O cardeal Siri e a lenda da "não eleição" papal. Artigo de Paolo Farinella

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31 Maio 2016

Se houve uma presença do Espírito nos conclaves, ela se mostrou em 1958 na não eleição de Giuseppe Siri por motivos de idade e, em 1978, quando, na morte de Paulo VI, Siri partiu de Gênova estando certo de ter o solidéu branco na cabeça. De fato, ele deixou as ordens práticas para a sua sucessão em Gênova, certo de que não voltaria como cardeal.

A opinião é do padre e biblista italiano Paolo Farinella, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 30-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

De vez em quando, retorna a lenda da não eleição de Siri como papa com o nome de Gregório XVII e da sua rocambolesca renúncia no conclave de 1958, em que foi eleito o único papa certo: João XXIII, Angelo Giuseppe Roncalli.

De vez em quando, a fábula deixa o tempo que encontra, mas sempre há alguém que a relança. Nas páginas do jornal La Repubblica (20-05-2016, pp. XI), desta vez, foi Carlo Adolfo Martigli, escritor, ator e dramaturgo que tirou o pó daquilo que já havia sido publicado por Marco Tosatti no jornal La Stampa de Turim (07-03-2013), com o artigo "Papa bom: foi uma verdadeira surpresa?", deixando na interrogação o prurido de uma não notícia, nascida nos EUA em ambientes "sedevacantistas", adversários jurados do Vaticano II, para eles fonte de todo erro na Igreja, e para a desacreditar o papa que o quis contra o parecer da Cúria, isto é, João XXIII.

Este, dentre outras coisas, no momento de assumir o ministério papal, como fino historiador, não hesitou em assumir o nome de um antipapa do tempo de Avignon. A lenda, retomada por Martigli, com base em Tosatti (La Stampa), é esta: na morte de Pio XII, no conclave de 1958, teria sido eleito Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova, adversário intransigente do comunismo, com o nome de Gregório XVII.

Sob a pressão de alguns cardeais, que temiam um recrudescimento das perseguições comunistas contra os católicos do Leste, Siri teria renunciado no mesmo instante, dando o lugar, portanto, ao idoso patriarca de Veneza, Angelo Roncalli, que tomou o nome de João XXIII. Siri teria inaugurado não um pontificado breve, mas um papado-relâmpago.

Tudo se baseia na "prova" da fumaça que primeiro foi branca, depois preta, e assim pontilhando entre fumaça sem fogo. Como sempre acontece, os fatos foram muito mais lineares e simples. Por mais que Siri pudesse estar credenciado junto a Pio XII, ele não tinha nenhuma possibilidade de se tornar papa, seja pela sua intransigência obtusa, que denotava uma não inteligência da história, seja porque estava doente do culto da sua personalidade, que ele deixava transparecer em toda ocasião pública, seja, por fim, porque – esta foi a razão que cortou a cabeça de todos os touros possíveis –, se Siri tivesse sido eleito papa na morte de Pio XII, ou seja, em 1958, "não teríamos tido um Sumo Pontífice, mas um Padre eterno", já que o cardeal de Gênova tinha apenas 53 anos.

Ninguém de bom senso e de mente sã teria aceitado tal risco, especialmente com um homem que, já na época, estava fora do seu tempo, fechado em uma visão de Igreja e de mundo medievais e anacrônicas, como a história demonstrou amplamente.

Siri foi incapaz de ler os sinais dos tempos, não compreendeu o Vaticano II e se opôs a João XXIII e a Paulo VI para afirmar um modelo da Igreja "seu", radicada exclusivamente no clericalismo, sem sentido e sem história. Eu nunca acreditei que o Espírito Santo agia no conclave de modo extraordinário, porque todas as eleições dos papas são fruto de compromissos, de medos, de negociações, que, no século XVI, também ocorriam "apud latrinas", apenas para dizer como eram espirituais.

No entanto, se houve uma presença do Espírito, ela se mostrou em 1958 na não eleição de Siri por motivos de idade e, em 1978, quando, na morte de Paulo VI, Siri partiu de Gênova estando certo de ter o solidéu branco na cabeça. De fato, ele deixou as ordens práticas para a sua sucessão em Gênova, certo de que não voltaria como cardeal.

Mais uma vez, o Espírito lhe sugeriu para fazer a entrevista com Gianni Licheri, intitulada "Eu, papa? Siri à Gazzetta. Uma entrevista exclusiva com o arcebispo de Gênova que entra hoje como favorito na Capela Sistina", no jornal La Gazzetta del Popolo, de Turim (14-10-1978), que queimou todas as suas veleidades, porque, na sua megalomania, ele quis falar como papa, antes de sê-lo.

Nunca como naquele caso valeram os provérbios: "não conte com o ovo dentro da galinha" e "no conclave quem entra papa sai cardeal". De um evento podemos ter certeza: a Igreja Católica escapou de um perigo, embora inexistente.

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