“O Concílio de Creta é apenas o começo; o diálogo é o método”. Entrevista com Hyacinthe Destivelle

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Por: André | 07 Julho 2016

Monsenhor Hyacinthe Destivelle, responsável pela seção oriental do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, pôde acompanhar de perto as sessões de trabalho do Concílio ortodoxo que aconteceu poucos dias atrás na ilha de Creta. Superados os temores e as incertezas, a reunião aconteceu num clima de colaboração. Enquanto isso, está se trabalhando no próximo encontro da comissão mista ortodoxa-católica que acontece em setembro, justamente sobre o tema da relação entre o primado e a conciliaridade.

A entrevista é de Francesco Peloso e publicada por Vatican Insider, 05-07-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Padre Destivelle, em primeiro lugar, lhe pediria que nos desse algumas impressões gerais sobre o Concílio ortodoxo, sobre o clima que se respirava...

Às vésperas havia muitas incertezas, discussões sobre a ausência de algumas Igrejas (quatro Igrejas ortodoxas não participaram, e entre elas estava o Patriarcado de Moscou), havia rumores sobre problemas e discordâncias em relação a alguns dos documentos que o Concílio deveria aprovar. Depois, quando o Concílio começou com a liturgia do Pentecostes, tudo foi se realizando de maneira muito, muito tranquila e positiva. Em um clima de diálogo fraterno e de oração. Surpreendeu-me a diferença entre a véspera, quando se viam estas dificuldades, estes obstáculos, estes rumores, e a maneira como foram realizados depois os trabalhos, em um clima de diálogo. A ordem do dia foi seguida à risca, documento por documento. Todos os documentos foram adotados. E, além disso, houve uma encíclica e uma mensagem finais.

É possível resumir os resultados mais importantes da reunião?

O primeiro fruto do Concílio é justamente este intercâmbio fraterno entre as diferentes Igrejas que estavam presentes. Alguns primados manifestaram a necessidade de que esta forma de trabalhar na sinodalidade seja institucionalizada com uma frequência regular, e este desejo também consta da mensagem na qual se diz que a cada sete ou 10 anos deveriam ser convocados concílios.

Então, o Concílio entendido como método é um primeiro objetivo...

O primeiro ponto, para além dos documentos, é o Concílio mesmo; houve um longo caminho para prepará-lo e, ao mesmo tempo, trata-se de um novo caminho de sinodalidade que acaba de começar. Existe este caminho de conciliaridade que é ainda mais importante, eu diria, que o próprio Concílio, um caminho que acaba de começar, com a possibilidade de outros encontros como este.

Este é também um aspecto importante para o Papa Francisco...

Sim, outro ponto particularmente importante é que esta ideia de sinodalidade constitui um ponto importante para o Papa Francisco. O Papa, efetivamente, mencionou a sinodalidade em várias ocasiões no âmbito do intercâmbio de dons entre os católicos e os ortodoxos; na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium diz que a sinodalidade é um dom que nós católicos podemos receber dos ortodoxos, e justamente este argumento será o centro do diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa em conjunto. Pode-se esperar que a próxima plenária da comissão mista católico-ortodoxa, que acontecerá em setembro em Chieti, adote um novo documento justamente sobre este argumento, da relação entre o primado e a conciliaridade. Na comissão estão presentes as 14 Igrejas ortodoxas.

O quanto pesaram as ausências? Por exemplo, faltava o Patriarcado de Moscou...

O Concílio foi preparado praticamente no prazo de 50 anos pelas 14 Igrejas ortodoxas, até o último momento, inclusive os documentos e as decisões que foram tomadas por todas as Igrejas. A preparação foi verdadeiramente pan-ortodoxa. Agora, teremos que ver qual será a recepção das decisões que, tomadas entre as Igrejas e, particularmente, entre as que não estiveram presentes; estas Igrejas, sobretudo, terão que pronunciar-se sobre o estatuto do Concílio e também sobre os documentos que foram adotados na reunião.

