“A ciência é uma maneira de entender o mundo que está em constante mudança”. Entrevista com Carlo Rovelli

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Por: André | 13 Abril 2016

O físico italiano Carlo Rovelli é reconhecido mundialmente por suas contribuições para o desenvolvimento de algo estranhíssimo para o grande público: a Teoria da Gravidade Quântica de Loop, na qual as teorias aparentemente incompatíveis da mecânica quântica e da relatividade geral são combinadas. Ou seja, está envolvido em temas chave para o desenvolvimento científico e tecnológico atuais.

 
Fonte: http://bit.ly/1oURti0  

E, além disso, é um excelente divulgador. Prova disso é o livro Sete breves lições de física (Anagrama), que acaba de ser publicado na Argentina, no qual revê de maneira amigável e com uma escrita muito cuidadosa a teoria da relatividade geral, a mecânica quântica, a arquitetura do cosmos, as partículas elementares, a gravidade quântica em laços e os buracos negros, entre outros tópicos obscuros para a maioria dos mortais.

Atualmente, Rovelli é professor no Centro de Física Teórica da Universidade do Mediterrâneo Aix-Marseille II (França) e nos Departamentos de Física e História e Filosofia da Ciência da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos). Esteve recentemente em Buenos Aires a convite da Universidade Nacional de San Martín, que o distinguiu com o título de Doctor Honoris Causa.

Nesta entrevista, o físico italiano repassa vários de seus temas de interesse e também rememora os anos 1970, quando participou de movimentos estudantis de protesto na Itália, fundou uma rádio livre e também escreveu um livro sobre os acontecimentos daquelas jornadas acaloradas nas quais muitos jovens quiseram mudar o mundo, para torná-lo um lugar mais amigável.

A entrevista é de Verónica Engler e publicada por Página/12, 11-04-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

No âmbito científico se diz que os físicos, especialmente se eles são teóricos, estão logo abaixo de Deus. Que lhe parece esta ideia, realmente se situam em um lugar tão especial?

(Risos) Bom, creio que os físicos pensam isso, mas as outras pessoas não estão muito contentes com essa ideia. Mesmo que cada ciência seja autônoma, há relações entre as diferentes ciências: a física, a biologia, a química, a ciência atmosférica ou a ciência dos materiais. Mas a verdade é que a física está na base de todas elas, é mais geral que todas as outras e ocupa um lugar especial em nosso entendimento do universo. Nem por isto podemos prescindir das outras, mas a física está na base do entendimento das outras. Neste sentido, a física é especial, apenas neste sentido, nada mais.

No seu livro, você se refere à teoria da relatividade geral de Einstein como uma joia comparável a obras primas como a Odisseia de Homero ou Rei Lear de Shakespeare. Por que considera que uma teoria científica pode gerar uma experiência estética similar a uma obra de arte?

Porque é assim que acontece com muitas pessoas. Para muitas pessoas a compreensão da relatividade geral causa uma grande emoção, é um fato. E é assim porque creio que a arte muda a nossa visão do mundo, nos dá uma nova perspectiva, nos abre para uma nova forma de pensar. E o mesmo acontece com a ciência; ela nos dá uma nova perspectiva, amplia a nossa visão, nos oferece novas ferramentas para entender o mundo. Então, mesmo que utilize diferentes formas, finalmente são similares, porque elas nos ensinam a pensar sobre o mundo.

Parece-lhe que a complexidade de uma obra literária como a Odisseia é comparável à complexidade de uma teoria como a teoria da relatividade geral?

Sim, absolutamente. Ambas são compostas por partes simples, a relatividade geral pode ser escrita em poucas páginas de equações e a Odisseia é apenas um livro, com personagens. Mas o que está dentro, o que se pode fazer com isso é muito; pode-se trabalhar e descobrir o mundo, descrever muitos aspectos do universo, e dentro da Odisseia há um mundo, há histórias, grandes ideais, ações, uma maneira de explorar a humanidade. Então, nos dois casos é como uma porta, uma pequena porta que permite descobrir o universo.

Por que é tão importante para você que uma teoria seja elegante e bonita?

Não sei, mas o mundo não tem nenhuma obrigação de ser elegante e bonito para nós. O mundo é o que é. No entanto, na história encontramos com frequência que o mundo que nos cerca pode se descrito em termos simples. E, portanto, quando encontramos teorias que não são bonitas e simples, poderíamos pensar que não estamos tomando o melhor caminho. Então, a beleza pode ser uma sugestão de que estamos no caminho certo. No passado, as teorias bonitas na maioria das vezes demonstraram ser as mais corretas.

