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14 Março 2016

Yara Caznok | Fotos: Ricardo Machado-IHU
A transcendência da música é capaz de traduzir a fé em beleza artística. Sustentada pelo mais belo dos instrumentos, a voz, a Missa Papae Marcelli de Giovanni Pierluigi, da Palestrina, é uma composição da segunda metade do século XVI e uma das mais belas composições de todos os tempos construída especialmente para ser executada por um coral. “Palestrina, como é conhecido Giovanni Pierluigi, é considerado o príncipe da música, até hoje ele é estudado. Quem pretende escrever para música precisa estudá-lo”, destaca Yara Caznok, professora da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho - Unesp.

Ao encerrar a apresentação, Egon Fröhlich, sociólogo, professor emérito da UFRGS,  que acompanhou a audição, chamou atenção para a qualidade da execução apresentada. “Há uma articulação perfeita das palavras em latim. Uma missa dessas é, de fato, algo muito precioso e raro”, avaliou.

Foi nesse clima de erudição, introspecção e de profundo exercício teológico que o Instituto Humanitas Unisinos – IHU recebeu a professora Yara Caznok, na manhã da sexta-feira, 11-03-2016. A audição comentada da Missa Papae Marcelli foi realizada na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. O evento integra a programação do 13ª Páscoa IHU, cujo tema é O cuidado da nossa Casa Comum.

Contexto histórico

O ano de composição da missa marca, também, o último ano do Concílio de Trento, 1563, em que as questões relacionadas à música católica foram debatidas. “O ponto mais decisivo foi de que as músicas deveriam ser compostas de modo que cada parte pudesse ser ouvida com clareza e que a condição de oração se mantivesse”, explica Yara.

A novidade musical de Palestrina é que ele supera um modelo de composição polifônica, em que várias melodias ficam sobrepostas umas às outras dentro de uma mesma canção. “Quando muitas vozes ficam cantando simultaneamente diversas melodias, o ouvido passa a não compreender qual melodia está sendo executada”, sublinha a professora. “O caminho que Palestrina nos dá é o da simplicidade, da instrospecção. O texto está sendo o tempo todo oferecido ao ouvinte, se eu não peguei uma voz tem outra que aparece e se repete”, complementa.

Movimentos

A Missa Papae Marcelli é divida em cinco momentos: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei. “O autor inicia a missa com linhas melódicas autônomas, mas interdependentes. Elas vão se replicando, tecendo um cenário em que entramos numa vibração de mantra”, descreve Yara. “No Gloria vai se construindo blocos silábicos com as vozes, dando a cada momento feições distintas, ora com introspeção, ora trabalhando o texto conforme a expressão musical mais adequada”, apresenta.

“No Credo há desenhos musicais que trazem a ideia do que se está fazendo com as vozes, com ascendências, movimentos mínimos, mas diversificados”, ressalta a professora. No final, o Sanctus, Benedictus e Agnus Dei, há um reforço de vozes para poder fazer a divisi, “quando cada uma das sopranos vão para linhas distintas de execução”, pontua.

 

Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, devidamente preparada para o evento

Encerramento

No encerramento da audição, Yara provocou os participantes. “Somos capazes de assoviar alguma parte melódica? Não. Porque a indistinção das partes da composição não traz uma memória do passado, mas uma vivencia do presente, uma intensidade”, sustenta. “Vamos vivendo cada momento, cada palavra. O fluxo é a ideia dessa vivência. Essa é a marca temporal do século XVI, as sílabas tônicas das palavras tem primazia em relação ao compasso, que vai ser mais determinante depois, no período barroco”, explica.

Quem é Yara Caznok

 
É graduada em Letras Franco-Portuguesas pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia Ciências Letras Cornélio Procópio - FAFI e em Música pela Faculdade Paulista de Arte – FPA. Especialista em Educação pela Universidade de São Paulo – USP, cursou mestrado em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Psicologia Social pela USP com a tese Música: entre o audível e o visível (São Paulo: Edunesp, 2004). É autora, entre outros, de Ouvir Wagner – Ecos nietzschianos (São Paulo: Editora Musa, 2000) e O desafio musical (São Paulo: Irmãos Vitale, 2004). Leciona na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, no Departamento de Música.

Por Ricardo Machado

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