Vidas fora do armário: gays italianos não serão mais "eternos namorados"

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13 Mai 2016

"Um café juntos? Quinta-feira eu não posso, vai ser a união civil da minha filha. Ela vai viver com a companheira." Essas frases trocadas entre conhecidos se tornarão léxico comum na Itália.

A reportagem é de Delia Vaccarello, publicada no jornal L'Unità, 12-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia de uma celebração reconhecida pelo Estado será mais forte do que a comunicação da orientação sexual. Assim, uma lei, também em nível de linguagem, irá proteger a homossexualidade de ser um alvo. Hoje, a Itália muda. Casais, solteiros, famílias heterossexuais terão como inquilinos da porta ao lado dois senhores ou duas senhoras com o sobrenome duplo, os senhores ou as senhoras Rossi-Bianchi.

Os ou as Rossi-Bianchi terão o carro no nome de ambos, assim como a casa, sem mais ter medo de que esses bens adquiridos juntos possam ser "de direito" das famílias de origem, no caso de uma desgraça e da morte de um dos dois. Sem ter medo, também, de entrar em um faroeste onde vence quem é mais prepotente, em caso de separação. Pois a lei prescreve também os passos a serem dados em caso de dissolução. Famílias de origem e famílias novas.

Os gays e as lésbicas foram, durante décadas, não os ou as Rossi-Bianchi, mas o tio solteirão, a tia solteirona ou os solteirões da família. Eles ficaram inscritos somente na rede dos parentescos que encontraram no nascimento. E, enquanto os outros, se heterossexuais, se casavam e tinham filhos, construindo uma casa considerada por todos como a casa da nova família, gays e lésbicas permaneciam como os zelosos ou os desregrados, conforme o caso, acompanhadores o velho pai ou da mãe idosa. Aqueles que têm um apartamento pequeno, sem quarto para as crianças, ou sem muitos espaços comuns, já que, para uma pessoa sozinha, não vale a pena. Essa era a fachada.

Na realidade, naquele apartamento, viviam duas pessoas muitas vezes com os cabelos grisalhos. É claro: as exceções foram os precursores, e, nos últimos anos, as coisas mudaram, mas ir morar juntos sem regras era um risco corrido e, muitas vezes, pago com um preço caro.

Gays e lésbicas foram até hoje homens e mulheres sem um futuro relacional reconhecido. Eternos "namorados". A palavra "namorado", muito utilizada, é a que mais se aproxima do seu status: à espera de uma lei, a palavra expressava seriedade, promessa. Os eternos namorados viviam na sombra dos vínculos legítimos e celebrados com as bodas, participaram de batizados e primeiras comunhões de filhos alheios.

A partir de hoje, não será mais assim. A lei sobre as uniões civis reconhece às pessoas homossexuais a possibilidade de construir uma família própria e de "sair" da família de origem. Arrasta os eternos namorados para o mundo dos Rossi-Bianchi. Reconhece às pessoas homossexuais um tempo de vida a ser gasto sendo os seus titulares com plenos direitos. É uma transformação epocal. Uma lei regula e não obriga; portanto, não significa que todos vão se valer dela. Hoje, não "unir-se" é uma escolha entre opções; até ontem, era um caminho obrigatório.

Vamos ver os casais de gays e lésbicas celebrando no cartório, festejando em um cruzeiro, acompanhando no hospital, ou no nascimento do próprio filho.

E ainda: na escola, a filha de um casal de mulheres (ou de homens) poderá escrever no quadro o sobrenome Rossi-Bianchi. Porque, como a lei permite, a mãe biológica (ou o pai biológico), atualmente os únicos a serem reconhecidos na Itália, terá assumido o sobrenome duplo. Sem a possibilidade da adoção do filho do parceiro – mas é uma questão de tempo –, porém, resta esta grande possibilidade: os filhos terão o sobrenome do pai biológico, que, se em união civil, pode assumir o sobrenome duplo.

Um passo importante. Não só. É claro que as uniões civis vão colocar gays e lésbicas diante da gestão daquilo que, para eles, é novo e que, para os outros, é "velho", isto é, vão ter que lidar com sogros e cunhados, com rituais familiares e obrigações estendidas.

O seu comportamento não será mais de forasteiros, mas será avaliado como se faz, com tato ou intromissão, nas famílias tradicionais. Haverá também, é de se esperar, uma recaída "de pensamento".

Nos últimos tempos, muitos gays e lésbicas foram tomados por um grande desejo de imitação, impulsionados pela vontade de serem a fotocópia dos heterossexuais. A corrida para desejar a mesma instituição, em nome do sacrossanto direito à igualdade, porém, sacrificou uma reflexão aprofundada, que esperaríamos de um movimento "de vanguarda", sobre a qualidade das relações, sobre o que significa estar juntos.

Vimos a palavra "amor" usada também no modo defensivo: nós, sim, nos amamos e temos direito a uma família. Os homossexuais não se amam nem mais nem menos do que os heterossexuais. Todos têm o direito à família, e a qualidade das relações é um bem, muitas vezes incerto, a ser buscado com todas as energias.

Pois bem, a lei também põe fim aos vitimismos e às lamentações que florescem por toda a parte. É tempo de festa, portanto: os eternos namorados de ontem são, finalmente, os Rossi-Bianchi de hoje. Cidadãos e conviventes.

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