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20 Junho 2016

Marcelo Milan
Foto: Leslie Chaves/IHU

“Não podemos comer títulos financeiros, vestir um CDB ou alugar uma caderneta de poupança para morar!” A analogia, embora pareça óbvia, tem um significado profundo se for utilizada para compreender o contexto econômico brasileiro e as últimas crises que outros países também vêm enfrentando recentemente. Essa metáfora foi utilizada pelo professor Marcelo Milan para refletir sobre os reflexos que causam a crescente participação de ativos financeiros na formação do Produto Interno Bruto – PIB dos Estados.

“A cultura econômica atual privilegia a máxima acumulação de dinheiro no menor tempo possível. Dentro desta lógica, investidores institucionais, como fundos de pensão, fundos mútuos, seguradoras e ainda os mercados derivativos, que movimentam quatrilhões de dólares; têm se sobrepostos aos bancos e gerado grandes somas que circulam no sistema econômico, mas estagnam o desenvolvimento, pois não são frutos de produção e sim da financeirização”, explica Milan durante sua conferência Financeirização, Bancos, Poder e Dinheiro. A economia política Internacional e seus impactos no Brasil, no final da tarde da última quinta-feira, 16-06-2016, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Simplificadamente, a financeirização é a inserção da lógica econômica em diferentes setores da organização social. Conforme aponta o professor, esse mecanismo tem se tornado cada vez mais frequente, pois “as empresas estão passando a prestar mais atenção nos ativos financeiros do que em suas atividades originais. Por exemplo, a montadora de veículos General Motors criou um banco para facilitar a negociação com os clientes, aumentando a possibilidade de oferecer crédito para as pessoas interessadas em adquirir carros. Entretanto, essa instituição financeira passa a participar do mercado financeiro cada vez mais, ampliando sua atuação e seus lucros e a montadora percebe que é mais vantajoso trabalhar com operações financeiras do que vender veículos. O resultado é a redução de investimentos em produção”.

Nesse cenário, a concentração de renda também se exacerba, uma vez que poucos detêm meios de participar do mercado financeiro e são esses que usufruem de todo o montante dessas operações, enquanto a imensa maioria é penalizada pelo engessamento da produção de bens e do fornecimento de serviços. “A atividade econômica despenca, mas o setor financeiro continua ganhando com suas operações e com os endividados. O país não cresce, em contrapartida as desigualdades se aprofundam ainda mais”, ressaltou Marcelo Milan, que em suas pesquisas tem estudado as longínquas relações entre poder e dinheiro.

Dinheiro: criatura do Estado

A partir de um processo de “virtualização” de valor é que foi concebida a moeda, onde se desvinculou do modo de valoração a quantidade de prata ou ouro contido em uma unidade de moeda e se passou a convencionar um valor independente do material pelo qual é formado o dinheiro em espécie. Milan chama a atenção para o fato de que o dinheiro, desde sua concepção, sempre teve a incumbência de estabelecer relações de poder. “O dinheiro moderno é criado entre os séculos XVII e XVIII como fonte de poder nacional nas disputas por riqueza. Assim, a moeda, tal como a conhecemos hoje, surge em um contexto de consolidação dos Estados, tanto em termos territoriais, quanto de soberania. Esse poder que incialmente cerca as fronteiras territoriais, depois se projeta para fora do Estado, consolidando a ideia de moeda como mecanismo de relações políticas e até do que chamamos de coerção monetária. A homogeneização do uso de uma moeda em um território foi pensada como meio de facilitar a tributação da população e acumular poder dentro e fora das fronteiras do país. Por esse motivo podemos afirmar que o dinheiro é uma criatura do Estado”, aponta.

Há possibilidades de mudanças?

Para o professor, um dos problemas do Brasil é que a economia nacional ainda está muito atrelada ao cenário externo. “Isso acontece porque apesar de o país emitir a própria moeda, esta se posiciona em um nível baixo na escala da hierarquia internacional, tendo pouco poder monetário. Essa realidade se repete em muitos outros países. Há uma plutonomia que domina as relações de poder na economia, trata-se de um pequeno grupo formado por uma elite muito rica que consegue controlar grande parte dos fluxos financeiros de um país. Se não houver mudanças nessa situação, pode acontecer uma revolta social muito grande, pois nesse contexto de crise se intensificam as assimetrias, uma vez que quando há perdas, a maioria é penalizada enquanto a renda concentra-se cada vez mais nas mãos de poucos”, alerta.

Os movimentos mais recentes de mobilização por demandas diversas parecem anunciar um horizonte possível de mudança dessa realidade, ou pelo menos, a consciência popular de que há duas sociedades paralelas: uma ideal acessível para poucos e outra repleta de insuficiências, na qual vive a maioria.

O conferencista

Marcelo Milan é graduado e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo - USP e doutor em Economia pela University of Massachusetts Amherst. Foi professor na University of Rhode Island e na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e atualmente leciona no curso de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Suas áreas de interesse são macroeconomia financeira, economia política clássica e economia política internacional, com ênfase em moeda e bancos, finanças, economia política dos EUA e do Brasil e poder e dinheiro.

Por Leslie Chaves

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