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Por: André | 30 Maio 2016

“O sistema capitalista conseguiu apropriar-se das críticas mais radicais, em especial daquelas que batiam pé firme nas formas autoritárias e hierárquicas que dominavam a esfera da produção e do mundo econômico, para, gerando uma metamorfose surpreendente, colocá-las a serviço da reconfiguração do próprio capitalismo. É impossível explicar a expansão cultural (e não apenas a estrutural-financeira) do neoliberalismo sem estabelecer estas genealogias e estes vínculos que, à primeira vista, poderiam parecer visceralmente contraditórios”, escreve Ricardo Forster, filósofo, em artigo publicado por Página/12, 25-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

“No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo.
Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.

Hoje, o poder adquire cada vez mais uma forma permissiva. Em sua permissividade, mesmo em sua amabilidade, depõe sua negatividade e se oferece como liberdade.

A psicopolítica neoliberal é dominada pela positividade. Em vez de operar com ameaças, opera com estímulos positivos. Não emprega a ‘medicina amarga’, mas o ‘eu gosto’. Lisonjeia a alma em vez de sacudi-la e paralisá-la mediante choques. A seduz em vez de opor-se a ela. Toma a sua dianteira. Com muita atenção toma nota das ânsias, das necessidades e dos desejos (...). A psicopolítica neoliberal é uma política inteligente que busca agradar em vez de submeter.”

Buyng-Chul Han, psicopolítica

Há alguns anos, quando a crise das hipotecas ainda não tinha sido deflagrada, aquela marcada pela estrepitosa queda do Lehmann Brothers e que, desde 2008, segue marcando duramente a travessia do capitalismo ultraliberal, em um notável livro de dois sociólogos franceses, Luc Boltanski e Ève Chiapello (O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009), podíamos ler, entre incrédulos e fascinados, as profundas transformações que se processaram no funcionamento da sociedade e de suas estruturas econômicas a partir dos anos 80 e, sobretudo, desde a última década do século passado.

Boltanski e Chiapello detinham-se, principalmente, em analisar e esmiuçar as mudanças no interior do mundo das empresas, aguçavam sua indagação para decifrar os processos cultural-simbólicos que levaram a abandonar os paradigmas fordistas nos quais haviam sido formados e formatados os quadros gerenciais para colocar em evidência a profunda metamorfose que vem marcando a realidade empresarial nas últimas três décadas e que se irradiou para os outros estratos da sociedade.

Longe dos paradigmas contra os quais que se rebelaram os jovens das décadas de 1960 e 1970, paradigmas sustentados no interior da etapa produtivista do capitalismo, inclusive ali onde, em especial nos anos que se abriram a partir do pós-Segunda Guerra Mundial, se expandiu o Estado de Bem-Estar Social, o que domina a cena dos últimos quase 40 anos é a emergência de um capitalismo flexível associado ao impacto da financeirização extrema das relações econômicas.

Combinando uma rigorosa pesquisa desta etapa hegemonizada pela financeirização do capital e afundando seu bisturi crítico nos fundamentos ideológicos do neoliberalismo, os autores vão mostrando de que modo o discurso e a prática do “novo espírito” do capitalismo foi se apropriando das experiências e das propostas contraculturais surgidas nos anos 60 quando a busca de um novo paradigma de liberdade individual e de uma violenta crítica às formas autoritárias e hierárquicas da sociedade burguesa dominou a sensibilidade e as ações da geração de Maio de 68.

Em todo caso, afanam-se para compreender a passagem de um capitalismo centrado na produção e organizado a partir de estruturas verticais e hierárquicas a um capitalismo “de sedução”, orientado para os prazeres e o apelo ao gozo permanente capaz de introduzir na vida cotidiana a ficção da diversidade, a liberdade sem limites e a transgressão normativizada. Suas inquietações são dirigidas a interrogar a construção de novas alternativas que consigam escapar dessas formas de sedução que permitiram à economia global de mercado impor em quase todas as latitudes suas estruturas de dominação. Desafio de quem segue reivindicando ideais emancipatórios em tempos em que a lógica repressiva e autoritária do capitalismo se transmutou para práticas capazes de mascarar a atualidade da desigualdade e da injustiça que, longe de diminuir, se multiplicaram e aceleraram em nível global.

“O capitalismo artístico – escreveram Gilles Lipovetsky e Jean Serroy – não passou do mundo do horror ao mundo da beleza radiante e poética”. Em nossa geografia sulista podemos comprovar isso ao experimentar a diferença que existe entre a publicidade de uma “revolução da alegria” proposta pelo Mudemos e a impiedosa implantação de um programa de transferência de recursos dos setores populares e assalariados às grandes corporações financeiras, aos donos da soja e às empresas multinacionais. Em todo caso, entre a ficção propagandística e a realidade de um aceleramento da desigualdade colou-se uma nova e pujante maquinaria de produção intensiva de subjetividades sujeitadas à engrenagem do consumo infinito que encontram seu outro rosto nas novas formas de exclusão.

