Bolívia: bispos desafiam Evo Morales sobre o narcotráfico

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26 Abril 2016

Na que é a declaração mais forte desde a visita do Papa Francisco no ano passado, os bispos bolivianos recentemente emitiram uma crítica lancinante sobre os efeitos corrosivos do narcotráfico e da dependência química na vida pública nacional, provocando uma resposta furiosa por parte do governo de Evo Morales.

A entrevista é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 24-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A carta pastoral, intitulada “Hoje coloco ante ti a vida e a morte”, diz que o comércio de drogas “ameaça a convivência pacífica e democrática do país”, pois gera “violência, corrupção, mentiras, injustiças e morte”.

Os bispos, logo em seguida, passam a apontar o dedo para o próprio Estado.

“Em sua estratégia de expansão e impunidade”, escrevem eles, a corrupção associada ao narcotráfico “penetra inclusive nas estruturas estatais e nas forças da lei e da ordem”, minando a “credibilidade de autoridades de diversas hierarquias encarregadas da luta contra o narcotráfico”.

Desafiando os bispos a citarem nomes, Morales os descreveu como sendo religiosos que possuem uma “mentalidade colonialista” e que acreditarem que “ainda estamos na idade do Império Romano, quando eles ainda pensam que têm a palavra final”.

Morales é um ex-dirigente do sindicado dos “cocaleros”, ou plantadores de folha de coca, cuja sede fica na região oeste de Chimoré – o centro dos cartéis que traficam a droga. Num encontro recente com o Papa Francisco durante um congresso no Vaticano, Morales presenteou o pontífice com três livros em espanhol que descrevem os benefícios das folhas de coca, assim como uma carta assinada pelos presidentes de dois sindicados comerciais em que eles se queixam da denúncia feita pelos bispos do país ao cultivo da coca.

O Departamento de Estado americano recentemente também descreveu a Bolívia como tendo “fracassado imensamente” em cumprir as obrigações internacionais no combate ao comércio da coca.

Em uma visita breve à cidade boliviana de Potosí na semana passada, sentei com o bispo local, Ricardo Centellas, que também é o atual presidente da Conferência Episcopal do país. Em Potosí, estamos a 4.200 metros acima do nível do mar, sendo esta a cidade mais alta do mundo. Nela fica o Cerro Rico, uma mina de prata que, nos tempos coloniais, manteve afluente o império espanhol.

Falamos não só sobre a carta pastoral, como também do efeito na Bolívia das alterações nas regras para a anulação matrimonial feitas pelo Papa Francisco. Entramos também no assunto em torno da crise de lideranças políticas, tema que o papa também tocou quando esteve em visita ao país.

Eis a entrevista.

Comecemos com o comunicado sobre o narcotráfico e a reação defensiva do governo. Estamos vendo uma fase nova e profética dos bispos bolivianos?

Se olharmos os nossos comunicados anteriores, veremos que que sempre tocamos na questão da dependência química e do tráfico – se não me engano, desde pelo menos 1984. Portanto isso não é novidade. Esta carta pastoral é o produto do pensamento da Conferência Episcopal que se desenvolveu ao longo de muitos anos; ela esteve em construção por, no mínimo, quatro anos.

A carta recolhe as preocupações dos bispos que recebem – dos padres, religiosos, das comunidades cristãs em geral – muitas queixas e manifestações de ansiedade. As pessoas nos dizem: por favor, se manifestem contra esta situação, que está esmagadora. Eis o que mudou: antes costumava ser somente numa parte do país, agora é em todo ele.

O que também é novidade é que vocês se atreveram a tocar na penetração do dinheiro e do poder das drogas nos níveis mais altos do Estado.

Sim, é a primeira vez que fizemos um comunicado tão enfático, embora em outras ocasiões nós tenhamos tocado no assunto também. O narcotráfico não afeta somente uma esfera da sociedade, mas em todas as camadas dela. Na carta, dizemos bastante claramente que ninguém na Bolívia pode ignorar essa preocupação, pois trata-se de um fenômeno social que deveria ocupar toda a sociedade.

