O jesuíta 2.0 que expõe bancos e finanças. Entrevista com Gaël Giraud

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11 Maio 2016

Gaël Giraud, nascido em 1970, era considerado o menino prodígio do sistema bancário e financeiro francês. Especializado em economia matemática, poliglota, professor da Sorbonne, tinha feito a experiência de como funciona a megamáquina das finanças globais.

A reportagem é de Francesco Comina, publicada no jornal Trentino, 09-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas não demorou muito tempo para perceber como era louco um sistema feito de números e de cifras gasosas, capaz de criar verdadeiras pirâmides de papelão, movendo ilusões devastadoras sobre a vida e o destino de milhões de pessoas. Criam-se promessas, tecem-se tramas de lucro, cria-se um mecanismo de créditos insolúveis e joga-se tudo isso em cima de indivíduos (especialmente pobres e ingênuos), toda uma rede de dívidas que depois explodem, fazendo a pirâmide cair e provocando um terremoto financeiro e humano de resultados planetários.

Desmascarado o engano, o gênio da economia matemática decidiu fazer uma verdadeira conversão. Entrou na família dos jesuítas e pensou em colocar os seus conhecimentos a serviço de um a regulação da economia. E assim Giraud – referente da Agência para o Desenvolvimento francesa, diretor de pesquisa do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) de Paris e membro do Laboratório de Excelência de Regularização Financeira – escreveu um livro polêmico contra processos de pura especulação financeira e programas políticos de desregulamentação, que se tornou um best-seller na França (vencedor do Prix Lycéen). Na Itália, ele foi traduzido pela editora EMI com o título "A transição ecológica. As finanças a serviço da nova fronteira da economia".

Nota da IHU On-Line: Gaël Giraud, estará na Unisinos, nos dias 12 a 16 de setembro. Ela participará do IV Colóquio Internacional IHU Políticas Públicas, Financeirização e Crise Sistêmica, nos dias 13 e 14 de setembro. No dia 12, proferirá a conferência "O pensamento social da Igreja à luz do pontificado de Francisco". E nos dias 15 e 16 ministrará um curso na Escola de Gestão e Negócios da Unisinos.

Eis a entrevista.

Gaël Giraud, você teve a experiência direta do sistema financeiro. A partir dessa experiência, saiu um livro que, já a partir do título, revela a sua intenção crítica e polêmica: "A ilusão financeira e a transição ecológica". O que não funciona no sistema financeiro global?

Em poucas palavras, o problema é o "leverage cycle" (ciclo financeiro). Os preços financeiros não estão relacionados com nenhum valor fundamental (ao contrário daquilo que os teólogos de Salamanca acreditavam no século VI), mas variam de acordo com o mercado. Demos o exemplo de créditos subprime dos quais surgiu a crise financeiro-imobiliária que provocou um efeito dominó em todo o mundo. A bolha financeira se desenvolveu a partir da concessão de créditos para famílias pobres dos EUA como uma enorme pirâmide que consistia em remunerar os investimentos efetuados pelos clientes com fundos inseridos por clientes novos.

A cadeia se interrompe, e a pirâmide entra em colapso quando as somas adquiridas pelos novos membros não são mais suficientes para cobrir as remunerações dos clientes anteriores. Os atores financeiros "influenciam", ou seja, emprestam dinheiro barato, a fim de comprar bens com a esperança de que serão, depois, vendidos a um preço melhor (tais manobras não são inconscientes, mas estudadas e programadas). A lógica da influência é a que se insinua entre o montante de capital exigido como crédito e a quantidade que alguém pode emprestar. Em 2007, uma unidade de capital permitiu que os jogadores norte-americanos emprestassem até 32 unidades (uma unidade equivale a "milhões de euros"). Esse movimento especulativo contribuiu para o crescimento dos preços dos bens até o ponto que um forte número desses investidores não era mais capaz de pagar as suas dívidas.

Por quê?

Porque a economia real não pode seguir a eufórica exuberância dos preços financeiros dos bens. Em 2015, o PIB mundial reduziu-se em -4,9%. O rendimento de um número de investidores permanece baixo demais para lhes permitir carregar o peso das suas dívidas. Assim que um número suficientemente amplo de investidores tiver que vender os seus bens para obter dinheiro que servirão para financiar as suas dívidas, os preços dos bens começarão a desacelerar e até a cair. O crash, depois, seguirá quase imediatamente, enquanto muitos credores ficarão ansiosos em relação à insolvência dos créditos contraídos. Aumentarão as exigências (em termos de taxa colateral e de juros) para poder manter tal sistema de empréstimo (em 2008, ele caiu de 32 para 1,5). Isso torna a vida mais dura para os credores, já que eles não podem mais emprestar com a intenção de fazer lucro. No fim, muitos deles vão à falência.

