Teólogo argentino, conclui "A teologia do Povo e a Cultura: raízes teológicas do Papa Francisco"

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08 Março 2016

O parênteses romano, no momento, ficou para trás. Juan Carlos Scannone está novamente no seu hábitat argentino, a pouco mais de trinta quilômetros de Buenos Aires, onde transcorreu a maior parte da sua vida.

Ali, na localidade de San Miguel, localiza-se o Colégio Máximo dos Jesuítas, que, por muitos anos, foi dirigido por Bergoglio.

A reportagem e a entrevista são de Alver Metalli, publicadas por Tierras de América, 08-03-2016. A tradução é de IHU On-Line.

Outro jesuíta, o diretor da Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, o chamou "para ajudar a nossos leitores a compreender desde dentro o pontificado do Papa Francisco orientados por algém que o conhece bem".

Scannone mudou-se para Roma, com sua inteligência e seus 83 anos, indo e vindo desde e para a América Latina, durante um ano.

Escreveu vários artigos para a Civiltà Cattolica e a Gregorianum, e para livros publicados por estas revistas sobre a teologia do povo e sobre o Papa Francisco. Mas desde que voltou para a sua casa na Argentina, igualmente não deixou de trabalhar.

"É curioso que eu me pergunte em que estou trabalhando, porque precisamente nesta manhã terminei um livro intitulado "A Teologia do Povo e a cultura". E o subtítulo é: "Raízes teológicas do Papa Francisco".

E o Papa sabe disso?

Não, não há nenhuma razão para que o saiba.

Depois de fazer esta antecipação exclusiva para o blog Tierras de América, Scannone abre um parênteses.

Ele começa a falar sobre o seu último encontro com Francisco antes de voltar para a Argentina, e de um livro que entregou pessoalmene ao Papa, fruto da sua estadia em Roma. "Apareceu com o meu nome, mas que foi escrito por uma jornalista francesa, Bernardette Sauvaget (Nota da IHU On-Line: ela é autora do livro é Le monde selon François. Les paradoxes d'un pontificat. Paris, du Cerf, 2014), grande amiga do padre de Charentenay, também francês, que trabalha na Civiltà Cattolica. O padre de Charentenay foi diretor da revista francesa dos jesuítas, Études, e que neste momento está nos EUA, no Boston College. Charentenay, veio a Roma em outubro de 2014, antes que eu voltasse para a Argentina. Todos os dias nos encontrávamos algumas horas e ele me fazia perguntas. Publicou o livro na editora du Cerf, dos dominicanos".

O livro também tem relação com o Papa?

O título do livro responde: Le pape du peuple. (Nota da IHU On-Line: o subtítulo é: Le pape raconté par son confrère theologien, jésuite et argentin, Paris: du Cerf, 2015). Trata sobre a Teologia do povo, sobre o pensamento do Papa, sobre minha relação com ele. No italiano, o livro foi publicado pela Libreria Editrice Vaticana.

E foi este livro que entregou ao Papa...

Sim, em março.

O senhor diz que o novo livro que acaba de concluir também fala do Papa.

A terceira parte se refere a suas raízes teológicas. Ali incorporei um trabalho que preparei para a Georgetown University, EUA. Um escrito sobre o Vaticano II, a Gaudium et Spes, para ser mais exato. O tema que me tinham pedido era "Agenda inconclusa do Vaticano II".

No livro mostro que o Vaticano II muda o paradigma teológico e a Gaudium et Spes muda o método, que logo é aplicado pelo episcopado latino-americano pelos anos seguintes, desde a segunda Conferência Episcopal de Medellín, em 1968, até Aparecida, a última Conferência de 2007, inaugurada pelo Papa Ratzinger, e onde Bergoglio presidiu a Comissão de Redação do Documento Conclusivo. Mostro que Francisco assume estas mudanças de paradigma e de método seguindo a linha do episcopado latino-americano, mas os aplica, sobretudo, ao tema dos pobres.

A que o senhor se refere quando fala de mudança de paradigma e de método?

Refiro-me à passagem do paradigma a-histórico dos documentos preparatórios do Concílio, que os bispos rechaçam e João XXIII deixa de lado, para um paradigma que leva mais em conta o pessoal-subjetivo e o histórico. Esta mudança culmina na Gaudium et Spes com o método "ver, julgar, agir" que é assumido na Conferência de Medellín e sem interrupção até Puebla, em 1970, e, até certo ponto, em Santo Domingo, em 1992, e plenamente, em Aparecida.

Esta mudança de paradigma e de método, aplicados à América Latina, levou a explicitar - na ordem dos conteúdos - o tema dos pobres, que o Papa recolhe e aprofunda. Eu acredito que há vários temas da teologia latino-americana e argentina que não somente são assumidos mas aprofundados por ele, como tentei mostrar num artigo publicada por Criterio (no. 2414, maio de 2015, 44-47).

O Papa aprofunda o tema dos pobres, por exemplo, afirmando que "a opção pelos pobres é uma categoria teológica, antes que cultural, sociológica, política ou filosófica". E logo justifca acrescentando: "Deus manifesta a sua misericórdia antes de mais a eles" (Evangellii Gaudium, no. 198).

Concluo esta terceira parte com os quatro princípios: o tempo é superior ao espaço, a unidade prevalece sobre o conflito, a realidade é mais importante que a ideia, o todo é superior à parte e a soma das partes.

Quando Bergoglio era provincial, no ano de 1974, já os usava. Eu era, juntamente com ele, da Congregação Provincial e o ouvi citá-los para iluminar diversas situações que estávamos tratando.

De que trata a primeira parte do livro?

É histórica. Trata da Teologia argentina do povo e a figura de Lucio Gera, o principal dos teólogos do povo. Nasceu na Itália mas migrou, como criança, para a Argentina e colaborou como perito argentinos no Concílio Vaticano II, e nas Conferências de Medellín e Puebla.

Há uma segunda parte...

A segunda parte, "Para uma teologia inculturada", compõe-se de trabalhos publicados em Evangelizzazione, cultura e teologia, que atualizei a partir de uma perspectiva mais universal, não puramente latino-americana.

Já tem um editor?

Quem me pediu para editar o livro foi o padre jesuíta belga Pierre Sauvage. Ele será publicado em francês pela editora jesuíta Lessius, de Paris, e depois, provavelmente, também em italiano e espanhol.

A propósito dos jesuítas, o senhor soube que há a possibilidade de iniciar a causa de beatificação do padre De Lubac?

Não sabia...

No final de janeiro, o arcebispo de Lion, o cardeal Philippe Barbarin, teve um encontro privado no Vaticano com Bento XVI tendo como tema a abertura da causa de beatificação do cardeal De Lubac, com quem Ratzinger teve uma intensa relação como teólogo. Barbarin declarou que o Papa emérito se expressou muito favoravelmente pela abertura do processo, confirmando que a figura de De Lubac é extremamente importante, tanto pelas suas características pessoais como pelo patrimônio teológico que o purpurado deixou como herança em suas numerosas obras, que até hoje são fundamentais para a vida da Igreja.

O padre Juan Carlos Scannone escuta a notícia com atenção: "Sei que o Papa tem na sua biblioteca o livro "Meditação sobre a Igreja" de De Lubac, que é um dos seus livros preferidos. A Civiltà Cattolica e o Corriere della Sera publicaram a versão italiana na coleção "A biblioteca do Papa Francisco".

O senhor viu quantas surpresas tivemos nos últimos tempos? O senhor imaginava que um ex-aluno seu nos reservaria tantas surpresas em apenas três anos?

Boas surpresas. Graças a Deus, é uma grande coisa.

Caiu o muro americano, caiu o que havia com a Igreja Ortodoxa. E agora?

Seguramente a China está no horizonte. Ele mesmo me disse que tinham muito interesse pela China. Uma das duas vezes que estive com ele sozinho, em Santa Marta, me disse que o futuro da Igreja está na Ásia e olhava para a China.

A qualquer momento poderá ser anunciada a assinatura dos acordos de paz entre o governo de Colômbia e a guerrilha, como conclusão das prolongadas negociações que se realizaram em Cuba entre as delegações...

E o Papa disse que a paz for assinada, irá a Colômbia...

Não falta muito para a assinatura...

É importante, muito importante. Há muitos anos que Colômbia se encontra numa situação tremenda, praticamente desde 1948, quando se deu o famoso "bogotazo" por ocasião do assassinato do caudillo liberal Gaitán. Depois, uma parte da luta políitica se deu na clandestinidade e a guerrilha, que sofreu mutações, incorporando o narcotráfico como instrumento de luta e de financiamento. Foram anos terríveis.

Recordo que quando participava das reuniões do CELAM, devíamos nos mover com muita cautela, o perigo das bombas e todo o sofrimento que se manifestava durante os encontros que fazíamos, os testemunhos das pessoas. Lembro de religiosas que trabalhavam no Magdalena Medio e afrontavam contínuos assassinatos perpetrados pelos guerrilheiros que eliminavam os que colaboravam com os paramilitares e vice-versa.

Em que anos foi isso?

Foi na época de muita dureza que coincide com o assassinato dos jesuítas em El Salvador.

Em novembro de 1989...

Sim, no ano da caída do muro de Berlim...

E antes deles, Romero...

Estive no seu túmulo quando ainda governava a Democracia Cristã...

Napoleón Duarte.

Sim, Duarte. No entanto, quando mataram os jesuítas estava no governo ARENA.

D'Abuisson...

Sim...

O senhor tomou conhecimento da morte de Fernando Cardenal, na Nicarágua?

Não, não  sabia... (Se mostra muito surpreso). Ele tinha quantos anos?

82

Eu o conheci quando estive na Nicarágua com Luis Maldonado, o teólogo espanhol, para participar numa reunião no Panamá. Del lá fomos até a Nicarágua. Depois ele viajou a Cuba. Fernando Cardenal vivia na comunidade jesuíta, apesar de ter deixado a Companhia de Jesus para fazer um trabalho político no governo sandinista.

 

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