A maioria do público leigo escutou em algum momento algo sobre o Big Bang, mas pouquíssimos têm alguma noção sobre o Big Bounce (O Grande Rebote), uma hipótese que você assina. Poderia nos explicar algo sobre este fenômeno que teria dado origem ao nosso universo?

É uma hipótese. Sabemos que o universo foi pequeno, e acontece que quando o universo está extremamente comprimido a teoria quântica gera uma força de repulsão, com o resultado de que o Big Bang (a grande explosão) poderia ter sido na realidade um Big Bounce (um grande rebote): nosso universo poderia ter nascido de um universo anterior que estava se contraindo sob seu próprio peso até se comprimir num pequeníssimo espaço, para depois “rebotar” e começar a se expandir novamente, convertendo-se no universo em expansão que hoje observamos ao nosso redor. Atualmente, estamos escrevendo equações sobre este fenômeno para ver o que aconteceu antes daquilo que conhecemos como Big Bang.

Você é um dos fundadores da Teoria da Gravidade Quântica em Loop. Poderia explicar algo desta teoria e por que está oposta à Teoria das Supercordas?

A bem da verdade, não se situa no lugar oposto às Supercordas, mas estas teorias discutem diferentes problemas. A Teoria das Supercordas é uma tentativa de escrever uma Teoria de Tudo (que conecta todos os fenômenos físicos conhecidos), uma simples equação que capture todos os aspectos do universo.

A gravidade quântica estuda um problema diferente, que tem a ver com fazer funcionar juntas as teorias da relatividade geral e a mecânica quântica, e isso significa entender a estrutura do espaço, como é o espaço. A gravidade quântica tem a ver com limpar algo que está embaçando a nossa compreensão do universo. E a teoria das cordas está tratando de fazer muito mais, encontrar uma simples Teoria de Tudo. Provavelmente, sejam alternativas, uma ou a outra.

Embora não tenhamos certeza, também pode ser que são compatíveis, ou talvez que as duas sejam incorretas, não sabemos ainda. Creio que o bom da ciência é que este tipo de discussão geralmente converge após um certo tempo. Por isso, é bom que as perguntas possam explorar diferentes direções, debater. No passado, os grandes temas em debate sempre convergiram. Então, precisamos esperar e ver quem está no caminho certo.

Entre um público mais ou menos formado existe a ideia de que a ciência é um conhecimento parcial, um relato como os outros, que inclusive poderia ser equiparado ao discurso religioso. De que maneira avalia o fato de situar a ciência nesse lugar no qual parece não haver diferença entre esses dois tipos de discurso?

Parece-me perigoso, porque diferentes ideias sobre o mundo não são igualmente boas para nós. Se estou buscando algo que quero encontrar e você me diz que está à direita e outra pessoa me diz que está à esquerda, o que está certo ou o que está errado? E dizer “tudo isso não importa, todas as opiniões são a mesma coisa, temos que respeitar todas as opiniões”, creio que é bobagem. Os seres humanos precisam escolher, porque algumas descrições são melhores que as outras.

A ciência é uma maneira de entender o mundo que está em constante mudança. Sobre as bases do que aprendemos procura oferecer-nos a melhor descrição do mundo que temos hoje. Mediante as discussões e debates podemos obter alguma síntese sobre o que está certo e o que está errado.

Creio que é errado pensar que todas as opiniões são igualmente válidas, porque nem todas as ideais são corretas, nem todos os juízos morais são iguais, nem todas as ideias sobre a realidade são igualmente boas; algumas são melhores e outras piores. Assim, a ciência é um esforço para escolher entre diferentes opiniões, as que são melhores. E as pessoas que não veem isto não entendem o que é a ciência.

No livro você faz referência a sete desafios fundamentais da física do século XX. Em sua trajetória história destaca o trabalho de vários cientistas: Albert Einstein, Max Planck, Niels Bohr e Werner Heisenberg, entre outros. Não há mulheres cientistas que tenham contribuído para esta história?

Sim, há algumas mulheres. Marie Curie, apenas para mencionar uma. Em outro livro (Realty is not what it looks like) eu entro em detalhes sobre (a astrônoma) Henrietta Leavitt, que impulsionou a nossa compreensão do universo. E há muito mais mulheres. Mas é um fato que a ciência até agora foi feita mais por homens do que por mulheres, porque a realidade é que as mulheres só recentemente puderam ingressar na universidade. Por isso, havia extremamente poucas mulheres com educação superior até há pouco tempo.