Recentemente no México, o Papa Francisco instou a Igreja a falar com ousadia contra os cartéis de drogas. Estamos vendo uma mobilização continental da Igreja latino-americana?

Ele também falou sobre esse assunto quando esteve aqui [na Bolívia, em julho de 2015]. Essa não é uma preocupação apenas da Igreja latino-americana, mas também da Igreja universal. O narcotráfico tem penetração em todos os ambientes – em diferentes níveis, ele está sempre presente e sempre a corromper. A coisa mais preocupante é que ele destrói famílias, e a Igreja, neste momento, tem uma preocupação especial pelas famílias: ela quer recuperar a unidade, a estabilidade e a sustentabilidade da família.

Entrando no assunto família: um modo de ler “Amoris Laetitia” é que a Igreja não mais pode se apoiar na cultura ou no direito para suprir o sentido básico do casamento, e que a Igreja precisa, por assim dizer, reconstruí-lo a partir da base. Em que tipo de formação o senhor já se encontra envolvido?

Uma das opções pastorais latino-americanas desde Medellín e Puebla tem sido a família. Existe uma opção clara pelo cuidado, pela proteção e ajuda à família. Se voltarmos aos nossos documentos pastorais – seja os documentos das conferências episcopais, seja os documentos do CELAM –, sempre tocamos no assunto família. Aqui em Potosí, por exemplo, em 2012-2013 nós iniciamos um novo plano pastoral decenal, e um dos temas é a família.

Se eu sou um católico em Potosí e quero me casar, o que a Igreja irá me pedir? Porque, em muitas partes do mundo, esta será uma conversa de três horas...

Nós temos diferentes maneiras de trabalhar com os cônjuges. Nesta parte aqui da Bolívia, no leste do país, a maioria dos casais se unem depois de quatro, cinco, até mesmo 15 ou 20 anos desde que estão vivendo juntos. Nós tentamos envolvê-los na vida da paróquia, na vida cristã, para descobrirem a riqueza de viver com Deus uma vida de casado.

Na prática, eles já estão casados. Têm filhos, um lar, a experiência de morar juntos – todos os sinais de uma relação estável. É claro que temos também os jovens que se casam antes de viverem juntos, mas isso é muito raro.

De onde vem a tradição de viver juntos antes do casamento? Será que é o resultado de uma escassez de sacerdotes no passado?

Não. Faz parte da cultura, tanto do povo Aymara como entre os Quechua, que são as principais culturas da Bolívia, juntamente com os Guarani. O que constitui o casamento é o consenso dos pais e o acordo das autoridades, o que institucionaliza o matrimônio. Portanto é um casamento completamente constituído. Mais tarde, eles buscam pela bênção da Igreja.

O que ela significa para os casais?

O que a bênção da Igreja acrescenta é a dimensão espiritual. Nos primeiros anos de casamento, tudo vai bem, mas depois, com a chegada dos filhos, dificuldades financeiras e outros desafios, as coisas ficam mais difíceis. Para que um casamento alcance uma certa solidez, para que possa superar estes tempos de dificuldades, o que se precisa é do apoio do sacramento, porque ele ajuda as pessoas a permanecerem unidas apesar das asperezas da vida. O que as pessoas tiram realmente de benefício é a descoberta da dimensão espiritual por meio da integração à vida paroquial.

Qual o impacto na Bolívia da reforma no sistema de anulação matrimonial feita pelo papa?

Eu diria que, para a maioria das pessoas, o processo de anulação é desconhecido. Sou bispo de Potosí há dez anos e só consigo me lembrar de um ou dois casos. Porque não existe nenhum tribunal aqui, eles podem dar início ao caso de anulação na diocese, mas depois ele segue para Sucre.

Agora, com as notícias feitas a partir do que o Papa Francisco falou, as coisas podem mudar, sobretudo no eixo central boliviano (La Paz, Santa Cruz, Cochabamba). Estamos vendo aí um aumento nos pedidos de anulação. Os números mostram nos últimos meses uma elevação.