Você é o economista-chefe da Agência Francesa para o Desenvolvimento. Você não acha que a palavra "desenvolvimento" é ambígua nos nossos dias?

Desenvolvimento não deve ser identificado com crescimento (mesmo que tenha sido assim durante as décadas do Banco Mundial e das instituições análogas). O "decrescimento" já está na agenda de muitas nações e também no horizonte do Papa Francisco, que escreveu na sua encíclica Laudato si' que um "certo decrescimento" no Norte é necessário para permitir um desenvolvimento aos Estados do Sul. Por outro lado, as negociações durante a COP 21 com a Índia e a China confirmam como é difícil pedir que os países renunciem ao crescimento do PIB. Sem falar dos países mais pobres que nunca conseguirão escapar da dura pobreza.

Por isso, devemos construir novos indicadores de prosperidade, que nos ajudarão a abandonar a maximização do PIB como objetivo político universal. Primeiro, porque o PIB é realmente uma péssima medida (é fácil de manipular, graças aos vários truques estatísticos; ele pode crescer apenas porque você poluiu um rio e é cego diante da desigualdade). Segundo, porque, enquanto não passarmos para a economia de baixo consumo, o PIB vai continuar sendo o melhor suporte para as emissões de CO2.

Com uma colega economista francesa, Cecile Renouard, eu construí um desses indicadores alternativos que permitem capturar a qualidade da rede social. A ideia básica que torna uma vida repleta de significado é a densidade e a profundidade das relações sociais que mantemos com os outros. Em um estudo realizado no delta do Rio Níger, mostrou-se que, embora os "projetos" financiados por companhias petrolíferas tenham aumentado o bem-estar material comum das pessoas, ao mesmo tempo, contribuíram para a piora dos índices de capacidade relacional e causaram grandes desigualdades e linhas de fratura social. Ora, a escassez de crescimento dos recursos naturais (água doce, energia, minerais...) causará desastres terríveis no Sul se não agirmos imediatamente.

Há uma ligação entre processos migratórios e finanças especulativas?

A especulação financeira induz movimentos irregulares de preços para as mercadorias (petróleo, mas também em mercadorias do campo da agricultura). Vimos isso em 2008, quando milhões de pessoas não podiam comer só porque dezenas de mercados estavam brincando com derivados financeiros do arroz e da farinha. O afluxo de refugiados sírios se deve, em parte, a uma seca que atingiu a Síria entre 2007 e 2010, e a uma gestão cínica do acesso à água por parte da ditadura Assad. Isso não parece diretamente conectado com a especulação financeira, mas é óbvio que, mais a longo prazo, os preços internacionais dos recursos naturais serão controlados por uns poucos bancos e fundos de seguros, e a sobrevivência de milhões de pessoas dependerá da sua estratégia de especulação. E, se elas passarem fome, as pessoas vão se mover através dos países onde podem encontrar água e algo para comer...

Você declarou que os migrantes de hoje fazem rir se pensarmos no que vai acontecer quando se desencadearem as migrações por causas climáticas...

Infelizmente, é bastante claro que o século XXI será o século da migração. Cerca de 70% da população humana vive nos litorais, parte da qual estará debaixo d'água antes do fim do século. O derretimento das geleiras (especialmente no Tibete e nos Andes) implica que, no arco de uma geração, rios imensos (como o Yang-Tsé-kiang, o Indo e o Ganges) não transportarão mais água durante a estação seca. Todos esses fenômenos provocarão guerras, rebeliões e migrações. O único caminho para a Europa é pôr em prática as mudanças ecológicas para superar a sociedade dos combustíveis fósseis e ensinar ao resto do mundo como fazer.

Como você vê, no futuro próximo, uma nova crise financeira?

É quase certo que vamos experimentar novas crises financeiras. Desde 2010, há uma nova cisão entre o nível dos preços dos bens financeiros e a economia real. Se os rendimentos se descolarem da economia real, não poderão seguir a euforia financeira, e a bolha vai explodir de novo. A razão pela qual ainda não houve nenhuma desordem financeira se deve à política monetária não convencional do Banco Central. Eles emprestam a uma taxa negativa. Estão tentando postergar o máximo possível o ponto de não retorno, o momento em que a bolha vai estourar. Mas, certamente, ganhar dinheiro tão paradoxalmente por baixo não resolve o problema. Ao contrário.

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