“A revolução tecnocientífica cria o tecnocapitalismo, que é diferente do capitalismo industrial”. Entrevista com Javier Echeverría

Revista ihu on-line

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Mais Lidos

  • Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

    LER MAIS
  • A ideologização da Sociologia (além de uma simples distração). Artigo de Carlos A. Gadea

    LER MAIS
  • Vozes que desafiam. Dorothy Stang, profetiza e mártir da Amazônia

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: André | 18 Maio 2016

Os senhores do ar, os donos da informática, são os novos senhores feudais em uma época tecnocientífica. Das 10 maiores empresas do mundo, sete estão relacionadas com as tecnologias da informação e comunicação.

 
Fonte: http://bit.ly/1si2zzy  

Javier Echeverria (foto) considera-se um pioneiro no estudo das novas tecnologias da informação e da comunicação. Seu livro Os senhores do ar: Telépolis e o terceiro entorno, publicado em 1999, era uma espécie de aposta no novo século que começava. Sua precisão transformou-o rapidamente em uma obra de leitura obrigatória para os acadêmicos espanhóis e latino-americanos.

Convidado pela Universidade de Lanús e pelo Centro Cultural da Espanha de Buenos Aires, o filósofo, matemático, ensaísta e professor do Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas conversou com Página/12 sobre as relações entre ciência, tecnologia e sociedade.

Sua obra tem um grande impacto no mundo acadêmico da nossa região.

A entrevista é de Patricio Porta e publicada por Página/12, 16-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Você nasceu no México?

Meu pai emigrou para o México aos 19 anos fugindo da guerra do Marrocos. Quando meu pai foi para o México ficou como desertor, até que em 1936 a República o anistiou. Voltou para a Espanha, casou-se com uma mulher do povo e levou-a para o México. Hoje, parece algo incrível, mas naquela época eram histórias muito típicas dos indianos, que eram aqueles que faziam as Índias por estritas razões econômicas. Meus irmãos nasceram no México, mas minha mãe decidiu que eu ia nascer na Espanha, porque ela tinha perdido dois bebês por falta de cuidado médico.

Os senhores do ar: Telépolis e o terceiro entorno foi publicado nos umbrais do século XXI. Como avalia as mudanças produzidas pelas novas tecnologias da informação quase duas décadas após esse trabalho?

Naquele momento, os senhores do ar eram a Microsoft, Nokia e Ericsson. A Nokia e a Ericsson desapareceram. Todas as grandes companhias do hardware, do software, da telefonia móvel, dos videogames e dos cartões de crédito iam crescendo, e esse sistema das novas tecnologias da informação se estenderia por todos os países, como realmente aconteceu. Quem controlasse essas tecnologias teria um poder crescente.

Os senhores do ar era uma metáfora dos senhores da terra na Idade Média. Quem tinha o controle da terra tinha o poder. No século XXI, quem controlar o ar, a internet e as redes telemáticas é quem terá o poder. Basta olhar as 10 empresas com maior capitalização na Bolsa para saber que sete são do setor das tecnologias da informação e comunicação. Há 16 anos, eram as empresas petroleiras, industriais e as montadoras. Amazon, Google, Facebook e Twitter não existiam.

Os senhores do ar tiveram suas batalhas, seus conflitos e evoluções, mas o fundamental era aquilo que eu propunha, a metáfora feudal; e o sigo afirmando radicalmente. A internet ou o terceiro entorno está em uma etapa neofeudal. Há uma espécie de dependência ou servidão. Qualquer usuário de um software ou de uma rede social chega a um momento chave que é o do “aceito”. Você aceita ou não. Caso não o fizer, não terá acesso às redes sociais e fica excluído desse âmbito social, âmbito cidadão, você fica sem nada.

E se você aceita, assinou um contrato onde aceita todas as condições impostas pelo senhor do ar e que ninguém lê. Isso é típico de um poder feudal. A origem da submissão na relação é total. Pertence-se então ao senhor feudal, depende-se dele, é preciso ater-se às suas normas e atualizar continuamente seus produtos. Somos súditos destas grandes empresas.

Naquela época, você usou a expressão “neofeudalismo cibernético”. Estamos mais perto de ser uma “democracia eletrônica” agora?

