Giorgio Agamben: “O cidadão é um terrorista em potencial para o Estado”

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26 Abril 2016

Se há um filósofo característico do presente, esse é Giorgio Agamben. Ele nasceu em Roma, em 1942, mas sua obra globalizada não pode ser dissociada de suas atividades na França, Inglaterra e Alemanha, entre outros países nos quais trabalhou. É fácil detectar nela a influência de Martin Heidegger, Walter Benjamin e Michel Foucault, mas também de Kafka e do situacionista Guy Debord. Agamben chegou à universidade para estudar Direito, porém se inclinou pela Filosofia depois de assistir, entre 1966 e 1968, a seminários com Martin Heidegger. Foi no mesmo período, recorda, que descobriu Benjamin. “Dois autores muito diferentes. Um foi o contraveneno do outro”.

A reportagem é de Francesc Arroyo, publicada por El País, 22-04-2016. A tradução é de Eduardo Herrmann.

Sua obra, que nunca perde de vista a relação do homem com a linguagem, não se esgota na filosofia entendida como disciplina, mas se estende por todos os âmbitos do saber: da literatura às artes plásticas, da filosofia à antropologia, passando pela teologia e, claro, pela política. Citar seus amigos é outra forma de pontuar seus fortes. Entre as pessoas com quem manteve estreita relação há filósofos: Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Pierre Klossowski; mas também cineastas, como Pier Paolo Pasolini, ou escritores: Elsa Morante, Ingeborg Bachmann, Italo Calvino. Ensina Filosofia em Veneza e dirigiu a edição italiana das obras de Benjamin.

“A filosofia moderna fracassou em sua tarefa política, porque traiu a sua tarefa poética”

Fala um espanhol fluido, herança da sua amizade com o poeta José Bergamín, a quem, depois do seu regresso à Espanha, visitava quase a cada ano. Em seguida, continuou regressando ao país, segundo confessava em uma longa conversa mantida na ocasião do curso intitulado Arqueologia da política, que ministrou na Cátedra Ferrater Mora, na Universidade de Girona. Suas obras estão sendo traduzidas de forma sistemática ao castelhano. Este mesmo ano, apareceram dois volumes: El fuego y el relato (Sexto Piso) e Idea de la prosa (reeditado por Adriana Hidalgo). No primeiro, há um momento em que ele retoma Deleuze, porque sempre cabe, confessa, seguir desenvolvendo o que não está esgotado “na obra dos autores que amo”, isto é, “examinar aquilo que não foi dito”. Percebe em não poucos autores essa concepção de obra nunca acabada. Por exemplo, em Giacometti, para quem “um quadro nunca se termina, simplesmente se abandona”. O interesse de Agamben pelas artes plásticas pode ser apreciado em um de seus últimos títulos, La muchacha indecible. Mito y misterio de Kore (Sexto Piso), livro em que seu texto forma parte indissociável das ilustrações de Monica Ferrando. Também em seus textos mais filosóficos se entrelaçam outros discursos. Em uma de suas obras mais lidas, Homo sacer (Pre-Textos), parte de Hannah Arendt e Foucault, mas não esquece o que fornece Kafka para definir a situação do homem contemporâneo. “A literatura e a poesia sempre foram muito importantes para mim. Não creio que elas possam ser separadas da filosofia. Não são campos isolados. Eu diria que são duas intensidades que atravessam o campo da linguagem humana”, opina.

Na verdade, seriam atividades destinadas a se cruzarem. “Aquilo que a poesia assume com o poder de dizer, a política e a filosofia devem assumir com o poder de agir”, sustenta em El fuego y el relato. Já em Hölderlin, a poesia “marca o ponto em que o poeta, que vive como uma catástrofe a ausência do povo — e de Deus —, busca refúgio na filosofia, deve fazer-se filósofo”. Porém, “a filosofia moderna tem fracassado na sua tarefa política, porque trai sua tarefa poética, não tem querido ou sabido arriscar-se na poesia”. Heidegger tentou fazer isso, mesmo que “não conseguiu se transformar em um poeta”. Um poeta que viaja em um cavalo que é a voz, “o elemento sonoro e vocal da linguagem”, o qual apenas o “logos volta inteligível e claro”.

“A filosofia é chave”, explica, “não se pode separar o amor pela linguagem (filologia) do amor pela sabedoria (a filosofia). Um filósofo é sempre um filólogo. E se esse último intensifica o seu campo de trabalho, tem que se tornar um filósofo, como ocorreu com Nietzsche. A filologia não é apenas uma doutrina que se ensina nas universidades. Ela está relacionada com a própria transformação do homem. É como uma memória da antropogênese, do que há de humano e de desumano no homem”. E em Idea de la prosa, pontua: “Crente de que estão transmitindo o idioma, os homens, na verdade, dão voz uns aos outros”.

Para descrevê-lo, Agamben de apoia em Aristóteles: “O homem é um ser vivente, que encarna sua natureza de falante apenas através da linguagem. Tem que encarnar a sua própria natureza através de algo histórico como a linguagem. Por isso, encontra-se como dividido entre natureza e história”. E anota: “Sempre tenho presente essa definição de Aristóteles e também de Nietzsche: para o homem, ser, existir, quer dizer viver. A vida não é um problema mais, é o problema do pensamento. Meus trabalhos na política buscam deslocar o enfoque e mostrar que a política tem que ser um elemento que inclua a vida, como o direito e a soberania têm que incluir os seres vivos.”