Quanto à Igreja boliviana como um todo, estamos a recém começando a estabelecer tribunais em todas as jurisdições. Eles vão abrir as portas em julho. Em maio, teremos um curso em La Paz em preparação ao processo de curso prazo, processo que deve estar disponível em todas as jurisdições eclesiásticas. Nós não temos especialistas em Direito Canônico, juízes e assim por diante. Portanto, no momento, podemos só oferecer este processo de curto prazo, que exige apenas a presença do bispo e de um auxiliar. É isso o que estamos aprendendo a fazer, e em julho devemos ter condições de oferecer este serviço em todo país.

Portanto existe um efeito claro do Sínodo aqui na Bolívia.

Sim, absolutamente. Esperamos que as pessoas, cujos matrimônios não deram certo e que possuem esta possibilidade aberta a eles, possam viver em paz e reconstruir suas vidas, porque há muitos casos onde, realmente, não houve casamento algum: falta de consenso, pressões sociais, etc.

Por exemplo, aqui na Bolívia é muito comum que, quando dois jovens têm um filho, os seus pais os pressionam para se casarem. Mas nós sabemos que a existência de um filho em si não faz um casamento. Em alguns casos, eles dão uma chance a si mesmos e acaba dando tudo certo, mas em muitos outros casos acabam se separando. Na Bolívia, os números mostram que, pelo menos, 50% de todos os casamentos terminam em divórcio. Com essas reformas, nós podemos ajudar muitos, muitos casamentos.

Na abertura do Sínodo dos Bispos, o senhor falou sobre a carência de líderes. Temos mais quatro anos de governo Evo Morales, e ele perdeu recentemente um referendo que lhe teria dado o direito de concorrer a um quarto mandato em 2020. O que a Igreja pode fazer nesse período para construir a base para o tipo de política que o Papa Francisco aqui tão bem descreveu?

O que está em falta na Bolívia é a formação de líderes. Quando as pessoas entram para a política, elas buscam promover os seus próprios interesses, os interesses de seu próprio grupo, em vez do bem comum do país. Um sinal claro disso é que o nosso país não é industrial. E ele poderia facilmente ser, dadas as riquezas enormes que possui – a começar pelas nossas minas, que têm centenas de anos de idade.

A Igreja, portanto, pode colaborar na preparação de líderes, como fez no passado, mas estes devem ser líderes que podem, realmente, doar suas vidas em serviço para a Bolívia.

Precisamos é de líderes que pensem nos interesses de todos os bolivianos (...) Em meu discurso [no Sínodo dos Bispos], disse claramente que um líder precisa ser capaz de – e estar aberto a – trabalhar com a diversidade e na diversidade, porque, caso contrário, vai ser alguém a responder a interesses particulares, e não aos interesses do todo.

Interessante que o senhor pede por mais industrialização e exploração mineral aqui na Bolívia, quando estamos sentados relativamente perto da mina provavelmente mais conhecida da história: a mina de Cerro Rico, de onde tanta prata saiu e onde tantos morreram sob condições terríveis. Suponho que o senhor esteja falando de um tipo diferente de exploração das minas, não?

É claro. Há muito dizemos que a mineração aqui em Potosí não deveria ser apenas extrativista [isto é, extrair produtos minerais e vendê-los a terceiros], mas sustentável e dar vida às famílias locais.

Cerca de 20 mil pessoas continuam trabalhando nas minas de Cerro Rico, das quais 3 mil são cooperativadas. Assim fica fácil ver que 16 mil delas sobrevivem apenas, enquanto 3 mil estão se dando bem. No entanto, nada é industrializado. Eles extraem zinco, chumbo, prata, ouro, tudo com ferramentais tradicionais. O que precisamos é que os produtos extraídos sejam trabalhados aqui, em fábricas, com as matérias-primas vindas das montanhas. Desse modo as pessoas poderão ter uma maior estabilidade econômica e social.

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