Impedir o terror na Colômbia. Artigo de Francisco de Roux

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Por: Jonas | 12 Abril 2016

“É o momento de estar ao lado das vítimas, de todas as vítimas, e de nos opormos a qualquer atentado contra a vida; e, particularmente, de mostrar nossa solidariedade, como cidadãos e cristãos, com aqueles que são perseguidos e assassinados porque em seu ideário lutam sem armas pela justiça, ainda que não compartilhem todas as suas posições políticas”, escreve o padre jesuíta Francisco de Roux (foto) a respeito da realidade vivida pela Colômbia. Seu artigo é publicado por El Tiempo, 06-04-2016. A tradução é do Cepat.

 
   

Eis o artigo.

Na parábola do samaritano, Jesus deixa claro a seriedade de sua compaixão com as vítimas. O samaritano ampara o ferido sem saber quem é, e assume o custo e o risco da solidariedade sem se perguntar pela ideologia daquele que está abandonado no caminho. O próprio Jesus, nos relatos do pobre Lázaro e do julgamento final, enche-se de indignação incondicional diante do sofrimento injusto. Esta indignação é o mínimo que se espera de seus seguidores.

Esta coluna expressou solidariedade aos sequestrados, desaparecidos, indígenas, afrocolombianos e vítimas de ‘falsos positivos’. Hoje, fazemos o mesmo com os trabalhadores pela paz em Arauca, e de maneira especial com os membros da Marcha Patriótica, porque o assassinato de mais de cem pessoas desde que se iniciou este movimento popular pode fazer, caso não se atue rápido, com que se levante o monstro que campeou sobre o país desde meados dos anos 1980.

Naquele momento, havia um grupo exterminador de alto nível, difícil de identificar em seus membros, por esta sociedade de impunidades, mas claramente evidente em seus procedimentos. O grupo instigava a eliminação de pessoas de setores populares e do campo. Mataram milhares. Participaram ativamente no genocídio da União Patriótica; e com as pessoas conhecidas publicamente tinham uma moral elegante: por uma mensagem escrita ou oral, ou por uma ameaça de atentado, faziam com que soubessem que eram “não gratas” e as forçavam a sair do país. Caso não acatassem, via-se obrigado a matá-las pelo bem da Colômbia. Muitos de nós vivemos na própria carne esta história, e os que não saíram para sempre ou por um tempo estão nos cemitérios.

A Marcha Patriótica é um movimento civil democrático de esquerda, em mobilização e debate público. Próprio para uma Colômbia pós-conflito armado, onde possam conviver as posições políticas de direita, de centro e de esquerda. Seus líderes são majoritariamente camponeses que sobreviveram em organizações rurais ao holocausto da União Patriótica. Muitos carregam a memória de seus familiares assassinados e têm a coragem dos apurados na resistência civil. Optaram pela paz como se vem ocorrendo e apoiam os diálogos. Sabem trabalhar nas bases do campo e nas cidades. São significativos neste momento, porque constituem uma verdadeira organização way out (caminho de saída), que ensina uma forma prática de fazer política aos que abandonam as armas, oferecida a partir dos civis. Suas posições e métodos estão para ser debatidas, mas temos a obrigação de fazer respeitar o sagrado de suas vidas, se realmente temos dignidade neste país.

É óbvio que o ataque armado da semana passada, de organizações criminosas que assassinaram vários policiais, agiganta o risco e a desproteção de um movimento que sempre foi alvo dos paramilitares.

Por outra parte, cabe ponderar a magnitude e o bom comportamento cidadão do protesto legítimo das marchas do último dia 2 de abril, que, sobretudo em Medellín, mostrou uma cidadania viva, em um país que pode ser democrático na diferença de suas posições.

Contudo, é necessário advertir que, em todos os cenários, a linguagem e as atitudes de máxima agressividade e fúria contra a forma como, de fato, adianta-se o processo de paz criam um ambiente propício para a criação de aparatos exterminadores que se alimentam do ódio para impor o terror.

É o momento de estar ao lado das vítimas, de todas as vítimas, e de nos opormos a qualquer atentado contra a vida; e, particularmente, de mostrar nossa solidariedade, como cidadãos e cristãos, com aqueles que são perseguidos e assassinados porque em seu ideário lutam sem armas pela justiça, ainda que não compartilhem todas as suas posições políticas.

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