“Nenhum rebanho pode renunciar a um irmão; o pastor sempre irá buscar a ovelha perdida”

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Por: André | 05 Maio 2016

Quem são as ovelhas perdidas e quem são os bons pastores? O Papa Francisco evocou na manhã desta quarta-feira, durante a Audiência Geral na Praça São Pedro, a parábola do “Bom Pastor”, aquele que “abandona” as 99 ovelhas e vai ao encontro da ovelha perdida. Apesar das críticas dos “doutores da lei”, que não entendiam, Bergoglio sublinha, forte, que “nenhum rebanho pode renunciar a um irmão”, pois “o pastor sempre irá buscar a ovelha perdida”.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 04-05-2016. A tradução é de André Langer.

Manhã ensolarada na Praça São Pedro. Dezenas de milhares de fiéis acorrem para ouvir o profeta da misericórdia. Francisco abençoa e sorri, ordena o motorista do papa-móvel e o sempiterno chefe de segurança, Domenico Gianni para que pare a cada instante para saudar, abraçar e beijar as crianças. Recebe um coração de papel de uma delas e recolhe cartas de seus compatriotas argentinos. Nota-se que está feliz com o contato com as pessoas, especialmente dos mais pequenos. Também diminui a velocidade ao passar ao lado das pessoas com deficiências.

À medida que vai se aproximando do altar da Praça São Pedro, o carro vai parando, como se Francisco preferisse ficar no meio do rebanho. Uma vez sentado, o rosto mudado, sério e concentrado, antes de pronunciar uma vibrante catequese que nesta ocasião girou em torno do Evangelho da ovelha perdida – e reencontrada – e as outras noventa e nove.

“Todos conhecemos a imagem do bom pastor, que carrega sobre seus ombros a ovelha perdida”, começou o Papa, que insistiu em que esta imagem “representa a solicitude de Jesus com os pecadores e a misericórdia de Deus que não se resigna a perder ninguém”. “Jesus nunca nos deixa sozinhos”, proclamou, acrescentando que “sua proximidade com os pobres não deve escandalizar, pelo contrário: deve provocar em todos uma séria reflexão sobre como vivemos a nossa fé”.

Na parábola, os pecadores se aproximam de Jesus “para ouvi-lo”; do outro lado, “os doutores da lei, que suspeitam e se incomodam com este comportamento, que se aborrecem porque Jesus se aproximava dos pecadores. Eram orgulhosos, soberbos e se acreditavam justos”, denuncia o Papa.

Na parábola, podem ser observados três personagens: o pastor, a ovelha perdida e o resto do rebanho. “O pastor é o único protagonista e tudo depende dele. O que deve fazer se tem 100 ovelhas e perde uma. Não deixa as 99 no deserto e vai em busca daquela que se perdeu até encontrá-la? É um paradoxo, que induz a duvidar do pastor”, reconheceu Bergoglio.

“É bom abandonar as 99 por uma só? Deixá-las no deserto? Segundo a tradição bíblica – explicou o Papa – o deserto é lugar de morte... Por que deixa as 99 indefesas? O pastor, recuperada a ovelha, coloca-a sobre os seus ombros, chama os seus amigos e vizinhos para que se alegrem com ele”. “O que Jesus nos diz é que nenhuma ovelha pode andar perdida”.

“O Senhor não pode resignar-se a que uma só pessoa possa se perder. É por isso que Jesus vai em busca dos filhos perdidos, para buscar o retorno de todos”, assinalou, porque “é um desejo irrefreável de Deus. Alguns poderão pensar: tenho 99, perdi apenas uma, mas a perda não é tão grande. Não. É preciso encontrá-la, porque uma é muito importante para ele. A mais abandonada, a mais perdida, ele vai encontrá-la”.

“A misericórdia de Deus é absolutamente fiel. Ninguém nunca poderá destruir sua vontade de salvação”, proclamou o Papa, que insistiu em que se queremos encontrar a Deus, “devemos procurá-lo ali onde está a ovelha desgarrada”.

“Deus não conhece a nossa atual cultura do descarte, isso não lhe entra na cabeça. Deus não descarta a ninguém. Deus ama a todos, busca a todos, um por um. Ele não conhece a palavra ‘descartar’, porque é todo amor e misericórdia”, apontou Francisco, que recordou que Jesus “sempre está em caminho: não podemos nos iludir de aprisioná-lo em nossos esquemas e em nossas estratégias. O pastor se encontrará aí onde está a ovelha perdida. O Senhor, pois, deve ser procurado onde Ele quer nos encontrar, não onde nós pretendemos encontrá-lo”.

Um caminho que segue “a via da misericórdia do pastor”. Enquanto busca a ovelha perdida, “provoca as outras 99 para que trabalhem para estarem todas juntas”. E, assim, “todo o rebanho seguirá o pastor até sua casa para celebrar com amigos e vizinhos”.

Muitas vezes, “na comunidade cristã sempre há quem critica esta opção”, que pensa que “há perdas inevitáveis, doenças sem remédio”. “Este é o perigo que corremos: o de estar em um rebanho que não tem claro a dor dos outros”. Por isso, proclamou, “os cristãos não devem ser um rebanho fechado. Nunca as portas fechadas. Corremos o risco de nos fechar em um redil das ovelhas, com os ‘justos’, no qual não haverá cheiro de ovelhas, mas o odor do mofo”. Diante disso, o Papa advertiu, na saudação em português, contra “a tentação de prescindir dos outros”.

“Isto acontece quando falta o desejo missionário. Na visão de Jesus, não há ninguém definitivamente perdido. Ninguém está definitivamente perdido. Até o último momento, Deus se aproxima. Pensem no bom ladrão”. Por isso, clamou por comunidades “abertas, estimulantes, criativas”, que empreendam “um caminho de fraternidade” e que “nunca pode renunciar a um irmão”.

