Crítica a 'bela, recatada e do lar' é intolerante com Brasil 'invisível'

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22 Abril 2016

Um artigo sobre a esposa do vice-presidente Michel Temer, Marcela Temer, publicado pela revista "Veja" e intitulado "Bela, recatada e do lar", provocou uma avalanche de memes e reações na internet.

Milhares de mulheres postaram fotos suas em momentos de diversão, ironizando o tom tradicionalista do perfil e afirmando que Marcela não as representaria.

Mas para uma das principais pesquisadoras da história das mulheres brasileiras, a historiadora Mary Del Priore, as críticas - que, segundo ela, seriam originárias em sua maioria das capitais e do Sudeste do país - refletem uma visão "intolerante" sobre o modo de vida de uma parcela significativa da população.

Del Priore diz que Marcela Temer representa parte de um Brasil que muitos preferem deixar "invisível".

A entrevista é de Néli Pereira, publicada por BBC Brasil, 21-04-2016.

Eis a entrevista.

A descrição que a revista "Veja" faz de Marcela Temer pode ser compreendida como um reflexo do ideal da mulher no Brasil ou reflete o machismo ainda presente na nossa sociedade?

Eu diria que a história é feita de permanências e rupturas. Essa adjetivação a gente encontra nos memorialistas de 20 e 30. Nas memórias do historiador Pedro Calmón, um dos maiores que o Brasil já teve, ele escreve que escolheu a "mulher da vida dele" exatamente com base nessas características: ela deveria ser bela, recatada e do lar.

Aliás, beleza nem era tão importante nessa época, passou a ser uma características determinante nos séculos 20 e 21. Mas recato e ser uma boa dona de casa acompanhou a história da mulher brasileira desde sempre.

No século 19, ser dona de casa era uma característica importante, voltar-se para as atividades domésticas, estar ocupada dentro de casa, essa é uma permanência que está presente até hoje. E é óbvio que tivemos rupturas, especialmente na década de 70, com a chegada da pílula anticoncepcional, a inserção da mulher no mercado de trabalho, o que faz determinadas mulheres que participaram dessas rupturas reagirem a esse modelo de permanência.

Mas o que eu acho importante insistir é que o Brasil não é o mesmo. O Brasil das capitais, do Rio de Janeiro, de São Paulo, onde você tem o movimento feminista organizado, mulheres em cargos de comando, mulheres formadas pela universidade – ele não é o mesmo do interior. Em muitas localidades brasileiras, sobretudo no interior do Brasil, onde ainda vive 20% da nossa população, adjetivos como esses fazem a diferença e ainda são considerados características importantes para a escolha do cônjuge.

E a reação que isso provocou na internet? Uma avalanche de memes sobre essas três características, eventos que ironizam essa classificação, mulheres postando fotos em bares, se divertindo como se elas não estivessem representadas nessa tríade "bela, recatada e do lar"- o que pode explicar isso?

Isso é o fato de a internet ter ganhado na sociedade brasileira o lugar de praça pública, e não só para este assunto, mas para qualquer tema. As redes, os grupos organizados que estão presentes ali, todos eles têm voz nessa grande praça pública. Isso faz parte da realidade dos tempos de hoje, da forma como nos comunicamos, mas é bom pensar que quando falamos em "mulher brasileira", ela é não é uma, mas complexa, há mulheres com formações diversas.

Não vamos esquecer que nossos congressistas, quando foram votar pelo impeachment, evocaram a família, a Igreja – então esse Brasil, que não está tão visível e que, do meu ponto de vista, se constitui numa espécie de buraco negro com vozes discordantes, que nunca ouvimos, é esse Brasil que se vê representado em mulheres que são belas, puras e recatadas.

Então o que você está dizendo é que a "bela, recatada e do lar" representa parte da população, e, assim, também representa a mulher brasileira...