Mas, esses valores estão caindo, creio que as coisas estão mudando. Por isso, creio que cada vez mais haverá contribuições das mulheres, inclusive nos níveis mais altos.

Na década de 1970, você participou de movimentos políticos estudantis das universidades italianas e esteve envolvido em duas rádios livres emblemáticas como Alice e Anguana. Poderia contar o que recorda dessa experiência?

Bom, estava nos meus 20 anos, então era maravilhoso, porque quando se tem 20 anos tudo é maravilhoso (risos). A Rádio Alice ficou muito conhecida na história da Itália. Uni-me a eles quando me mudei para Bolonha, porque estava morando no mesmo apartamento dos seus fundadores. Mas a outra rádio, a Anguana, em Verona, criamos com outros amigos utilizando a experiência que trazia de Bolonha.

Vou dizer algo meio óbvio, mas naquele tempo o clima cultural era muito diferente do de hoje. Havia um idealismo forte, muitos jovens pensavam que era possível mudar o mundo, trabalhar para isso, para fazer um mundo melhor, mais justo. Uma grande parte dos jovens estava fortemente envolvida em contribuir para isto. E eu era apenas parte desse tempo, e foi maravilhoso. Creio que a vida é melhor quando se tem grandes ideais nos quais se acredita e se trabalha para isso.

A nossa figura mítica naquele momento era o Che. Havia uma grande variedade de diferentes maneiras de viver, desde a gente que estava mais fortemente envolvida com a política, gente que tratava de encontrar novas formas de viver sua vida cotidiana, organizando suas famílias e seus trabalhos de formas diferentes. Nós sentíamos, assim como outra gente jovem no planeta, que o mundo estava mudando e que nós faríamos a mudança.

Queríamos um mundo sem fronteiras em que estivéssemos todos irmanados. Mas o que realmente aconteceu é que a mudança foi muito pequena e o mundo tomou uma direção muito diferente do que muitos dos jovens daquele tempo teriam gostado. O mundo tomou a direção de maiores desigualdades econômicas, com mais guerras, violência e ficou mais conservador.

Em relação a estas atividades políticas, você foi processado por crimes de opinião quando foi publicado, no final da década de 1970, o livro Fatti Nostri (Nossos atos), do qual é coautor, junto com Enrico Palandri, Maurizio Torrealta e Claudio Persanti. Como foi a experiência de escrever esse livro no qual narram o assassinato de um jovem ocorrido em uma revolta estudantil?

Escrevemos esse livro com meus amigos sobre uma rebelião estudantil em Bolonha. A universidade estava ocupada por um grande movimento estudantil. Foi um período difícil na Itália, havia o risco de que a direita fascista fosse dirigir a política italiana. O governo queria mudar algumas legislações na Itália para restringir o acesso à universidade. Os estudantes protestaram, ocuparam as universidades por um tempo, houve enfrentamentos com a polícia e os policiais assassinaram um estudante (Francesco Lorusso) durante uma manifestação.

O livro é uma simples descrição sobre o que aconteceu, com muitas fotografias e também com as transcrições das transmissões da rádio (Alice), que foi fechada pela polícia. Então publicamos as últimas emissões da rádio. E o livro também tentava fazer uma descrição de quem eram os estudantes, o que queriam, suas maneiras de viver. Tentávamos dar uma visão a partir de dentro, não uma visão objetiva.

O título do livro é Fatti Nostri, que quer dizer nossos fatos, nossas coisas, o que nós somos. Fomos processados por uma longa lista de crimes de opinião, pelas coisas que tínhamos escrito. Eu fiquei com medo, fugi e me escondi por um curto período de tempo. Depois, quando o caso foi a julgamento, os juízes simplesmente o descartaram e nada de ruim aconteceu conosco.

Não fui preso por escrever o livro, mas por outra razão, quando me neguei a fazer o serviço militar que era obrigatório; mas isso foi em outro momento. Fatti Nostri foi um livro que vendeu muito. Obviamente, nunca vi um centavo por esse livro, porque o dinheiro era para questões políticas.

Então, Sete breves lições de física não é o seu primeiro sucesso editorial.

(Risos) Não, é o segundo, mas é uma história completamente diferente. Embora, de qualquer forma, acredite que haja algo em comum entre os dois livros, que é a rebelião. Gosto das pessoas que desafiam o status quo e se animam para a mudança. Eu gosto da ciência quando faz isso.

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