A doutrina social para além da Igreja. Artigo de Alessandro Santagata

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10 Maio 2016

Nos tempos da guerra mundial não declarada, o Papa Francisco escolhe o registro da denúncia, colocando no centro novamente a doutrina social, para dar uma sacudida em uma Europa "envelhecida" e curvada sobre si mesma.

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 07-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O discurso que o Papa Francisco proferiu na última sexta-feira, 6 de maio, diante das principais autoridades europeias não precisa de exegetas. Um discurso alto, claro e fortemente político, nada a ver com a retórica cerimonial.

Palavras que provêm de uma autoridade religiosa, mas se dirigem às instituições e às sociedades no seu conjunto. Parecem realmente distantes os anos de campanha identitária de João Paulo II e de Bento XVI para que, no projeto de constituição europeia (abandonada depois dos referendos de 2005), entrasse a referência às raízes cristãs do continente.

O que mudou (para pior) não foram apenas as condições da União, mas também a própria Igreja Católica, abalada por uma crise profunda, da qual Bergoglio está tentando tirá-la.

O discurso para a entrega do Prêmio Carlos Magno se insere, portanto, em uma história recente que viu subir ao sólio pontifício um papa que fala uma língua completamente diferente da do catolicismo mainstream do início do milênio.

A campanha para a valorização do cristianismo como elemento "pesado" no patrimônio cultural europeu não desapareceu da dialética pontifícia, como demonstra o discurso ao Parlamento de Estrasburgo de dezembro de 2014. No entanto, a ordem das prioridades parece ter se modificado significativamente, a ponto de rebaixar a contribuição da Igreja (de testemunha e não confessional ou de oposição ao relativismo secularizante) a poucas linhas de preâmbulo ao "sonho" de um novo "humanismo europeu".

Nos tempos da guerra mundial não declarada, o Papa Francisco escolhe o registro da denúncia, colocando no centro novamente a doutrina social, para dar uma sacudida em uma Europa "envelhecida" e curvada sobre si mesma. Em continuidade com o discurso aos movimentos populares na Bolívia (citado nada menos do que duas vezes), voltam os apelos à justiça, à paz e à defesa do trabalho, cuja ausência é identificada como uma das causas principais do antieuropeísmo desenfreado.

Como já aconteceu em outras ocasiões, não se trata de um apelo genérico à solidariedade, mas de uma denúncia precisa das políticas tecnocráticas sobre o trabalho de uma União que perdeu completamente a rota indicada pelos pais constituintes.

Depois da visita a Lesbos e no auge da reviravolta austríaca antimigrantes, o ponto de ruptura, porém, é indicado no fechamento das fronteiras, e aqui a reflexão sobre a identidade reemerge na sua relevância e descontinuidade em relação ao passado. O papa se refere ao panteão democrático-cristão europeísta (De Gasperi, Schuman, Adenauer), mas o objetivo é mobilizar uma memória compartilhada, a da Shoá e da Europa descrita por Erich Przywara como encruzilhada de culturas diferentes.

"As raízes dos nossos povos, as raízes da Europa – afirma Bergoglio – foram se consolidando no curso da sua história, aprendendo a integrar em síntese sempre novas culturas, sem aparente ligação entre elas. A identidade europeia é, e sempre foi, uma identidade dinâmica e multicultural. A atividade política saber que tem entre as mãos esse trabalho fundamental e não adiável."

Em outras palavras, as escolhas políticas de Bruxelas e das principais chancelarias são lidas pelo papa como o teste decisivo para verificar a existência e as possibilidades de sobrevivência de uma União que, como ele dissera em Estrasburgo, saiba ir além dos interesses dos Estados individuais e de um "poder financeiro a serviço de impérios desconhecidos".

O discurso sobre as raízes se resolve em uma reflexão sobre o multiculturalismo, a solidariedade e a edificação de uma comunidade de pessoas. E os direitos humanos, que a Igreja custou longamente a reconhecer como tais.

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