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Por: André | 03 Junho 2016

“O objetivo da oposição venezuelana, nas suas três vertentes, é, no momento, criar um clima de desestabilização e alterar o ambiente até o extremo, devido ao temor das urnas, de perder novamente em um eventual referendo revocatório ou em eleições presidenciais. Parece ser a oposição que necessita de uma saída alternativa à eleitoral, democrática”, escreve Aram Aharonian, em artigo publicado por Alai AmLatina, 01-06-2016. A tradução é de André Langer.

Aram Aharonian é jornalista e docente uruguaio-venezuelano, diretor da Revista Question, fundador da Telesur, diretor do Observatório Latino-Americano de Comunicação e Democracia (ULAC).

Eis o artigo.

Funcionários do alto escalão de inteligência estadunidenses informaram a um grupo de importantes meios de comunicação de seu país que a Venezuela está a um passo do colapso, possivelmente violento, uma provável implosão política gerada pela deterioração das condições econômicas, admitindo que Washington tem pouca influência ou poder para incidir no assunto.

De acordo com o Washington Post e o Los Angeles Times, o que preocupa Washington já não é o fim dos governos chavistas; agora, o que mais inquieta é uma deflagração da violência política. O mais importante: os funcionários de inteligência disseram que Washington está decepcionada com a falta de coesão e capacidade da oposição para criar uma estratégia conjunta.

Para além das pressões e confabulações, a realidade econômica da Venezuela é grave. Enquanto se fala de uma moratória da dívida externa ou uma declaração unilateral, como um caminho para endereçar os rumos, o povo segue sofrendo a crise: a oposição não consegue ganhar a rua e o chavismo ainda não volta a elas para exigir soluções a um governo debilitado pelas pragas da ineficiência, ineficácia e corrupção.

O certo é que os Estados Unidos, em etapa pré-eleitoral, temem a possibilidade de uma explosão na Venezuela, sobretudo porque ninguém pode garantir a paz na região. Nem o atrapalhado governo interino brasileiro nem o do “gerente” Mauricio Macri, da Argentina, preocupados com eventuais conflitos em seus próprios países. Os Estados Unidos também não estão em condições de enfrentar outra zona de conflito como a do Oriente Médio ou da África.

Para o cientista político Leopoldo Puchi, as pressões dos Estados Unidos e da União Europeia são “uma intervenção que distorce a situação nacional, polariza, fecha portas e exige a capitulação de um dos fatores internos. Não se move por princípios e valores, que são manejados ao sabor da conveniência: se um carro é incendiado em um protesto nas ruas de Paris, Madri ou Baltimore, os autores serão castigados, mas se algo similar acontece em Caracas já se sabe o que dirá a União Europeia sobre ‘a liberdade de consciência’.

Uma dupla moral, que, ao utilizar os direitos humanos como instrumento de pressão geopolítica, obstrui as possibilidades de reconciliação. As demandas para que a Venezuela se reintegre ao dispositivo econômico e militar estadunidense representam uma grave lesão à soberania nacional, razão pela qual não podem ser aceitas como parte de uma negociação. É difícil, mas possível, alcançar um acordo sobre espaços de poder entre fatores internos. Mas não há “uma cota” para interesses estrangeiros. Na realidade, o melhor, “não nos ajudem, compadres”, acrescenta.

A Venezuela é notícia e objeto de atenção de primeira página de um jornalismo dedicado ao profetismo catastrófico, em parte como cortina de fumaça para esconder o golpe brando no Brasil. Assim vão se criando os imaginários coletivos: no Brasil não acontece nada (embora seja o verdadeiro epicentro dos conflitos) e a Venezuela arde em chamas...

Do Papa Francisco e sua diplomacia vaticana, passando por presidentes, ex-presidentes, candidatos, parlamentos e parlamentares, ministros, funcionários internacionais e, sobretudo, as corporações da mídia, a interpretação, de acordo com seus próprios interesses, é a de que o que acontece no norte do sul é uma guerra virtual com ameaça de não sê-lo por muito tempo.

Não há forma de descartar a conspiração da direita internacional contra o país, com eixos em Madri e Bogotá, sempre sob a batuta de Washington. Segundo o governo, está em construção um cenário de violência para justificar uma intervenção estrangeira de caráter militar. A campanha desestabilizadora cresce nos meios de comunicação internacionais cartelizados, em busca de justificar um golpe.

Há seis meses, a direita ganhou as eleições legislativas, com a promessa de que a fila para votar seria a última que os venezuelanos teriam que enfrentar, em referência às filas para adquirir produtos básicos. Até agora, nem uma ideia, nem um projeto (além da palhaçada jurídica que é a lei de anistia). Sua única meta é a aniquilação do chavismo como opção política, o desaparecimento de um sistema que demonstrou ser uma alternativa válida ao neoliberalismo.

O objetivo da oposição venezuelana, nas suas três vertentes, é, no momento, criar um clima de desestabilização e alterar o ambiente até o extremo, devido ao temor das urnas, de perder novamente em um eventual referendo revocatório ou em eleições presidenciais. Parece ser a oposição que necessita de uma saída alternativa à eleitoral, democrática.

Há um setor que trabalha pelo referendo revogatório, liderado pelo governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski; outro, que controla a atividade de rua e é dirigido por Leopoldo López a partir da prisão através do seu partido Vontade Popular. O terceiro setor é formado por Ação Democrática e Um Novo Tempo, que controlam a Assembleia Nacional, manejam recursos e contam com uma ampla projeção midiática.

