A Amoris Laetitia tem um autor escondido. Chama-se Víctor Manuel Fernández, afirma vaticanista

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Por: André | 31 Maio 2016

Impressionantes semelhanças entre as passagens chaves da exortação do Papa Francisco e dois textos de 10 anos atrás de seu principal conselheiro. Um duplo sínodo para uma solução que já estava escrita.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 25-05-2016. A tradução é de André Langer.

São os parágrafos chaves da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia. E são também – a propósito – os mais ambíguos, como demonstram as múltiplas e contrastantes interpretações e aplicações práticas que ocorreram na sequência.

São os parágrafos do capítulo oitavo; de fato, abrem o caminho para a comunhão aos divorciados recasados.

Que o Papa queria chegar a isso é algo que está claro para todos. Além do mais, já era algo que ele fazia quando era arcebispo de Buenos Aires.

Mas agora se descobre que algumas formulações chaves da Amoris Laetitia têm uma pré-história argentina, copiadas tal qual de artigos publicados em 2005 e 2006 de Víctor Manuel Fernández, já então – e ainda hoje – pensador de referência do Papa Francisco e escritor na sombra de seus principais textos. A semelhança entre os artigos de Fernández e passagens da Amoris Laetitia é muito grande.

Mas é melhor demarcar os fatos.

* * *

Naquela época Fernández era professor de Teologia na Universidade Católica Argentina de Buenos Aires.

Nessa mesma universidade aconteceu em 2004 um Congresso Teológico Internacional de aprofundamento da Veritatis Splendor, a encíclica de João Paulo II “sobre algumas questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja”, decididamente crítica da ética “da situação”, a corrente laxista presente entre os jesuítas do século XVII e difundida hoje mais do que nunca na Igreja.

Atenção! A Veritatis Splendor não é uma encíclica menor. Em março de 2014, em um dos seus raros e muito meditados escritos como papa emérito, Joseph Ratzinger, ao indicar as encíclicas na sua opinião “mais importantes para a Igreja” das 14 publicadas por João Paulo II, primeiro citou quatro, com poucas linhas para cada uma, mas depois acrescentou a quinta, precisamente a Veritatis Splendor, à qual dedicou uma página inteira, definindo-a como de “inaudita atualidade” e concluindo que “estudar e assimilar esta encíclica segue sendo um grande e importante dever”.

Na Veritatis Splendor o papa emérito vê que se devolve à moral católica seu fundamento metafísico e cristológico, o único capaz de vencer a deriva pragmática da moral corrente, “na qual já não existe o que é verdadeiramente mal e o que é verdadeiramente bom, mas somente aquilo que do ponto de vista da eficácia é melhor ou pior”.

Pois bem, esse congresso de 2004, em Buenos Aires, dedicado particularmente à teologia da família, moveu-se na mesma direção traçada depois por Ratzinger. E foi precisamente para reagir a esse congresso que Fernández escreveu os dois artigos citados, praticamente em defesa da ética da situação.

Esses dois artigos foram também a causa pela qual a Congregação para a Educação Católica bloqueou a candidatura de Fernández como reitor da Universidade Católica Argentina. Mas ela foi obrigada a ceder, em 2009, às pressões do então arcebispo de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio, que fez o impossível para obter o nihil obstat com a finalidade de promover o seu pupilo.

Em 2013, apenas eleito papa, Bergoglio honrou-o nomeando-o bispo da extinta sede metropolitana de Tiburnia. E desterrou para a Biblioteca Apostólica Vaticana o principal responsável pela rejeição da candidatura de Fernández, o teólogo dominicano Jean-Louis Bruguès, sem nomeá-lo cardeal, como tradicionalmente era feito para todos os bibliotecários da Santa e Romana Igreja.

A partir de então Fernández passa quase mais tempo em Roma do que em Buenos Aires. Ele está ocupadíssimo com o seu papel de escritor fantasma de seu amigo o papa, sem ter aumentado nesse tempo suas credenciais de teólogo, em absoluto brilhantes desde o princípio.

De fato, o primeiro livro que revelou ao mundo o gênio de Fernández foi: Cura-me com tua boca. A arte de beijar, publicado em 1995 na Argentina com esta apresentação ao leitor escrita pelo próprio autor:

“Esclareço-lhe que escrevi este livro baseando-me não tanto na minha própria experiência, mas na vida das pessoas que beijam. E nestas páginas quero sintetizar o sentimento popular, o que sentem as pessoas quando pensam em um beijo, o que experimentam os mortais quando beijam. Para isso falei longamente com muitas pessoas que têm abundante experiência no tema, e também com muitos jovens que aprendem a beijar à sua maneira. Além disso, consultei muitos livros, e quis mostrar como falam os poetas sobre o beijo. Assim, tratando de sintetizar a imensa riqueza da vida, saíram estas páginas a favor do beijo. Espero que ajudem a beijar melhor, que motivem a liberar o melhor do seu ser em um beijo”.

Por outro lado, no que diz respeito à consideração que Fernández tem de si mesmo basta uma citação de um ano atrás, extraída de uma entrevista concedida ao Corriere della Sera, na qual se mostrou desdenhando do cardeal Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, por conseguinte, encarregado de examinar previamente – mas ignorado nos últimos três anos – os rascunhos dos textos papais:

“Eu li que alguns dizem que a cúria romana é parte essencial da missão da Igreja, ou que um prefeito do Vaticano é a bússola segura que impede a Igreja de cair no pensamento light; ou que esse prefeito assegura a unidade da fé e garante ao pontífice uma teologia séria. Mas os católicos, lendo o Evangelho, sabem que Cristo assegurou um guia e uma iluminação especial para o papa e ao conjunto dos bispos, mas não para um prefeito ou para outra estrutura. Quando ouvimos coisas desse tipo, parece quase que o papa é um representante deles, ou alguém que veio para perturbar e que deve ser controlado. [...] O papa está convencido de que aquilo que ele já escreveu ou disse não pode ser punido como um erro. Portanto, no futuro, todos poderão repetir essas coisas sem o medo de receber sanções.”

Este é, portanto, o personagem que Francisco mantém perto de si como seu pensador de referência, o homem que redigiu numerosas passagens da Evangelii Gaudium, o programa do pontificado; da Laudato Si’, a encíclica sobre o ambiente; e, por último, da Amoris Laetitia, a exortação pós-sinodal sobre a família.

* * *

A seguir, transcrevemos duas passagens da Amoris Laetitia nas quais é clara a cópia das frases de Fernández escritas há 10 anos.

É útil lê-los tendo presente o que disse recentemente Robert Spaemann, grande filósofo e teólogo com quem absolutamente se pode comparar Fernández:

“O verdadeiro problema é uma influente corrente de teologia moral, já presente entre os jesuítas do século XVII, que defende uma mera ética da situação; ética que João Paulo II recusou, condenando-a em sua encíclica Veritatis Splendor. A Amoris Laetitia também rompe com este documento magisterial”.

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