“Eles solicitaram com urgência a nossa solidariedade”

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Por: Cesar Sanson | 06 Julho 2016

“Depois de visitar pelo MST os campos de refugiados palestinos e libaneses de Sabra e Chatila em Beirute, pensei que aqui no Brasil não iria me deparar com tamanha brutalidade, pois aqui são campos de extermínio de indígenas pelas balas que matam, pela fome, pelo cerco midiático e pelos valores capitalistas na consciência da sociedade em geral”. O comentário é de Judite Stronzake, militante do MST, em depoimento sobre a situação dos indígenas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

Eis o depoimento.

Estive na Aty Guassu (Grande Assembléia das Retomadas). Dela participam lideranças, caciques, rezadoras e rezadores, foi realizada em Caarápo, região emblemática pela guerra ali instalada. Além de participar das reuniões, escutar e aprender com o jeito e o modo indígena, percorri junto com o Comitê de Solidariedade aos Povos Indígenas, as retomadas, que são ocupações de terras. É com muita emoção, lágrimas nos olhos e o coração pulsando mais forte que envio essas palavras.

Eles fizeram oito ocupações de latifúndios só no município de Caarapo, nas últimas semanas, querem retomar todo o território que lhes pertence, são: Guapoy, Kunumi Poty Vera, Tey ‘ Jusu, Jeroky Guassu, Ñamoy Guayiraz, Tekoha Ñandeva, Itasuã e Pindoroky. Nesse contexto de lutas foi que se deu o massacre no dia 14 de junho, em uma das retomadas. Os pistoleiros queimam os poucos pertences e os indígenas são obrigados a passar fome em meio ao canavial e o frio nesse inverno ainda mais rigoroso.

São inúmeras famílias de indígenas Guarani e Kaiowá em luta, decidiram não mais perambular pelas rodovias ou viver apertados em aldeias. São idosas, idosos, mulheres, homens, jovens e crianças que estão em luta. Só pra ter uma ideia, em apenas uma retomada, Kunumi Poty Vera (a criança é uma flor linda), tem mais de 230 crianças. Os Guarani e Kaiowá não tem alimentação, vi a grave desnutrição que abate aqueles seres humanos. Único alimento por dias é milho cozido e dividem entre si colheres do caldo, e voltam a cozinhar o mesmo milho para voltar a beber a água meio amarelada.

Uma realidade de extermínio, uma guerra e morte contra os Guarani e Kaiowá. Depois de visitar pelo MST os campos de refugiados palestinos e libaneses de Sabra e Chatila em Beirute, pensei que aqui no Brasil não iria me deparar com tamanha brutalidade, pois aqui são campos de extermínio de indígenas pelas balas que matam, pela fome, pelo cerco midiático e pelos valores capitalistas na consciência da sociedade em geral.

São acampamentos massificados de indígenas. Estão cercados por pistoleiros que rondam nas caminhonetas, as casas comerciais fecham as portas e se negam a vender alimentos aos indígenas, uma situação completamente em estado de sitio que vivem. Um verdadeiro clima de terror e miséria.

Na Grande Assembléia (Aty Guassu) que terminou ontem fui representar o nosso Movimento, e eles solicitaram com urgência nossa solidariedade:

1. Aplacar a fome de alimentos. Fazermos uma campanha nacional e internacional de doação de alimentos. Nesse momento doar alimentos não configura como assistencialismo, e sim ajudar para garantir uma luta de um povo que esta morrendo. Sugerimos aos assentados do arroz enviem (gostam muito de arroz), sementes da Bionatur porque eles querem plantar e outros alimentos não perecíveis. Quem sabe o Paraná possa mandar. No MS está em marcha a arrecadação de mandioca, berinjela, batata doce e outros. Precisamos de mais alimentos, são muitas famílias em luta. A nacional pode ajudar nessa articulação com outros estados? E na sensibilização a situação.

2. Divulgação nacional e internacional do massacre que está ocorrendo na região sul do estado.

3. Denuncia nos organizamos internacionais institucionais a repressão em curso.

4. Mobilização, que eles não fiquem sozinhos ocupando os latifúndios. Cada vez que eles erguem uma bandeira, nós também devemos ecoar o mesmo grito de luta pela terra.

Dourados, 04 de julho de 2016.

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