Vejamos o que destacam Boltanski e Chiapello: “Não é difícil reconhecer aqui (os autores estão refletindo sobre as mudanças na formação dos quadros empresariais nos anos 90) o eco das denúncias anti-hierárquicas e das aspirações à autonomia, que foram expressas com veemência no fim dos anos 60 e nos anos 70. Essa filiação, aliás, é reivindicada por alguns especialistas que, nos anos 80, contribuíram para a implementação de dispositivos da nova gestão empresarial.

Oriundos da esquerda, sobretudo do movimento de autogestão, ressaltavam a continuidade entre seus engajamentos da juventude e as atividades por eles desenvolvidas nas empresas, após a guinada política de 1983, visando tornar mais atraentes as condições de trabalho, melhorar a produtividade, desenvolver a qualidade e aumentar os lucros. Assim, por exemplo, as qualidades que, nesse novo espírito, são penhores de sucesso – autonomia, espontaneidade, mobilidade, capacidade rizomática, polivalência (em oposição à especialização estrita da antiga divisão do trabalho), comunicabilidade, abertura para os outros e para as novidades, disponibilidade, criatividade, intuição visionária, sensibilidade para as diferenças, capacidade de dar atenção à vivência alheia, aceitação de múltiplas experiências, atração pelo informal e busca de contatos interpessoais – são diretamente extraídas do repertório de maio de 68.

Mas esses temas, associados nos textos do movimento de maio a uma crítica radical do capitalismo (especialmente à crítica à exploração) e ao anúncio de seu fim iminente, encontram-se, na literatura da nova gestão empresarial, até certo ponto autonomizados, transformados em objetivos que valem por si mesmos e são postos a serviço das forças cuja destruição eles pretendiam apressar.

A crítica à divisão do trabalho, à hierarquia e à supervisão, ou seja, ao modo como o capitalismo industrial aliena a liberdade, está assim desvinculada da crítica à alienação mercantil, à opressão pelas forças impessoais do mercado, que, no entanto, quase sempre a acompanha nos textos contestadores dos anos 70”.

O interessante, precisamente, desta análise é que ela nos mostra de que modo o sistema conseguiu apropriar-se das críticas mais radicais, em especial daquelas que batiam pé firme nas formas autoritárias e hierárquicas que dominavam a esfera da produção e do mundo econômico, para, gerando uma metamorfose surpreendente, colocá-las a serviço da reconfiguração do próprio capitalismo.

É impossível explicar a expansão cultural (e não apenas a estrutural-financeira) do neoliberalismo sem estabelecer estas genealogias e estes vínculos que, à primeira vista, poderiam parecer visceralmente contraditórios. Como é possível que os movimentos contestadores e anticapitalistas dos anos 60 e 70 tenham se convertido na matéria-prima para a refundação ainda mais selvagem da dominação burguesa sobre o conjunto da sociedade?

Seguramente, é possível encontrar a resposta no meticuloso estudo que os autores fazem da erosão que o novo individualismo libertário e hedonista gerou no interior da vida da sociedade do final do século passado e, sobretudo, da “genial” apropriação que a nova cultura empresarial foi capaz de fazer das energias contestatórias que marcaram uma geração e inviabilizaram a persistência de um modelo autoritário de organização da sociedade.

Mas, basicamente, foi a sagacidade com que rapidamente compreenderam a fluidez que surgia entre as novas necessidades do capitalismo neoliberal e a ruptura dos limites, das hierarquias e das tradições e formas de organização do trabalho atrofiadas que estavam na base da crítica dos jovens rebeldes dos anos 60 e 70. Do mesmo modo que, utilizando os numerosos recursos dos meios de comunicação e da indústria da cultura, se desencadeou um processo de produção de subjetividade associado aos valores emergentes da nova práxis individualista.

Eles extraíram do espírito anticapitalista aquelas características que se correspondiam com as exigências da época da fluidificação econômica, da imprescindível abertura das fronteiras mercantis e da radical financeirização do sistema econômico que apostava no flexível frente ao sólido, no fugaz frente ao permanente. Sob a marca de um novo conceito de “liberdade” (em grande medida extraído da crítica da geração de 68, o que outros autores chamaram de “crítica artística do capitalismo”), o neoliberalismo foi modificando pela raiz as formas cultural-simbólicas e preparou-se para produzir uma profunda mutação na subjetividade. Difícil, para não dizer impossível, desentranhar a emergência da “nova direita” (entre nós do macrismo) sem elucidar as características centrais desta etapa do capitalismo global.

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