Lições do Papa na Armênia sobre a importância do ecumenismo

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27 Junho 2016

Para ser honesto, o ecumenismo como causa transcendente, de acelerar corações e despertar a imaginação, sempre teve difícil aceitação.

Primeiramente, a maioria das pessoas comuns nem mesmo sabem o significado dessa a palavra, e quando o conhecem, parecem petrificados em meio à complexidade de razões históricas e teológicas pelas quais o Cristianismo se dividiu em uma confusa variedade de igrejas, denominações e movimentos atuais.

A reportagem é de John L. Allen Jr.,jornalista, publicada por Crux, 25-06-216. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Além disso, vivemos em um mundo de respostas rápidas, e se alguma causa não corresponde a esta velocidade, é a do ecumenismo.

Suas várias denominações já foram discutidas formalmente por décadas, e se arrastar pelas montanhas de documentos que este tema produziu geralmente não é nada interessante.

No entanto, um dos propósitos da viagem papal é encontrar elementos da história e da cultura local que lembrem as pessoas da razão por que essas coisas realmente importam. O Papa Francisco certamente fez isso durante a sua viagem à Armênia, de 24 a 26 de junho, em sua 14ª viagem ao exterior como Papa.

O ecumenismo foi um dos principais temas desde a chegada do Papa na sexta-feira. Em todas as suas visitas, o Papa foi acompanhado pelo Catholicos Karekin II, chefe da Igreja Apostólica Armênia. Ele também esteve presente na missa de Francisco no sábado, ao passo que Francisco participará de uma Divina Liturgia ministrada por Karekin no domingo.

No sábado, o pontífice viajou para Gyumri, ao norte da capital Yerevan, considerado um dos centros culturais do país e também uma das zonas mais duramente atingidas pelo grande terremoto de Spitak, em 1988. A maior parte das mortes, cerca de 25.000 a 50.000, aconteceu em Gyumri. Dezenas de pessoas viveram durante anos em contêineres e muitos edifícios na cidade ainda estão em ruínas.

Em sua visita, Karekin contou ao Papa Francisco a história da Catedral da Santa Mãe de Deus de Gyumri, também conhecida como Yot Verk, ou "Catedral das Sete Chagas".

Até hoje, as cúpulas da igreja anteriores ao terremoto ainda podem ser vistas no jardim lateral, pois elas se desprenderam durante o abalo sísmico, provocando o amortecimento de grande parte do choque e a preservação do resto da estrutura – assim como previsto em seu projeto arquitetônico.

Karekin explicou ao Papa Francisco que, durante a era soviética, a maioria das igrejas na Armênia foi fechada à força e, por isso, as poucas que permaneceram abertas muitas vezes acabaram servindo como refúgio para os crentes de todas as denominações.

No caso de b, a igreja Yot Verk abriu suas portas para os cristãos de todo o norte da Armênia e de aldeias vizinhas da Geórgia, independentemente de serem Católicos, Ortodoxos ou membros da Igreja Apostólica da Armênia.

A abside norte da Igreja, disse Karekin, foi transformada em um lugar de oração para os católicos, com um grande crucifixo trazido de uma igreja fechada em uma vila próxima. Enquanto isso, a abside sul foi entregue à Igreja Ortodoxa Russa, com uma imagem do patrono da Rússia, São Nicolau de Mira.

Em outras palavras, durante os longos anos de imposição do ateísmo pelos soviéticos e dos ciclos de violenta perseguição anticristã, nesta pequena igreja em uma cidade praticamente esquecida ao norte da Armênia, católicos e membros de correntes ortodoxas rivais realizavam suas práticas religiosas no mesmo espaço, desconsiderando séculos de desconfiança e excomunhões mútuas.

Como disse Karekin, a igreja tornou-se "um provedor e pregador tangível para o ecumenismo, anos antes de sua definição moderna".

Esse sentimento de causa em comum continuou após o terremoto de 1988, pois católicos e outros cristãos angariaram recursos para prestar ajuda humanitária imediata e também para tentar resolver a necessidade de recuperação da cidade a longo prazo.

O próprio Papa Francisco mencionou uma expressão desse legado, um hospital na cidade vizinha de Ashotsk chamado "Redemptoris Mater", mas conhecido localmente como o "hospital do Papa". Foi um presente do Papa João Paulo II ao povo armênio após o terremoto de 1988.

Com 100 leitos, o hospital atende às necessidades de saúde de uma região perto da fronteira com a Geórgia e tem clínicas em cerca de 25 aldeias rurais, que atendem cerca de 30.000 pessoas por ano - cuja maioria, obviamente, não é católica.

"[O hospital] nasceu do coração de São João Paulo II e continua a ser uma presença àqueles que estão em sofrimento", disse o Papa Francisco.

Estes dois pequenos exemplos armênios ilustram três grandes pontos sobre o ecumenismo.

Em primeiro lugar, muitas vezes há um desejo popular por unidade que está à frente da capacidade das burocracias eclesiásticas formais de resolver todos os detalhes.

Em alguns casos, é de se perguntar se o rebanho está realmente interessado nas iniciativas de seus pastores, mas em relação ao ecumenismo o que acontece é muitas vezes o contrário. O rebanho clama por isso e espera que os pastores caminhem nessa direção.

Em segundo lugar, os cristãos estão em uma posição privilegiada para aliviar o sofrimento e servir aos pobres e perdidos no mundo, tanto em termos de alívio direto quanto para defender uma mudança sistêmica ao reunir seus recursos.

Em outras palavras, a unidade não é apenas um imperativo teológico, mas também tem uma influência direta na missão.

Em terceiro lugar, não é por acaso que as histórias armênias da união de cristãos aconteceram no contexto da tragédia e da dor.

Muitos dos pioneiros modernos do movimento ecumênico na era pós Segunda Guerra Mundial tinham experimentado os campos de concentração nazistas ou os gulags soviéticos juntamente com outros cristãos, e perceberam que suas diferenças eram pouco significativas em comparação com as circunstâncias que compartilhavam.

Atualmente, a perseguição anticristã está presente em muitas partes do mundo, com cerca de 200 milhões de cristãos sob risco de detenção, prisão, tortura e morte por razões ligadas à sua fé. Em geral, aqueles que os perseguem, sejam Estados policiais, movimentos terroristas ou outros grupos, não parecem fazer nenhuma distinção entre os vários tipos de cristãos, colocando-os mais ou menos no mesmo barco.

Por isso, torna-se ainda menos explicável que os cristãos permitam que os fardos da história os mantenham separados, dado as ameaças e os desafios que eles enfrentam.

Não é precisar estar na Armênia para entender esses três pontos, é claro, mas como o Papa aprendeu durante as primeiras 48 horas de sua viagem, estar aqui certamente não faz mal.

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