Populismo ou elitismo na Igreja: a necessidade de redefinição do catolicismo. Artigo de Massimo Faggioli

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17 Maio 2016

A acusação dirigida contra Francisco de abraçar o populismo ignora totalmente o fato de que, como líder de uma "Igreja-povo-de-Deus", ele é populista por constituição.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, leigo casado, professor da Villanova University e fundador do Institute for Catholicism and Citizenship, da University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado na revista Il Mulino, 30-03-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco, sem dúvida, é um antielitista. A sua biografia, a sua linguagem e a sua mensagem estão solidamente enraizadas em uma "teologia do povo". Mas isso é suficiente para rotulá-lo de populista?

A pergunta é importante por dois motivos. Em primeiro lugar, para compreender Francisco e aqueles que se opõem a ele. Em segundo lugar, para compreender até que ponto a Igreja Católica faz parte da "era do populismo" em que estamos vivendo.

O rótulo de populista é um dos instrumentos mais explorados por aqueles que querem rejeitar a mensagem desse papa latino-americano, que invoca um sistema social e econômico mais justo.

Os adversários de Francisco citam como prova disso os seus clamorosos comentários sobre o candidato populista à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. "Uma pessoa que só pensa em fazer muros, seja onde for, e não em fazer pontes, não é cristão. Isso não está no Evangelho", disse o papa de 79 anos aos jornalistas ao término da sua recente viagem ao México.

"Além disso, aquilo que você me dizia, o que eu aconselharia, votar ou não votar: eu não me intrometo. Apenas digo: se ele diz essas coisas, esse homem não é cristão. É preciso ver se ele disse essas coisas. E, por isso, dou o benefício da dúvida", acrescentou.

O mais renomado dos influentes adversários católicos de Francisco, o colunista conservador Ross Douthat, não deixou escapar essas observações para concluir, em um artigo publicado no New York Times, que Trump e Francisco são ambos populistas.

No entanto, há muito mais diferenças do que analogias entre esse papa jesuíta argentino e o bilionário que se candidatou à presidência dos Estados Unidos da América.

A acusação de populismo dirigida a Francisco, na realidade, é muito mais reveladora da paisagem moral e intelectual do mundo ocidental em que hoje a Igreja opera. Acima de tudo, é preciso se perguntar quem se levanta para jogar a acusação de populismo ao papa. É interessante notar que aqueles católicos que, ideologicamente, se opõem a ele são os representantes de um populismo católico típico das elites.

O mencionado articulista do New York Times (um ex-aluno da Universidade de Harvard, um dos símbolos do elitismo estadunidense), há poucos meses, se entretinha na ideia tipicamente populista de que os teólogos profissionais não são sujeitos dignos (ao menos) de respeito na arena pública quando está em jogo uma "guerra civil na Igreja", na sua opinião desencadeada pelo Papa Francisco.

O falecido juiz da Suprema Corte federal, Antonin Scalia (outro ex-aluno da Universidade de Harvard), encarnava uma espécie de catolicismo que se exalta ao zombar daqueles que receberam a sua educação da elite acadêmica laica e que se mantêm atualizados através da mídia.

O populismo na Igreja é um fenômeno muito complexo, ligado a um sentimento de nostalgia dos tempos em que era claro quem estava no comando e quem, ao contrário, era a massa. Um exemplo disso é a natureza elitista da acusação de populismo desferida contra a reforma da liturgia e contra a adoção das línguas vernáculas.

Não é correto afirmar que a batalha de intelectuais do calibre de Agatha Christie, de Cristina Campo e, mais recentemente, do alemão Martin Mosebach foi uma campanha populista finalizada ao retorno da missa em latim. O que eles invocaram foi a recuperação de algo que era popular, no sentido de que as pessoas o praticavam embora não compreendendo. Eles defendiam um suposto catolicismo popular pré-conciliar. Essa atitude, no entanto, é intrinsecamente elitista.

