O dom do discernimento. Artigo de Giacomo Costa

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09 Maio 2016

O discernimento pressupõe esclarecimento em relação ao fim, que, para o fiel, é cumprir a vontade de Deus, e incerteza em relação ao meio. É o instrumento para dar resposta à pergunta, às vezes angustiante, às vezes mal formulada, sobre o que fazer para viver a boa notícia do Evangelho.

A reflexão é do jesuíta Giacomo Costa, presidente da Fundação Cultural San Fedele e diretor da revista Aggiornamenti Sociali. O editorial foi publicado na edição de maio de 2016 da mesma revista. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O amor é, também e acima de tudo, um processo de crescimento contínuo, não um estágio que se alcança de uma vez por todas, certificado pelo fato de ter passado por um exame e ter se inscrito no registro das famílias.

Estamos diante de uma dinâmica que põe em jogo a liberdade das pessoas. Ela não pode permanecer confiada ao impulso de uma espontaneidade ingênua assim como precária, mas também não pode ser dirigida sobre um trilho predeterminado: em ambos os casos, se contradiria o sentido profundo da liberdade.

De acordo com a Amoris laetitia, o instrumento para prosseguir nesse caminho sem perder a rota é o discernimento, que "é dinâmico e deve permanecer sempre aberto para novas etapas de crescimento e novas decisões que permitam realizar o ideal de forma mais completa" (n. 303).

Onde quer que a liberdade esteja em jogo, abre-se o espaço do discernimento, também na relação com Deus: "É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano" (n. 304).

Mas, justamente, de que se trata quando se fala de discernimento? É um termo-chave para a compreensão da exortação e, mais em geral, do modo de proceder que o Papa Francisco adota e propõe à Igreja. A se julgar pelas reações à queima-roupa, também é um dos termos mais mal-entendidos, provavelmente por ser menos conhecido.

Portanto, vale a pena tentar focar o significado desse termo-chave. Francisco não o usa na acepção comum de "bom senso", "capacidade de julgamento sensato", afim à virtude clássica da prudência, mas no sentido técnico mais específico, próprio, por exemplo, da espiritualidade: o discernimento é a capacidade de exercer a própria liberdade ao tomar decisões, em particular aquelas que dizem respeito à identificação dos meios para alcançar o fim que nos propomos.

O discernimento pressupõe, portanto, esclarecimento em relação ao fim, que, para o fiel, é cumprir a vontade de Deus, e incerteza em relação ao meio. É o instrumento para dar resposta à pergunta, às vezes angustiante, às vezes mal formulada, sobre o que fazer para viver a boa notícia do Evangelho.

A Amoris laetitia se dirige àqueles que se colocam neste horizonte: para eles, ela será, ao mesmo tempo, desafiadora e libertadora. Para o fiel, a prática do discernimento se alimenta da familiaridade com o Evangelho e o modo de fazer o Senhor, através da oração, com uma orientação prática: requer inevitavelmente a passagem para a ação, "saindo" dos próprios pensamentos e assumindo o risco de dar passos. A prova da realidade ajudará a entender a bondade da decisão tomada e, eventualmente, a ajustá-lo.

Na sua concretude, o discernimento também está enraizado em outra experiência, sem a qual ele é incompreensível: sentir-se levado ou atraído em direções diferentes, experimentar a incerteza entre alternativas que provocam uma variedade de "desejos, sentimentos, emoções" (n. 143). Senti-los "não é, em si mesmo, algo moralmente bom nem mau" (n. 145): o desafio do discernimento é se mover através dessas paixões, utilizando-as como instrumento para identificar não aquilo que é suficientemente bom (a aurea mediocritas), mas aquilo que é melhor.

Os números 143-146 da Amoris laetitia são extremamente sugestivos para a leitura do mundo das emoções dentro da vida familiar. Esta é rica em situações para se aplicar o discernimento, da escolha do estilo de vida e das modalidades de educação dos filhos até as decisões sobre o modo de viver a sexualidade e o exercício da paternidade responsável, que "não é 'procriação ilimitada ou falta de consciência acerca daquilo que é necessário para o crescimento dos filhos, mas é, antes, a faculdade que os cônjuges têm de usar a sua liberdade inviolável de modo sábio e responsável, tendo em consideração tanto as realidades sociais e demográficas, como a sua própria situação e os seus legítimos desejos'" (n. 167, com referência ao magistério de João Paulo II).

Descobrimos, assim, outro pressuposto do discernimento: a liberdade não é exercida em um abstrato hiperurânio, mas em circunstâncias concretas, que colocam restrições e condicionamentos dos quais é preciso estar consciente. Por isso, "aquilo que faz parte de um discernimento prático de uma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma" (n. 304).

As normas mantêm inalterado o seu valor e representam o horizonte dentro do qual o discernimento se cumpre, complementando-as e especificando-as na situação concreta, porque, "na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares" (ibid.). Corretamente entendidos, discernimento e norma sempre se referem um ao outro.

O discernimento, portanto, não é um sistema para encontrar justificativas, pretextos ou escamotagens para despotencializar as exigências da norma que indica o bem. A palavra, certamente, pode ser utilizada para cobrir essa tentativa, mas isso representa uma perversão dela. Ao contrário, o discernimento se revela até mais exigente do que a norma, porque requer que se passa da lógica legalista do mínimo indispensável para a do máximo possível, na consciência do próprio limite e da possibilidade de deslocá-lo todos os dias um pouco mais para a frente, não se contentando com uma medida satisfatória ou com o calibramento do próprio objetivo com as potencialidades da média: o discernimento visa a valorizar ao máximo as possibilidades de cada um.

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