E, depois, repito: este Concílio é o começo de um caminho, então se verá com o tempo de que maneira as Igrejas ortodoxas vão receber e avaliar este Concílio. Por outro lado, todos os Concílios tiveram uma história complicada. Como recordou o Patriarca Bartolomeu, o terceiro Concílio de Éfeso (do qual não participou a Igreja de Antioquia) foi reconhecido como ecumênico; outros Concílios nos quais não estavam presentes todas as Igrejas não foram reconhecidos como tais. O certo é que o princípio de recepção é muito importante na eclesiologia e, sobretudo, na eclesiologia ortodoxa.

Outro aspecto importante foi o ecumenismo. Como foi a discussão?

O documento sobre as relações com o conjunto do mundo cristão não distingue entre as diferentes Igrejas e confissões; fala em termos gerais. O projeto inicial estabelecia uma distinção entre as diferentes Igrejas e comunidades eclesiais. Havia, pois, um enfoque diversificado segundo as confissões de que se falasse. Mas, neste texto isto não acontece e não se fala especificamente da Igreja católica.

Muitos dos temas enunciados nos documentos finais parecem estar em sintonia com o magistério do Papa Francisco...

Devemos fazer uma distinção: o documento sobre o ecumenismo ocupa-se principalmente do aspecto teológico, e depois vêm as questões sobre os desafios do mundo contemporâneo, abordadas, por exemplo, na encíclica, mas que não estão relacionadas estritamente com a colaboração ecumênica. Seja como for, pode-se pensar e pode-se esperar que estes campos sejam um terreno de compromisso como, aliás, já acontece. O Papa Francisco começou a Encíclica Laudato Si com uma referência ao Patriarca Bartolomeu, e também com o Patriarcado de Moscou se fala de vários temas comuns: desde os cristãos perseguidos até a família, etc... motivo pelo qual já existem estes campos de testemunho comum e de colaboração.

Pode-se dizer que há uma visão cristã comum sobre alguns temas?

Sim, claro que se pode dizer. E podemos nos alegrar pelo fato de que haja uma visão comum sobre o mundo e sobre todos os desafios contemporâneos: desde a proteção da Criação até a promoção da paz, desde a secularização até a família, e depois sobre as migrações, os refugiados e assim por diante, pelo que todos estes desafios constituem um campo de colaboração.

Qual a importância dos encontros de alto nível entre o Papa e Bartolomeu e entre o Papa e Kirill no caminho ecumênico?

As relações entre as Igrejas não se limitam a relações entre “os chefes”; estes últimos são um exemplo, um modelo, para que também nos encontremos nos níveis mais baixos, de base. Estas reuniões, além disso, têm não apenas um significado para o diálogo da caridade, mas também em nível teológico. Quando Atenágoras (Patriarca Ecumênico de Constantinopla, ndr.) foi a Jerusalém em 1964 para encontrar-se pela primeira vez depois de séculos com Paulo VI, disse a uma jornalista que lhe perguntou o que os teólogos teriam pensado sobre o seu encontro: “os chefes se encontram, os teólogos explicam”. Então, devemos reler estes gestos dos líderes religiosos também numa perspectiva teológica. O caminho que agora o Papa Francisco está fazendo com o Patriarca Bartolomeu e com o Patriarca russo Kirill e com outros dará frutos teológicos.

Durante o concílio ortodoxo de Creta, o Papa Francisco estava na Armênia, e também aí, com outra Igreja, construía outro elo deste diálogo com o oriente cristão...

Sim, de fato, para o Papa Francisco o ecumenismo é um caminho, um caminho que se faz juntos. Em grego, caminhar juntos se diz “sínodo”. O Papa Francisco tem esta preocupação com a sinodalidade dentro da Igreja católica. Mas poderíamos também dizer que para o Papa Francisco o ecumenismo também é um tipo de sinodalidade exterior, um caminho com os outros cristãos, e o importante é justamente isto: proceder juntos, fazer as coisas juntos, oferecer testemunho juntos, rezar juntos. E a unidade entre os cristãos virá disto: caminhemos juntos e um dia a unidade nos será dada como um dom do Senhor. Mas não podemos prever as formas desta unidade.

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