Quando o Islã desloca o terceiro-mundismo e a teologia da libertação. Artigo de Donatella Di Cesare

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06 Julho 2016

"Aquilo que contrasta a hegemonia do sistema capitalista não é mais apenas a esquerda internacionalista. Longe de ser o terceiro incômodo, o Islã parece ser a única potência capaz de impor um universalismo militante que promete ser novamente o próprio futuro deste mundo."

A opinião é da filósofa italiana Donatella Di Cesare, professora da Universidade de Roma "La Sapienza", em artigo publicado no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 03-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E continua: "Há um precedente, muitas vezes subestimado, na história do terceiro-mundista, e é a teologia da libertação. Na América Latina, a partir dos anos 1960, a esquerda ateia encontrou um formidável aliado no profetismo anti-imperialista daqueles padres das favelas, que, apelando à justiça e à igualdade, conjugavam o Evangelho com a luta de classes".

Eis o texto.

O Islã político parece ser hoje o único ideal capaz de mobilizar massas de mulheres e homens, e de desafiar a ordem global, a única bandeira pela qual milhares de jovens estão prontos para enfrentar a morte do outro lado do planeta.

Já seriam mais de 20 mil os jihadistas, que vieram dos cinco continentes, para combater nas fileiras do "Estado Islâmico do Iraque e do Levante". As brigadas do jihad mundial, reunidas em 2016, na Síria, trazem à memória um precedente, que se destaca, indelével, no nosso imaginário, o das "Brigadas Internacionais" – constituídas por cerca de 32 mil estrangeiros – que, a partir de 1936, na Espanha, lutaram contra o general Franco, o fascismo e o nazismo. O que justifica a comparação é um empenho sem fronteiras.

Trata-se, sem dúvida, de uma comparação amarga, que ressoa quase como uma afronta para a esquerda, herdeira das "Brigadas Internacionais". O que dizer, de fato, se a solidariedade internacional dos trabalhadores, a aliança entre os marginalizados das periferias do mundo, a liga entre os oprimidos das metrópoles ocidentais são suplantadas pelo socorro mútuo da Irmandade Muçulmana?

É difícil responder. Por isso, a questão sistematicamente passa em silêncio. A menos que optemos por um dos inúmeros atalhos interpretativos que indicam nos jihadistas "monstros sanguinários", "psicopatas narcisistas", as "vítimas da crise econômica", o "resultado imediato da desordem global", a "prova do naufrágio da integração", os "filhos da internet e dos videogames"...

Talvez sejam os lugares-comuns que nos coloquem no caminho errado. Acima de tudo, o do "multiculturalismo", um termo abusado, que leva a ler o confronto entre mundo muçulmano e Ocidente como um conflito entre uma identidade particular e uma pertença universal. Mas o choque – explicou recentemente o filósofo francês Étienne Balibar, no livro Saeculum. Culture, religion, idéologie, publicado pela Galilee – é mais entre universalismos diferentes, rivais e incompatíveis.

Aquilo que contrasta a hegemonia do sistema capitalista não é mais apenas a esquerda internacionalista. Longe de ser o terceiro incômodo, o Islã parece ser a única potência capaz de impor um universalismo militante que promete ser novamente o próprio futuro deste mundo.

E a esquerda? Como lê esse confronto a três? Ela considera o Islã como um temível adversário ou como um possível aliado, considera-o como um concorrente aberrante e perverso, embora temporário e caduco, ou como um cúmplice necessário na luta contra a arrogância do mercado? Porque isto, ao menos, é certo: há muito tempo, o capital, graças também à técnica, atravessou as fronteiras, estendendo-se em escala planetária.

Depois da queda do Muro de Berlim, enquanto ia se delineando a vitória incontestável do liberalismo econômico, em que muitos se apressaram a entrever o horizonte último da história, as desilusões se multiplicaram, e a esquerda logo sofreu o contragolpe, permanecendo na defensiva. Muitas esperanças, então, foram colocadas novamente no terceiro-mundismo, rótulo com o qual, nas últimas décadas do século XX, se indicou aquele movimento que defendeu as lutas de libertação dos países do Terceiro Mundo do domínio colonial.

Na aurora do novo século, porém, o terceiro-mundismo assumiu contornos diferentes: de Seattle a Bangkok, de Porto Alegre a Paris, ele se articulou em uma galáxia no-global que inclui organizações não governamentais, associações ecologistas, sindicatos e grupos políticos que reivindicam direitos da imigração, do trabalho etc.

Sem esquecer a experiência do anticolonialismo, passada, por motivos históricos, para o segundo plano, essa galáxia se coagulou em torno da necessidade de responder à uniformização do McMundo, com uma alternativa antiliberal, indicando a necessidade de viver em formas diferentes, no sinal da solidariedade.

O "altermundismo", como é chamado o movimento no-global na sua versão última, tentou contrastar o eterno triunfo do mercado, mostrando que, justamente se nos movermos a partir do "outro mundo" das periferias esquecidas, um "outro mundo" parece ser possível.

Só que, na ausência de um claro projeto político, a revolução sem fronteiras se traduziu em uma mobilização sem amanhã. Enquanto o internacionalismo tentava arranhar a globalização capitalista, uma nova força fez uma espetacular irrupção na cena da história: o Islã político. E, bem cedo, com a sua lógica transnacional, a sua aspiração transcendente, por um lado, ele lançou um desafio inédito à imanência profana do capital e, por outro, tentou destituir a esquerda terceiro-mundista.