Íntegra da catequese do Papa Francisco:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Todos conhecem a imagem do Bom Pastor que carrega sobre os ombros a ovelha perdida. Desde sempre este ícone representa a atenção de Jesus para com os pecadores e a misericórdia de Deus que não se resigna a perder alguém. A parábola é narrada por Jesus para fazer entender que sua proximidade com os pecadores não deve escandalizar, mas, ao contrário, provocar em todos uma séria reflexão sobre como vivemos a nossa fé.

A narração apresenta, de um lado, os pecadores que se aproximam de Jesus para ouvi-lo e, do outro lado, os doutores da lei, os escribas suspeitosos que se afastam d’Ele por seu comportamento. Estes se afastam, porque Jesus se aproxima dos pecadores. Estes eram orgulhosos, soberbos, acreditavam-se justos.

A nossa parábola se desenvolve em relação a três personagens: o pastor, a ovelha perdida e o resto do rebanho. Mas quem age é apenas o pastor, não as ovelhas. O pastor é o único verdadeiro protagonista e tudo depende dele. Uma pergunta introduz a parábola: “Se alguém tem cem ovelhas e perde uma, não deixa acaso as 99 no campo e vai buscar a que se perdeu, até encontrá-la?” (v. 4) Trata-se de um paradoxo que induz a duvidar da ação do pastor: é sábio abandonar as noventa e nove por uma só ovelha? E, além disso, não na segurança de um redil, mas no deserto?

Segundo a tradição bíblica, o deserto é lugar de morte, onde é difícil encontrar alimento e água, sem proteção e onde se está à mercê dos animais e dos ladrões. O que podem fazer 99 ovelhas indefesas? O paradoxo continua dizendo que o pastor, ao encontrar a ovelha, ‘a carrega sobre seus ombros, cheio de alegria, e ao chegar à sua casa chama seus amigos e vizinhos, e lhes diz: Alegrem-se comigo’ (v. 6). Então, parece que o pastor não retorna ao deserto para procurar todo o rebanho! Voltado para aquela única ovelha, parece esquecer as outras noventa e nove.

Mas, na verdade, não é assim. O ensinamento que Jesus nos quer transmitir é que nenhuma ovelha pode se desgarrar. O Senhor não pode se resignar ao fato de que mesmo uma só pessoa possa se perder. A ação de Deus é aquela de quem vai em busca dos filhos perdidos para depois fazer festa e alegrar-se com todos porque os encontrou. Trata-se de um desejo irrefreável: nem mesmo as 99 ovelhas podem deter o pastor e fechá-lo no redil. Ele poderia raciocinar: ‘Mas, faço um balanço: tenho noventa e nove, perdi uma, mas não é tão grande a perda, não? Ele vai em busca daquela, porque cada uma é muito importante para Ele e aquela é a mais necessitada, a mais abandonada, a mais descartada; e Ele vai procurá-la.

Estejamos todos conscientes: a misericórdia para com os pecadores é o estilo com que Deus age, e à tal misericórdia Ele é absolutamente fiel: nada nem ninguém poderá desviá-Lo da sua vontade de salvação. Deus não conhece a nossa atual ‘cultura do descarte’, isso não pertence a Ele. Deus não descarta nenhuma pessoa, ama todos, vai em busca de todos, todos, um por um. Ele não conhece esta palavra ‘descartar’ as pessoas porque é Todo amor e Todo misericórdia.

O rebanho do Senhor está sempre em caminho: não possui o Senhor, não podemos nos iludir de aprisioná-lo em nossos esquemas e em nossas estratégias. O pastor se encontrará aí onde está a ovelha perdida. O Senhor, pois, deve ser procurado onde Ele quer nos encontrar, não onde nós pretendemos encontrá-lo!

De nenhum outro modo se pode formar o rebanho se não seguindo o caminho traçado pela misericórdia do pastor. Enquanto procura a ovelha perdida, Ele provoca as noventa e nove para que participem da reunificação do rebanho. Então, não só a ovelha levada em seus ombros, mas todo o rebanho seguirá o pastor até sua casa para fazer festa com os ‘amigos e vizinhos’.

Deveríamos refletir muitas vezes sobre esta parábola, porque na comunidade há sempre alguém que falta e o lugar foi ficando vazio. Às vezes, isso não é encorajador e leva a pensar que seja uma perda inevitável, uma doença sem remédio. É então que corremos o risco de nos fechar no redil, onde não haverá cheiro de ovelhas, mas de mofo. Nós, cristãos, não devemos estar fechados, senão teremos cheiro de mofo. Nunca! Devemos sair e este fechar-se em si mesmos, nas pequenas comunidades, na paróquia, aí... mas nós “os justos”... Isto acontece quando falta o impulso missionário que nos leva a encontrar os outros.

Na visão de Jesus, não existem ovelhas definitivamente perdidas – isto devemos entendê-lo bem; para Deus ninguém é definitivamente perdido. Nunca. Até o último momento, Deus nos procura. Pensem no bom ladrão; somente na visão de Jesus ninguém está definitivamente perdido, e são ovelhas que devem ser reencontradas. A perspectiva, portanto, é dinâmica, aberta, estimulante e criativa. Impulsiona-nos a sair em busca para iniciar um caminho de fraternidade.

Nenhuma distância pode manter afastado do pastor; e nenhum rebanho pode renunciar ao irmão. Encontrar quem se perdeu é a alegria do pastor e de Deus, mas é também a alegria de todo o rebanho. Todos nós somos ovelhas reencontradas e recolhidas pela misericórdia do Senhor, chamadas a reunir junto a Ele todo o rebanho! Obrigado.

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