Essa era a ideia de Telépolis, erguer uma cidade democrática neste mundo digital. Em 1994, quando publico o livro, isto era uma utopia, porque estas tecnologias estavam apenas surgindo. O terceiro entorno não é apenas a internet. Além disso, existem as redes digitais, telemáticas, militares e financeiras, presentes desde a década de 1980. A crise de 2009 foi provocada pelas redes financeiras. Agora mesmo os Panamá papers são um exemplo claríssimo de por onde circula o grande dinheiro. Circula pelas redes financeiras, que são telemáticas.

Da mesma forma movem-se as guerras. Antes de organizar uma guerra, os países tecnologicamente desenvolvidos montam a rede telemática correspondente. Na guerra do Iraque isto foi claríssimo. Os Estados Unidos levaram um mês para chegar até Saddam Hussein, porque estavam montando toda a rede para saber onde bombardear.

O terceiro entorno é uma estrutura diferente da terra e das cidades, porque não é territorial. Quem dominar as redes, quer sejam militares, financeiras, científicas, mantidas pelas comunidades científicas e as grandes indústrias, ou civis, como a internet, tem o poder. Isto configura um novo espaço, o terceiro entorno ou mundo digital. Houve grandes novidades, como o Facebook e as redes sociais, e a Apple ultrapassou a Microsoft. Em todo caso, não houve mais que mudanças nas relações de poder entre os senhores do ar.

Chamo-os, agora, de senhores das nuvens. A metáfora é quase a mesma. Pode haver nuvens tempestuosas, nuvens de cinzas, nuvens nucleares. As nuvens podem provocar chuvas e pode desencadear-se um furacão verdadeiramente devastador, como aconteceu com as redes militares e financeiras. Se em algum momento o Google quebrasse, porque outro senhor do ar o bombardeasse, quando começarem as tecnoguerras, muitas redes cairiam.

A crescente massificação no acesso à internet pode desembocar em uma maior democratização?

Não. Em 1999, eu dizia categoricamente que esse espaço não era democrático, e agora o é menos ainda. O fato de que haja muita gente num mesmo lugar não significa que seja uma democracia. Uma condição sine qua non requer, no sentido grego de democracia, que haja um espaço público, a ágora, de acesso universal e livre para todos os cidadãos. Isto não acontece, pois para acessar a internet tenho que usar um navegador, um portal, uma conexão wi-fi. Se a internet fosse a ágora, haveria uma série de filtros, de senhores que me cobrariam ou me controlariam pelo acesso. Não há acesso livre em absoluto.

O segundo argumento, mais convincente ainda, é que não há democracia sem divisão de poderes. Se há apenas um poder executivo, isto é tirania. Há um Parlamento no Facebook, no Twitter? O que existe é um conselho de administração, cujos membros não sabemos quem são e que não são escolhidos democraticamente. Se se quer democratizar, já não o terceiro entorno, mas um dos domínios feudais, pediria que o presidente do Google seja escolhido pelos usuários; Mark Zucherberg, que é tão democrático e anarco, que se submeta à eleição de seus usuários.

Desvalorizou-se o conceito de democracia e é confundido com muita gente. O que na realidade está acontecendo, sobretudo nas grandes cidades, é que a massificação produz um aumento de valor. Quando há um trending topic ou um blogueiro com muita audiência, então a publicidade chega até ele, aumenta o valor do seu domínio, o valor bursátil da rede correspondente e o poder econômico.

O que pensa das chamadas “revoluções 2.0”, este casamento entre redes sociais e as ruas, como aconteceu no Egito, Brasil e Espanha?

Nos países árabes tudo acabou mal. Mesmo a Tunísia, que é a única democracia que sobreviveu, está completamente controlada e limitada.

Durante as revoltas de 2011 em Londres, David Cameron apontou para o Twitter.

Se Cameron pede, o Twitter negocia. O que não se sabe é o que o Twitter pode ter obtido de Cameron. Nesta mesma época, deu-se a revolta de Wall Street. Disso ficou Trump.

Também Bernie Sanders.

Bom, mas personagens como Trump são típicos do terceiro entorno, desta nova modalidade de luta pelo poder, onde triunfa a demagogia e a política do espetáculo. Inclusive Putin, que aparenta ser sério e rigoroso. Ou o ditador da Coreia do Norte, que organiza espetáculos, faz ensaios nucleares, lança mísseis, apenas para ter publicidade na imprensa. Hitler foi um grande líder de massas. O equivalente ao cidadão clássico é o usuário das novas tecnologias.

