada agora mesmo falar e atualizar a missão de Jesus como “salvador” e como “esperança” precisamente para os que mais sofrem entre nós.

Mas, sendo acertado o que – no meu limitado e curto entendimento – acabo de indicar, me parece que, neste documento episcopal, adverte-se algo que é muito mais preocupante, por mais que, à primeira vista, muita gente talvez não perceba. Refiro-me ao seguinte: este documento sobre Jesus Cristo, como Deus e como Salvador do mundo, poderia ter sido escrito há mais de 50 ou 60 anos, e (menos as referências a determinados teólogos ou papas dos últimos anos) teria a mesma atualidade naquela época que agora.

Concretamente, no que se refere aos temas centrais da “Salvação” e da “Esperança”, que são os pilares do documento, repete-se, uma vez mais, o que eu já ouvia em meus longínquos tempos de estudante de teologia, lá pelos anos 40 ou 50 do século passado. Estamos, pois, onde estávamos. E se a teologia, em temas tão fundamentais, segue parada, isso nos quer dizer que é a Igreja hierárquica e docente que ficou presa a um tempo, problemas e soluções que já não interessam mais a quase ninguém. E achamos estranho que haja gente que se afasta da Igreja!

O fundo da questão, me parece, está em que a Cristologia (o tratado da teologia que estuda Cristo) não levou devidamente em conta uma questão fundamental e, portanto, indispensável. O “saber cristológico não se constitui nem se transmite primeiramente” em determinados conceitos, ideias ou especulações, mas nos relatos de “seguimento de Jesus” (J. B. Metz). Ou seja, os primeiros discípulos e apóstolos, dos quais nos falam os Evangelhos, não aprenderam Cristologia ouvindo conferências e estudando livros, mas “vivendo com Jesus e como Jesus viveu”.

Segundo o Evangelho, quem não renunciou a tudo, tomou a sua cruz e seguiu atrás de Jesus, passando medos e carências, muita escassez, e enfrentando os conflitos que Jesus enfrentou, quem não for capaz disso, não tomou conhecimento de quem é Jesus, nem teve ideia do que Jesus queria, nem – portanto – pôde ser cristão, ao menos de forma incipiente. Jesus não foi primordialmente um “dogma”, mas um “cidadão” Galileu, um ser humano, que viveu entre as pessoas de seu povo, com os problemas que aquela gente tinha.

E assim, na proximidade e na convivência, ensinou quem é Deus e como Deus é. Mais ainda, em sua vida e em suas obras, pudemos descobrir a Deus, ver a Deus e apalpar a presença do Deus que pode dar sentido às nossas vidas. E assim, nos traz “salvação” e “esperança”. Dito da forma mais clara e simples possível: Deus não se deu a conhecer a nós primordialmente em um “dogma”, mas em seu Filho, despojado de toda dignidade, inclusive a divina, e vivendo como um “escravo” (Fl 2,7). Jesus, despojando-se de toda dignidade, pôde nos dar a conhecer a Deus. Ou seja, desde o humano, “o infimamente humano”, nos deu a conhecer o que os humanos podem conhecer de Deus.

Quando a teologia chega a ser uma “teologia intemporal”, que pode ser igualmente válida para qualquer tempo e situação, semelhante teologia torna-se incapaz de apresentar-se como a revelação de Jesus, o Filho de Deus, que nos revelou e nos segue ensinando onde e como podemos e devemos encontrar o Deus e Pai da misericórdia, da justiça e da bondade. É Jesus que nos diz como agora, no momento que vivemos, podemos e devemos encontrar a Boa Notícia, o Evangelho que nos torna mais humanos e mais fiéis.

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