Em um ensaio publicado em 2015, Marxism, Orientalism, Cosmopolitanism (Ed. Haymarket), Gilbert Achcar, um dos poucos intelectuais que tocou nesse assunto candente, recorreu a expressões afiadas: "O integralismo islâmico cresceu sobre o cadáver em decomposição do movimento progressista".

À parte de raras exceções, a esquerda reagiu com uma ambivalência fatal. Ainda durante a guerra da Argélia, emergira com clareza que o Islã não era um simples "a mais", mas era, sim, o coração pulsante da revolta. Aos poucos, enquanto o islamismo se impôs na paisagem política internacional, a esquerda terceiro-mundista foi obrigada a escolher: ou se distanciar dos movimentos islamistas, pequeno-burgueses, antimodernistas, em muitos aspectos reacionários, inclinando-se ao lado das mulheres, dos homossexuais, até se coalizar com as correntes liberais; ou escolher a "frente única" islamo-socialista, em nome da luta anti-imperialista comum.

Apesar das frequentes oscilações, acabou prevalecendo a tática arriscada da aliança, ditada por inúmeros motivos. Acima de tudo, pela convicção de que mal-estar e ideais dos jovens islamitas poderiam ser facilmente "canalizados" em direção a objetivos progressistas.

Defendida claramente no feliz panfleto The Prophet and the Proletariat, publicado em 1994 pelo ativista britânico Chris Harman, essa tese, que resistiu ao menos até a "primavera árabe", explica o apoio incondicional ao islamismo entendido como movimento anticapitalista e anti-imperialista. Tal apoio chegou até a defender organizações fundamentalistas como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, e a unir, nas manifestações contra a guerra no Iraque, as próprias bandeiras às daqueles grupos próximos da Irmandade Muçulmana.

O critério que prevaleceu foi o do inimigo principal: como se deve derrotar o imperialismo, será forçoso estar do lado dos talibãs. No fundo, entrevê-se uma presunção paternalista misturada com o otimismo, muito ocidental, de levar de volta aqueles irmãos mais novos, ainda não emancipados, que se movem sobre a onda do integralismo religioso, para dentro da grande frota socialista.

E a religião? O Islã político, por acaso, não remeteu sempre ao seu horizonte teológico? É claro. Mas há um precedente, muitas vezes subestimado, na história do terceiro-mundista, e é a teologia da libertação. Na América Latina, a partir dos anos 1960, a esquerda ateia encontrou um formidável aliado no profetismo anti-imperialista daqueles padres das favelas, que, apelando à justiça e à igualdade, conjugavam o Evangelho com a luta de classes. Assim, eles parecem realizar aquele vínculo entre socialismo moderno e antigo messianismo judaico-cristão, já evocado por Rosa Luxemburgo.

Eis que a religião parece ser – de acordo com a famosa e complexa passagem de Marx – não tanto expressão da miséria, mas sim do "protesto" contra a miséria, não tanto "ópio", mas sim excitante dos povos.

Por que não deveria acontecer o mesmo com o Islã político? Não é por acaso que a confiança ainda domine na esquerda latino-americana. Muito em breve, porém, parece evidente que o islamismo não pretende apoiar os movimentos progressistas, mas sim marginalizá-los e suplantá-los. Isso já aconteceu no Irã de Khomeini.

Em 1978, Michel Foucault abandonou as vestes do filósofo para ir a Teerã como enviado do maior jornal italiano, o Corriere della Sera. Crítico em relação ao marxismo, ele foi atraído pelo evento da insurreição. Entrevistou operários e estudantes: "O que vocês querem?". Ele esperava em resposta "a palavra 'revolução'". Ao contrário, eles replicam "o governo islâmico".

Para Foucault, a religião não é o véu que mascara a revolta, mas é o seu verdadeiro rosto. "O Islã – que não é simplesmente religião, mas modo de vida, pertença a uma história e a uma civilização – corre o risco de ser um gigantesco barril de pólvora." Assim ele escreve em um artigo do dia 11 de fevereiro de 1979.

Entende-se, então, por que aqueles seus textos raros e apaixonantes, graças aos quais Foucault se coloca fora do coro, ainda hoje são uma fonte de discussão. Sobre esse tema, Slavoj Žižek voltou recentemente no seu livro In difesa delle cause perse (Ponte alle Grazie).

Justamente Žižek faz parte daqueles poucos que solicitam o abandono de alguns tabus, começando pela "proibição de toda crítica ao Islã como um caso de 'islamofobia'". Ainda mais que – como observou Jean Birnbaum no seu último livro – ainda prevalece um "silêncio religioso". Como se fosse impossível, de um lado, dissociar a fé muçulmana da perversão islamista e, de outro, reconhecer a dimensão religiosa da violência jihadista.

Não é fácil para a esquerda terceiro-mundista descobrir hoje que, seguindo uma bússola bem diferente, outros aprenderam a navegar melhor no oceano da cólera universal e da esperança sem fronteiras. Tarde demais? Talvez não. Contanto que se admita que os jihadistas do Levante não querem abrir um novo capítulo da história humana, mas fechar, de uma vez por todas, a história profana; não querem levar a política à sua apoteose, mas desertá-la.

E contanto que se reconheça que a fraternidade do terror não é a fraternidade dos povos; que o califado, ao qual aspira a jihad mundial concentrada na Síria, não é a Internacional pela qual combateram os voluntários da Espanha.

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