Um papa profeta. Artigo de Christine Pedotti

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06 Junho 2016

O homem vestido de branco continua escancarando os braços e encarnando uma das mais fortes consciências humanas deste mundo. Nestes tempos difíceis, precisamos dele.

A opinião é da intelectual católica francesa Christine Pedotti, cofundadora do movimento católico leigo francês Conférence Catholique des Baptisé-e-s Francophones. O artigo foi publicado na revista Témoignage Chrétien, 31-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Imigração: onde estão as famosas raízes cristãs da Europa quando se fecham as portas e os portos ao desespero do mundo? É a dolorosa pergunta que Francisco faz. Não é bom ser profeta, sabemos disso. Ouvimos o gemido de Jesus mesmo diante de Jerusalém, pouco antes da sua Paixão: "Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas..." (Mateus 23, 37). Poucos dias depois, o profeta da Galileia seria julgado e executado.

É justamente como profeta que o Papa Francisco fez aquela visita-relâmpago aos campos de refugiados superlotados por causa da crise no Oriente Médio. Portanto, não nos admiramos que as palavras e os gestos do Papa Francisco a Lesbos são, para muitos, motivo de escândalo e que se desencadeie contra ele – na França, pelo menos – uma hostilidade não dissimulada.

Comecemos por lembrar as suas palavras. À Europa, ele dirigiu esta dura lembrança: "A Europa é a pátria dos direitos humanos, e qualquer um que ponha os pés em terra europeia deveria ser capaz de experimentar isso. Assim, se tornará mais consciente de que deve, por sua vez, respeitá-los e defendê-los".

Eis atualizadas, em uma frase, as famosas raízes da Europa, tão reivindicadas. Embora reconhecendo que o problema dos refugiados é complexo, Francisco indica inequivocamente as saídas: com "soluções dignas do homem", ele convida a "superar o espesso manto de indiferença que ofusca as mentes e os corações", e, naquela linguagem por imagens que ele sabe usar tão bem, ele lembra, para que os corações se abram, que "os migrantes, antes de serem números, são pessoas, têm rostos, nomes, histórias".

Evidentemente, o papa sabe muito bem que a sua viagem a Lesbos não resolve nada, mas, no sentido mais profundo do termo, dá testemunho daquela terrível realidade que buscamos esquecer, cobrindo-a com sutilezas tecnocráticas. A verdade é revelada aqui: são homens, mulheres, crianças, que, através da sua voz, imploram que a comunidade internacional os socorra diante "da maior catástrofe humanitária desde a Segunda Guerra Mundial".

Diante disso, a resposta cristã é duplamente exigente; cada um desses homens e dessas mulheres é um nosso irmão ou uma nossa irmã, e cada um deles é Cristo mesmo: "O que vocês fizerem a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram" (Mt 25, 40). As palavras de Jesus sobre esse ponto são definitivas: é sobre a acolhida fraterna que seremos julgados.

E, como os profetas, como Jeremias ou Ezequiel, unindo o gesto à palavra, o papa traz consigo 12 daqueles refugiados, muçulmanos, porque o que conta não é a sua religião, mas a sua humanidade e o seu estado de necessidade. Esses gestos são efetivamente proféticos, porque nos obrigam a tomar posição. Seguramente, muitos buscarão o modo para agir contra a indiferença.

Mas um olhar aos comentários publicados nas redes sociais e em certos sites, que até se declaram explicitamente católicos, me dá calafrios. "Irresponsável" é o menos pior dos atributos. Alguns não hesitam: como ele "salva" muçulmanos e não cristãos, Francisco é um "antipapa", um "maçom", um "devoto do diabo".

Essa onda revela um dos rostos do catolicismo francês renascente, o de um egoísmo arrogante, para o qual a religião é apenas um indicador de identidade.

Mas essas lamentáveis vociferações hexagonais não impedem que o homem vestido de branco continue escancarando os braços e encarnando uma das mais fortes consciências humanas deste mundo. Nestes tempos difíceis, precisamos dele. Por isso, apesar das reservas que expressamos sobre a exortação Amoris laetitia, expressamos-lhe e reafirmamos o nosso pleno apoio.

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