“Ocorre em muitos Estados, há legalidade porque se cumprem as leis, porém não há legitimidade”

Homo sacer; uma de suas obras mais difundidas, junto com Profanaciones (Anagrama), prossegue os trabalhos sobre biopolítica dos últimos textos de Foucault: a vida como objeto político. “Não creio que na filosofia seja possível distinguir, como se faz na Universidade, entre filosofia da política, da moral, da linguagem. A filosofia é única. A filosofia é sempre política”.

E há um aspecto da história recente que acaba se mostrando como o paradigma da sociedade moderna: os campos de concentração, um espaço onde a lei fica suspensa, um estado de exceção perpétuo, onde, disse com Hannah Arendt, “tudo é possível”. O homem recluso neles é marginalizado da sociedade pelo próprio Estado: é o homo sacer; sagrado. Não pode ser sacrificado, porém sua morte não se constitui em homicídio, ele pode ser assassinado impunemente.

“O estado de exceção era um dispositivo provisório para situações de perigo. Hoje, converteu-se em um instrumento normal de governo. Com a desculpa da segurança frente ao terrorismo, ficou generalizado. A exceção, por isso se chama estado de exceção, é norma. O terrorismo é inseparável do Estado porque define o sistema de governo. Sem o terrorismo, o sistema atual de governo não poderia funcionar. Há dispositivos como o controle das pegadas digitais, que lhe escaneia nos aeroportos, que implantaram para controlar criminosos e agora se aplica a todos. Na perspectiva do Estado, o cidadão se converteu em um terrorista em potencial. Do contrário, não se explica o cúmulo de câmeras que nos monitoram em todas as partes. Somos tratados como criminais em potencial. O cidadão é um suspeito, numerado, como em Auschwitz, onde cada deportado tinha o seu número”. E o mais grave: “Depois de Auschwitz, o presente”. Com uma coisa que não se deve perder de vista: o estado de exceção dos campos de concentração é o mesmo que impera nos que são organizados para os refugiados.

Tudo isso conduz a uma quebra da legitimidade do poder. “Isso acontece em muitos Estados: há legalidade, porque se cumprem as leis, porém não legitimidade. Como consequência, os cidadãos confiam menos nas urnas e cresce a abstenção. Na Itália, nas últimas eleições, a participação foi quase tão baixa quanto nos Estados Unidos: uma abstenção de 40%. Um fenômeno que não se havia produzido antes, e que está relacionado com o fato de as pessoas terem se dado conta que os Governos não são verdadeiramente legítimos. Legais, sim: mas não legítimos”.

Desde esta perspectiva, Agamben chega à relação entre ética e política. “A ética moderna, desde Kant, constrói-se como uma ética do dever, dominada pelo imperativo. Tentei criticar a ética do dever e substituí-la por uma doutrina, procedente do mundo clássico, que valorize a ideia de felicidade, a vida boa. Em um sentido político. O dever é uma ideia de origem cristã. O homem é um ser em dívida. Isso significa dever: estar em dívida”.

A ideia do dever não apenas regula a ética kantiana, mas também se estende ao mundo da economia. “A economia de hoje está baseada na ideia da fé e do dever, do crédito e do débito. São dois conceitos que provêm do mundo da fé. ‘Fé’, em grego, chama-se ‘pistis’. Há uma anedota muito bonita. Um historiador da região, professor em Jerusalém, estava trabalhando sobre o conceito de fé (‘pistis’). Prendia entender o que é. Um dia, estava em Atenas, levantou os olhos e viu escritas as palavras: ‘Banco de pisteos’ (em espanhol, pistear pode ser usado para o ato de dar dinheiro). Banco da Fé, leu, porém, na realidade, o que constava era Banco de Crédito. Foi a sua iluminação: fé significa crédito. É o crédito que se dá à palavra de Deus. E, para nós, é o débito para com Deus. É muito esclarecedor: a economia e a ética estão baseadas nos mesmos conceitos: débito e crédito. Porque o que é o dinheiro senão um crédito? Sobreduto depois que Richard Nixon separou o dólar do padrão-ouro. O que fica nas notas é um puro crédito sem conteúdo. Temos crédito em um débito que não está garantido por nada.

“A sociedade já não crê no progresso, porém a economia funciona com este princípio: a produção deve sempre crescer”

Agamben trabalhou insistentemente a visão do tempo histórico: “Minha concepção da história, como a de Heidegger ou Foucault, é descontínua. Tem que ser. Não se sabe onde vai parar a imagem de um tempo contínuo. A antiguidade viu o tempo como um círculo. O cristianismo, como uma linha. Eu não gosto da interrupção. O momento da liberdade de ação”. É este um dos caminhos que o levaram a se interessar pela teologia. “Trabalhei muito, sobretudo nos últimos anos, na teologia cristã, porque nossa civilização está impregnada de cristianismo. Quando se produz a secularização na modernidade, se esquece que as categorias dos pensamentos vinham dadas. Seguimos utilizando conceitos teológicos sem sabê-lo. Uma dessas ideias é a de progresso. Quando se seculariza e se perde a ideia de que há um fim, o progresso se converte em infinito, porém a ideia provém da concepção linear do tempo cristão, uma linha que leva à salvação. O Partido Comunista da Itália, quando mudou de nome, passou a se chamar Partido Progressista da Esquerda. Logo abandonou esse nome. Nossa sociedade já não crê no progresso, porém a economia funciona com este princípio. A ideia é que a produção tem que crescer constantemente.

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