Democratizar uma rede é dar o voto livre e secreto aos usuários. Pode ser democracia direta ou parlamentar, que o Parlamento aprove suas leis, que o presidente do conselho de administração se atenha às regras impostas por outros e que administre a rede sem que ele ou seus homens de confiança façam as normas. Fico alarmado com o fato de que se pense que, pelo simples fato de haver muita gente em uma rede social, já seja democracia.

Talvez o problema resida em que se analisa um cenário relativamente novo com velhas categorias, como se se tratasse do tema dos meios de comunicação tradicionais.

A tese de Castells é que os políticos são controlados pelos meios de comunicação e estes estão dominados diretamente pelo sistema financeiro. Essa é a estrutura do mundo na atualidade. Pensar, hoje em dia, que os governantes mandam é tempo passado. Precisamente por isso há uma crise profunda das democracias.

As eleições entre Hillary Clinton e Trump são um exemplo do quanto a democracia se deteriorou em um país onde houve presidentes como Jefferson ou Lincoln. A política converteu-se em tecnopolítica. Os partidos políticos converteram-se em empresas que competem no mercado dos eleitores e que capitalizam nas urnas. Um movimento social importante como o 15-M acabou em um partido político normal e corrente como qualquer outro que manifesta sua força capitalizando votos. Duvido que esse aumente a qualidade da democracia.

Mudou-se o conceito de democracia, então que se explicite. Se não se tem necessidade de constituições nem de repúblicas, e há redes privadas como o Facebook, que se diga. O Google não é uma instituição pública. É propriedade privada de senhores que são muito liberais, tolerantes e sofisticados. Não estou criticando as pessoas, mas a estrutura, que é muito alarmante.

A expansão da internet está associada à globalização. Como estas novas tecnologias impactam as identidades?

Surgem novas formas de identidade. O sujeito passa a ter uma identidade plural. Frente à noção clássica de sujeito político, por exemplo, alguém pode ter uma nacionalidade ou, no máximo, duas. No segundo entorno alguém tem uma pátria e ponto final. No terceiro entorno, ao contrário, alguém pode ter múltiplas identidades, porque se é súdito de vários senhores do ar. O fato de ser súdito do Facebook não me impede de sê-lo do Google. Pelo contrário.

Como essas são tecnoidentidades, ou identidades tecnológicas, tenho que adquirir competências e minha mente tem que estar moldada para lidar com essas tecnologias. Estou falando de identidades mentais. O terceiro entorno é basicamente uma identidade mental e pode vir abaixo a qualquer momento. E quando alguém fica sem conexão insulta e perde os nervos. Um pai quer que um senhor do ar controle as fotos que seu filho posta no Flickr ou no Instagram, ou as loucuras que comete nas redes sociais. Ou seja, é controlado por uma empresa.

O anonimato é perfeitamente possível do ponto de vista tecnológico, mas isto não interessa aos senhores do ar. Interessa-lhes conhecer detalhadamente os gostos e interesses de seus usuários, porque ao saber seus usos estão fazendo um estudo de mercado gratuito, do atual e do futuro, no caso dos jovens. Descobriram a fórmula da Coca-cola. Fazer um estudo de mercado custa caro e é impreciso, como bem o sabem os especialistas em econometria. Os jovens veem-no de outra perspectiva. Logo veremos quem tem razão.

Que mudanças produz este novo paradigma na educação e no trabalho, dois pilares dos Estados modernos?

Na década de 1990, eu falava de forma elogiosa do teletrabalho; considerava-o uma grande oportunidade para muitos ramos, para pessoas com muita mobilidade. Agora o emprego, o trabalho assalariado está minguando em todo o mundo. O valor econômico é produzido pelos próprios usuários na medida em que são milhões de usuários ou telespectadores que assistem a um jogo de futebol ou a um atentado como o 11 de setembro. Isso produz um valor incalculável, e o previram os terroristas, que sabiam que dois aviões chocando-se contra as torres impactariam em suas mentes. Eu não esquecerei essas imagens. Esse é o poder dos senhores do ar.