Todo discurso sobre o populismo teológica deve se remeter a um conceito de "povo". O fato é que hoje tornou-se difícil identificar "o povo" na Igreja, assim como no discurso político.

O século XX foi a idade da mobilização das massas, tanto no Estado-nação, quanto na Igreja. Esse tipo de massas foi substituído por um agrupamento social e eclesial muito mais fragmentado.

Na época, era fácil identificar a elite católica com o clero, os intelectuais e os líderes políticos católicos. Hoje, a liderança do clero não é totalmente evidente, e há líderes leigos católicos cuja voz conta mais do que a de muitos bispos e cardeais.

Por outro lado, "o povo" ainda é uma categoria importante para a Igreja, mas muito mais como ideia teológica (o povo de Deus) do que como realidade homogênea, socialmente tangível.

Dividido ideológica, social e etnicamente, o catolicismo globalizado deve redefinir o seu povo. Aqueles que acusam Francisco de populismo utilizam uma concepção puramente política do populismo. Estão bem longe das suas preocupações as implicações teológicas daquilo que "o povo" significa para a Igreja. Se nos perguntamos, então, se o populismo é realmente um problema na Igreja Católica de hoje, a resposta é sim: mas isso não tem nada a ver com as superficiais analogias entre o Papa Francisco e Donald Trump.

Uma das consequências inesperadas do Concílio Vaticano II foi o início de uma transformação muito profunda das elites no catolicismo contemporâneo. A compreensão desse fenômeno é uma tarefa de enorme importância, levada adiante discretamente pelo atual pontificado. O papa está bem ciente de como as elites mudaram nesses últimos 50 anos.

Basta olhar para o modo como ele se dirige a dois dos protagonistas da arena na qual se trava a batalha pela liderança na Igreja: os bispos e os novos movimentos eclesiais. Aos bispos, por exemplo, Francisco se dirige de um modo que deixa claro aquilo que ele pensa das carências da eclesiologia "episcopalista" do Concílio.

Mas Francisco não está apenas privando os bispos de toda ilusão a respeito da sua liderança eterna na Igreja. Nos seus discursos e nas conversas com os movimentos católicos (Comunhão e Libertação, Caminho Neocatecumenal etc.), o papa enfatiza invariavelmente que a Igreja não precisa de elites que permanecem isoladas do resto da comunidade eclesial.

Isso, talvez, significa que ele é um populista? Sim, mas apenas se o ponto de vista do observador se baseia em considerações políticas, como parece ser o caso da maioria dos adversários do papa.

A acusação dirigida contra Francisco de abraçar o populismo ignora totalmente o fato de que, como líder de uma "Igreja-povo-de-Deus", ele é populista por constituição. Ela demonstra, além disso, que, para a maioria dos comentaristas políticos e religiosos ativos na mídia, o espectro das culturas políticas aceitáveis hoje é o pequeno espaço encerrado entre o tradicionalismo e o conservadorismo à direita e o reformismo moderado à esquerda.

Na nossa época, o radicalismo tornou-se a heresia extrema, tanto na Igreja Católica, quanto no mundo dominado pelo paradigma tecnocrático. As reivindicações de justiça social e econômica são facilmente redutíveis ao populismo (que, para alguns, é uma variante do comunismo), em um mundo em que a política bate em retirada, o autoritarismo está em ascensão, e a Igreja Católica é uma das últimas instituições globais que tem a coragem, a gravitas e os recursos para falar ao poder com voz de verdade.

Nessa situação, é um paradoxo que a Igreja Católica – aliás, desde sempre temerosa de introduzir métodos democráticos na sua estrutura de governo – é uma das mais ardorosas defensoras de uma democracia que não seja apenas processual, mas que também tenha uma natureza social; ou seja, uma democracia que esteja a serviço de todo o povo.

E é exatamente isso que não agrada do Papa Francisco para aqueles que o acusam de ser um populista.

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