Eu acho que representa um Brasil que não está visível, que não está nas redes, que não está vinculado aos movimentos feministas, mas isso é parte do nosso país. Um país que as vezes a gente não gosta de ver, como tantos jornalistas sublinharam na votação de domingo: é um Brasil feio? É. É um Brasil deseducado? É. Um Brasil com vocabulário selvagem? É. Nós que temos o hábito de olhar só para os nossos umbigos e achar que o Brasil é só o Sudeste do país e as grandes cidades.

Você ressalta que há mulheres que ainda desejam essa classificação, orbitar em volta do marido, mesmo com as conquistas do mercado de trabalho, e há uma sensação por parte de um grupo de que isso não seria justo, ou adequado. Isso é visto como um retrocesso, não? Pelo menos é o que reflete essa reação em peso na internet à tríade "bela, recatada e do lar"...

Sem dúvida, inclusive nos Estados Unidos, onde você tem movimentos feministas com tantas nuances, você teve uma reação de mulheres nos anos 90 que deixaram as grandes empresas, abandonaram suas carreiras, e que tem prazer de estar em casa, ser donas de casa, e cuidar dos filhos, se dedicar à vida doméstica. Essa é uma opção.

Eu digo sempre que a complexidade da subjetividade feminina implica em você ser santa e prostituta ao mesmo tempo, da rua e da casa ao mesmo tempo, em ter a carreira e uma realização doméstica.

Aliás, eu acho uma intolerância total esse tipo de crítica. O certo é respeitar. Se essa senhora quer viver dessa forma e faz feliz a si própria e ao seu marido, melhor para ela. Mas essa necessidade de querer que as mulheres se enquadrem numa tipologia de mulheres bem-sucedidas, independentes, que fazem o que querem, deitam com quem querem ou então do seu oposto, como uma santa, em casa – essas tipologias caíram por terra.

As mulheres gostam mesmo de representar todos os papéis possíveis quando elas têm a oportunidade. Eu digo sempre que a complexidade da subjetividade feminina implica em você ser santa e prostituta ao mesmo tempo, da rua e da casa ao mesmo tempo, em ter a carreira e uma realização doméstica. O grande sonho parece ser dar conta de todos esses papeis. Portanto, me parece intolerante essa reação crítica a uma pessoa que escolheu seguir esse caminho.

As mulheres representam quase 60% do eleitorado, no entanto, segundo dados da ONU de 2014, apenas 11% dos prefeitos, 8,7% dos deputados e 7,9% dos governadores são mulheres. O mundo da política ainda é dominado pelo machismo?

Eu acho que a preeminência masculina poderia nos fazer acreditar que somos um país patriarcal também na vida política. Mas eu gostaria de lembrar as inúmeras mulheres que estão na política brasileira que estão envolvidas com aqueles comportamentos que identificamos em políticos brasileiros e que nós não desejamos.

Muitas – e aí não estou falando da presidente, que é tão proba, e cujas contas estão limpas – roubaram, meteram a mão igual, há milhares de escândalos envolvendo mulheres. Então não vamos fazer das saias um atestado de pureza na política brasileira. Se for para ter mais cadeiras no Congresso para se comportar exatamente com os políticos que nós vemos, muito obrigada, vamos ficar na mesa. Precisa haver uma mudança total: política e da Constituição.

Como foi sua reação pessoal, de mulher, à manchete da "Veja"?

Num país democrático, todos os veículos de comunicação representam grupos diversos. Você tem os leitores de Veja e de "Carta Capital", ouvintes e leitores da BBC e de rádios evangélicas, não podemos ter homogeneidade.

Se a revista vai vender mais por conta dessa manchete, o problema é dela. O que eu acho importante é a diversidade, porque ela nos fará mais tolerante em relação àquelas coisas que ainda nos tornam um país de selvagens: a violência contra mulher, a homofobia.

Acho que temos que progredir não reagindo de maneira brutal com relação a opiniões que são diversas das nossas. Faz parte do mundo contemporâneo termos opiniões diferentes, a complexidade desse Brasil são os "brasis" que esse país contém.

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