Antes, o senhor feudal marcava-o com um ferro quente. É muito mais grave que lhe marquem a mente. O consumo da informação e o uso das tecnologias são algo produtivo quando é massivo, produz riqueza e gera valor econômico. Portanto, a produção de riqueza na economia do conhecimento e da informação está evoluindo de maneira diferente do que era a geração de valor nas economias industriais, quando o valor era produzido pelos trabalhadores.

Agora isso é feito pelos usuários, pelos consumidores. A consequência é que é preciso buscar a vida na rede do jeito que é possível, como autônomo e de modo precário. Os empregos assalariados na rede são de programadores de software, controladores da segurança nas redes e administradores, mas o pessoal de base terá um dinheirinho pontual por ter feito tal trabalho, como criação ou modificando uma fotografia. Isto me preocupa muito, porque caminhamos rumo a sociedades sem emprego.

Indo para a educação: aqueles que marcavam as mentes na Idade Média europeia eram os sacerdotes, a família e os vizinhos, até que a revolução francesa, com milhares de mortos, instituiu a escolarização obrigatória e um Estado laico. Eliminou o poder religioso do âmbito educativo, arrancou os filhos das famílias e dos vizinhos determinadas horas do dia e os levou para a educação pública.

Atualmente, os processos de aprendizagem são feitos através da rede, da televisão e dos videogames. Os pais e os professores nem tomam conhecimento disso. Naquilo que lhes interessa, as crianças sabem muito mais do que o professores. Por isso não os respeitam. A inversão do conhecimento no âmbito educativo tem enormes consequências. Na escola se mantém uma educação que interessa muito pouco às crianças.

Além disso, na Espanha, os telefones celulares são proibidos nas salas de aula. É como proibir o futebol ou o falar. Instituir a proibição de coisas que os meninos e as meninas querem fazer no terceiro entorno não é o caminho correto. Aprende-se mais no terceiro entorno do que no primeiro ou no segundo. A imensa maioria das crianças começa a saber o que são os animais e as plantas através da televisão ou da internet. São nativos digitais, seu mundo é esse.

Você acredita que a tecnociência pode superar seu funcionalismo em relação ao sistema capitalista?

A tecnociência é uma revolução. Mas as revoluções podem ir para a esquerda ou para a direita. A revolução tecnocientífica cria uma nova modalidade de capitalismo, o tecnocapitalismo, que é muito diferente do capitalismo industrial. As crises do capitalismo atual são grandes crises tecnológicas, quase apocalípticas. Como o que aconteceu no Japão com a central nuclear de Fukushima e o tsunami. A crise do “corralito” foi estritamente de fuga de capitais pelas redes telemáticas.

Uma tecnosociedade é aquela em que as pessoas, para se relacionarem, devem fazê-lo mediante um sistema tecnológico. Há pessoas que são mais tecnopessoas que outras.

A revolução tecnocientífica começou na física, na matemática, na biologia, com o DNA e no sequenciamento do genoma, e chegou às ciências sociais, às pessoas e transformou o capitalismo. As nanotecnologias são decisivas, mais que as tecnologias da informação. Com os nanoscópios, os cientistas puderam ver a matéria orgânica e inorgânica em escala 10 elevado a menos nove. Este estrato da natureza nunca foi visto.

Estamos acostumados a ver o meio ambiente com a nossa percepção que é de 10 elevado a menos três milímetros. Não chegamos a um mícron. Na escala 10 elevado a menos nove acontecem coisas importantíssimas, como a inter-relação entre os neurônios ou a origem dos vírus, que foi descoberto a partir de 2000. É a tecnonatureza. Todos os países se aplicam às nanotecnologias. Poderemos ser metralhados com nanopartículas e nem tomar conhecimento.

Tudo isto ligado ao imperativo da inovação.

Em sua origem, a ciência existia para compreender e explicar o mundo. O maior exemplo é Galileu. Comprovamos que a Terra não se move e todos sabemos disso muito bem. Com a chegada da tecnociência, importam mais a transformação e a inovação do que a questão da explicação. Hoje, vale mais o conhecimento científico que gera tecnologias e se produz inovação passa-se a ter financiamento. A tecnociência produz inovação, como o grafeno ou o Twitter. Steve Jobs é o inovador por antonomásia. Todos os senhores do ar são grandes inovadores.