Os saques e as manifestações têm o objetivo de criar uma situação de caos, e a partir dela coroar o golpe de Estado ou uma intervenção estrangeira. Mas estão conscientes de que, depois de conseguir este objetivo, devem deter a avalanche do povo na rua e que as Forças Armadas Bolivarianas não os reprimirão.

A crise

É impossível negar a atual crise do país, o desabastecimento de alimentos e remédios, a inflação, a insegurança, assim como também a crise existente no governante Partido Socialista Unido da Venezuela. Mas é a cartelização político-midiática internacional configurada que reproduz conteúdos midiáticos homogêneos sobre a Venezuela e nos oferece um mapa seletivo da realidade venezuelana, longe da própria realidade.

Existe uma escassez artificial por parte de grandes intermediários que, em vez de colocar os produtos nos estabelecimentos formais, fazem negócio com uma rede chamada “bachaqueros”. Ao mesmo tempo, produz-se um ajuste de preços de forma altamente especulativa, na medida em que os preços dos bens podem duplicar de uma semana para a outra, obtendo desta foram uma altíssima margem de lucro.

A escassez programada faz parte de uma estratégia aperfeiçoada pelos grupos econômicos, com a esperança de soterrar o apoio político do governo. “As imagens de pessoas fazendo fila desde cedo, de rostos frustrados, de raiva e de profunda tristeza porque o dinheiro não dá, repetem-se em transmissões contínuas pelas redes sociais e pelas televisões privadas. Os capitalistas, e sua liderança política da Mesa de Unidade Democrática – MUD, estão aplicando uma terapia de choque para que as pessoas traumatizadas aceitem o que quer que seja, inclusive um governo de direita”, assinala o coletivo A Rua é Nossa.

À medida que o confronto entre o governo bolivariano e a oposição avança e se agrava, o sistema de ameaças entre um e outro grupo passou para formas cada vez mais violentas e uma estratégia de deslegitimação política e moral do adversário, um discurso de paz negativa, guerreiro, que pretende legitimar as ações de cada grupo à procura de sua visão de paz, que expressa seus verdadeiros interesses políticos ou de outra ordem, assinala a socióloga Maryclén Stelling.

A necessidade de aplicar a Carta Democrática (da OEA ou do Mercosul) contra a Venezuela, planejada pelo Comando Sul dos Estados Unidos – segundo a Operação Freedom 2 –, aparece novamente como cortina de fumaça do golpe jurídico-policial-midiático-parlamentar no Brasil, e forma de disciplinar os países sul-americanos na “estratégia de cerco e asfixia” internacional contra a Venezuela que, definitivamente, é o caminho para desfazer os processos de integração.

A mão invisível da Unasul

Desenterrando estridências, Ernesto Samper, da Secretaria Geral da Unasul, defendeu uma mediação entre o governo de Maduro e a MUD, protagonizada pelos socialdemocratas ex-presidentes José Luis Rodríguez Zapatero, da Espanha, Leonel Fernández, da República Dominicana, e Martin Torrijos, do Panamá, com reuniões em Santo Domingo que a oposição primeiro negou e a imprensa cartelizada sempre insistiu em invisibilizar.

“Os bons ofícios de personalidades ou instâncias estrangeiras são positivos e saudáveis quando as partes em conflito de um país se colocam de acordo para convocá-los”, assinalou o jornal mexicano La Jornada, que, na sequência, indicou que “os desatinos do governo de Rajoy e as viagens provocadoras ao território venezuelano de indivíduos como Felipe González e Albert Rivera constituem atos de intervencionismo contrários à legalidade internacional, ao sentido democrático e ao respeito à soberania nacional dos países.

O marco identificado para estas aproximações foi a busca de bem-estar de todos os cidadãos, a paz, a justiça, a verdade, a convivência institucional, o fortalecimento da economia, a preservação do Estado de Direito, a democracia e o respeito pela soberania nacional.

O “melhor caminho para ajudar a Venezuela é o da convivência democrática e o diálogo entre todos os venezuelanos. São eles, e somente eles, que têm o dever e a possibilidade de resolver a situação da Venezuela”, assinalou a Unasul.

Desenlace

As imagens de galpões, comércios, restaurantes onde a inspeção do governo bolivariano, com o apoio de grupos organizados da comunidade, encontra grandes quantidades de produtos estocados (massa, farinha, café, óleo, açúcar, detergente e vários etceteras) são transmitidas pelas redes sociais e pelo canal oficial, VTV. Mas estes produtos não chegam às prateleiras.

Os anúncios diários do governo não conseguem acalmar a angústia das pessoas, assim como o discurso falso da direita, agrupada na MUD, também não consegue convencê-las.

Fala-se de saídas, há “conversações”: há quem especule com um recuo de Nicolás Maduro e um governo de “transição” (porém constitucional) dirigido pelo vice-presidente Aristóbulo Istúriz, até que se realizem novas eleições gerais, passando no final deste ano pelas eleições para governadores e prefeitos.

Outros especulam – sobretudo no exterior – com um golpe, palaciano ou não..., ou a intervenção de uma força multilateral apoiada pela OEA e/ou – inclusive – pela OTAN.

Todos discutem sobre os pais da crise, mas poucos sobre como solucioná-la.

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