República Centro Africana. "Bangassou é a diocese mais saqueada do mundo"

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15 Fevereiro 2016

“Nas últimas duas semanas de janeiro de 2016, a LRA atacou dezenas de povos, alguns a 10 km de Bangassou, levou centenas de crianças e jovens sequestrados que guardarão o trauma da violência, das noites na selva e dos estragos de ver-se afastados de seus povoados, mataram os que se opuseram a más ações (ontem enterramos o último em Bangassou) e queimaram centenas de casas e com elas, sementes, colheitas, utensílios e sonhos de futuro”, escreve Juan José Aguirre, bispo de Bangassou, em artigo publicado por Religión Digital, 10-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Era já noite cerrada. A Irmã Claribel recorda as costas do bandido que revirou e saqueou sua habitação. Havia colhido uma mochila daquelas vermelhas e amarelas que se distribuem quando a JMJ em Madri e ali havia colocado todo o dinheiro que lhes havia roubado, e seus vestidos, a comida dos pobres e até seus subordinados. Duas horas de angústia, duas religiosas desamparadas frente a 16 saqueadores e sentinelas de campo, drogados com haxixe indígena e armados até os dentes com ‘kalasnikoffs’ e facões. Falavam inglês e swahili. Fui vê-las a poucos dias e convencê-las que o que lhes roubaram hoje regressará com acréscimos por obra e graça da fé na Providência. Mas ainda tremiam pelas duas horas que durou aquele calvário. Esse dia 21 de janeiro de 2016 será inolvidável para elas, missionárias salvadorenhas dos pés à cabeça. Uma trabalha em Bangassou (África Central) há vinte anos. Eles, os infames assassinos da LRA, desde 2008.

Esta Armada de Resistência do Senhor (LRA), fundada por Joseph Kony, assola a diocese de Bangassou sem piedade desde então. O Papa Francisco pôde, no mês de novembro passado, romper barreiras e apagar linhas vermelhas entre outros contendores, Selekas e antibalakas. Sua presença moveu o país a eleições presidenciais com as quais conseguiu sair da cova onde a coalisão Seleka, de maioria muçulmana, nos havia metido há três e intermináveis anos. Desgraçadamente, Bangassou fica a 750 km da capital que o Papa declarou “capital espiritual do mundo”. De modo que nossa diocese não pode aspirar a ser mais do que a “diocese mais saqueada do mundo”. Ontem foi em Bakouma e as irmãs Claribel e Sandra bebem o cálice da violência. Amanhã, eterno recomeçar, será em outro lugar, com os mesmos protagonistas e o povo de Bangassou como vítimas colaterais por estarem no pior lugar, no pior momento, que eram suas casas e suas aldeias. Um drama brutal que golpeia um povo pacífico e amigável. 

Nas últimas duas semanas de janeiro de 2016, a LRA atacou dezenas de povos, alguns a 10 km de Bangassou, levou centenas de crianças e jovens sequestrados que guardarão o trauma da violência, das noites na selva e dos estragos de ver-se afastados de seus povoados, mataram os que se opuseram a más ações (ontem enterramos o último em Bangassou) e queimaram centenas de casas e com elas, sementes, colheitas, utensílios e sonhos de futuro. Outra imagem que Claribel leva em suas pupilas é a de um dos violentos pisoteando seu véu branco de consagrada, recém-atirado ao solo desde o armário de seu quarto. Sua roupa manchada é símbolo de sua fortaleza saqueada. Pedia-lhes calma quando um daqueles fanáticos golpeou com a parte plana de seu facão a irmã Sandra no ombro porque, tremendo como estava, não atinava a colocar a chave na fechadura do aparador. O ataque que elas vivenciaram nesse dia não é mais do que o eco das centenas de assaltos vividos há anos por estas populações, ressonância das centenas de violências cegas e gratuitas que golpearam a diocese nos últimos anos. 

Porém desta vez a agressão tem uma conotação nova e pesada. Apenas a LRA marchou a contar moedas e bilhetes, sacos de amendoins e botas desparelhas, um grupo de soldados ugandeses chegou a Bakouma, seguidos de um pequeno contingente americano (dois agentes brancos e um negro) num helicóptero do exército dos EEUU. Com efeito, desde faz dez anos, um contrato firmado entre o anterior governo centro-africano (hoje destronado), a União africana (UA), o governo ugandense e o governo americano, permitiu a soldados ugandenses e americanos, com a escusa ou a certeza de lutar contra a LRA, uns porque a viram nascer e os outros porque tem satélites e controles com os quais podem segui-los e levar vantagem às suas costas no leste da África Central. É como se um batalhão do exército esloveno (por exemplo) ocupasse a província de Cádiz, sem que ninguém se desse conta, e centenas de aviões eslovenos, sem controle nem permissão, aterrissassem por todos os lados como donos do território. A presença destes ugandenses permitiu dar segurança nas cidades maiores à margem da estrada principal. De fato, parece que triplicam o número dos LRA. Mas, a coisa cheira a chamuscado. Parece como se não lhes interessasse acabar cm a LRA. Sabem quem são e os deixam agir, não entram na selva a buscá-los escusando-se pelos jovens sequestrados que a LRA colocaria como escudos humanos em caso de ataque, têm fotos dos líderes, sabem onde se esconde Joseph Kony há anos (num rincão entre o Sudão do Sul e do norte ao sul de Darfur, chamado Kafia Kingi), mas ninguém move um dedo para neutralizá-lo, com a cumplicidade do governo sudanês. 

Os ugandenses presentes na África Central “jogam a guerra” e são mais bem pagos pelo governo ugandense do que em sue próprio país. Antigos LRA, reintegrados no exército ugandense, são reenviados a Bangassou e inclusive reconhecidos por antigos sequestrados, com o trauma que isto representa para eles. Os americanos, com a escusa da LRA, já têm meia dúzia de bases na África Central, de onde controlam, creio eu, o petróleo do Sudão e do Congo. Tenho a impressão de que chupam o bote, que o “controle” dos rebeldes da LRA é a ponta do iceberg que esconde quantidade de outros interesses que os engordam gratuitamente. Interesses geopolíticos, econômicos e outros, onde já me perco. E enquanto isso, meu pobre povo serve de vítima colateral e minhas pobres monjas aguentam carretas com seu povo e carretões com os pobres indefesos.

Os três americanos trouxeram a Bakouma medicamentos e os distribuíram às missionarias, tomaram nota do ocorrido, lhes mostraram fotos de reconhecimento dos líderes da LRA em poses distendidas, um tocando guitarra, outro sorrindo como se a foto fosse uma recordação a partir da selva centro-africana para sua avó em Uganda. Enquanto um explicava os poderes da pomada contra os fungos, outro, às ocultas das monjas (pensavam eles !!), piscava o olho a seu companheiro como que dizendo: “nós as temos no bote, elas dirão a todos que nossa presença aqui é muito necessária”. 

Isso nos parecia uma encenação com a qual convencer o próximo governo que sairá das urnas na próxima semana, de voltar a firmar o contrato que liga a África Central com os EEUU e Uganda com o beneplácito da UA, deixando as coisas da LRA como estão, deixando o sofrido povo centro-africano pisoteado como sempre e deixando a eles, faceiros, organizar “seus verdadeiros objetivos” (bons ou menos bons) em terra estrangeira. São algumas das zonas de sombra que vivenciamos nesta abordagem direta, outro soco em tempo real na boca do estômago de meu povo centro-africano. Ao entardecer fomos todos rezar a Missa e encontrar consolo na fé.

Curiosamente, a comunhão nos deu forças, mas notei que as formas, por não sei que mistério dos armários, tinham sabor de alcachofra. Sabor ácido na boca e consolações no coração. Não nos resta senão gritar com o salmista: “Tira-me da rede que me lançaram, porque confio em Ti, Tu és minha rocha e meu refúgio” (Salmo 90).

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