Quando se fala de inovação não se está falando de algo bom. Joseph Schumpeter foi o primeiro grande teórico da inovação, e disse que a inovação é destruição criativa. Se você inova, destrói. No século XIX, a inovação era inteiramente rejeitada. Ser inovador social era ser um revolucionário. Proudhon, Owen e Marx eram inovadores sociais. Isto mudou completamente na década de 1980, quando surge a tecnociência nos Estados Unidos, no Vale do Silício, tendo a inovação como principal objetivo. Se você é inovador, passa a ser mais competitivo como empresa e a obter lucros maiores. Schumpeter disse: a inovação é a essência do capitalismo.

Que políticas deveriam ser seguidas para democratizar a produção científica e para melhorar os vínculos com os cidadãos?

Um país é tecnocientífico quando mais de 50% dos investimentos em pesquisa vêm do setor privado. Portanto, pensar que os Estados são os líderes na tecnociência, nem pensar. A tecnociência é promovida basicamente pela Monsanto, por exemplo. Qualquer grande empresa farmacológica é tecnocientífica e altamente inovadora. Os Estados são seus clientes. Quando vem o zika se forram de dinheiro. Todos estarão pesquisando selvagemente para ver quem consegue a vacina. Independentemente disso, é verdade que o setor público ainda produz conhecimento e algumas inovações, mesmo que poucas.

A ideia chave é que os cientistas, concretamente os pesquisadores, se converteram em trabalhadores do conhecimento. Na economia do conhecimento haverá empresários e trabalhadores. Um pesquisador é um trabalhador do conhecimento. O cientista não se transformou em uma mercadoria, mas seu paper ou artigo acadêmico sim. Na minha associação, os papers não são lidos, mas se olha o índice de impacto e o número de citações que se teve. Ninguém lê filosofia. Alguém pode passar dois ou três anos lendo Hegel. Em uma sociedade de consumo rápido e fácil, de manchetes e pílulas e tags, ninguém vai se dar ao trabalho de ler Kant. A filosofia perde então sua relevância, justamente porque não se fez tecnofilosofia. Ao contrário, os tecnocientistas vão maravilhosamente bem. O que conta são as medições e as enquetes.

Qual é a relação entre ciência e política, ou ciência e ideologia?

Amplos setores da sociedade olham com desconfiança, e até com desprezo, múltiplas linhas de pesquisa e múltiplas inovações. Quem faz política científica tenta promover vias de comunicação entre a ciência e a sociedade, recorrendo às revistas de divulgação científica para elevar o nível de conhecimento científico na sociedade, tentando, além disso, fazer com que os cidadãos participem da tomada de decisões na atividade científica. Oxalá isso aconteça no campo da tecnociência, e os cidadãos participem do desenho do Google. Mas isso não acontece. O Google é projetado nos laboratórios de uma empresa privada e aí não há quem entre. É confidencial.

Apoio a decisão da União Europeia de proporcionar acesso livre a todo conhecimento científico que ali for produzido. Não é certo que seja todo o conhecimento, mas é um avanço muito importante. Se alguém conta com um financiamento da Comissão Europeia, está obrigado a tornar público seu conhecimento. Há muitos pesquisadores que não gostam muito disto, porque pensam que todo o mundo vai copiá-los. O conhecimento oriundo de financiamento privado é completamente inacessível. Aí está o miolo da questão. As políticas públicas deveriam regular o processo de produção de conhecimento nas próprias empresas privadas, sejam de sofware, farmacológicas ou telemáticas.

Para onde vai o terceiro entorno?

Eu concebi a utopia de Telépolis simplesmente como um conselho de redes, não como um Estado. Há 20 anos, já existiam muitas redes, com sua própria administração, sua própria autonomia. São tecnologias que geram poder. E onde há poder há conflito. O poder tecnocientífico é uma nova modalidade de poder, e não podemos pensar em arcádias ideais. Mas podemos palear os conflitos. E, sobretudo, evitar que haja súditos e um sistema de dominação de uns sobre os outros. É uma luta contra a escravidão. Por isso citava Jefferson e Lincoln. Me daria por satisfeito se não virássemos escravos dos senhores do ar.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“A revolução tecnocientífica cria o tecnocapitalismo, que é diferente do capitalismo industrial”. Entrevista com Javier Echeverría - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV