Francisco aos religiosos: não se apeguem ao dinheiro por causa da diminuição das vocações.

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04 Fevereiro 2016

Quanto à esperança, disse o Papa, “eu lhes confesso que a mim me custa muito quando vejo a diminuição das vocações, quando devo receber os bispos.

O Papa Francisco pôs em guarda os cinco mil religiosos e religiosas, que foram recebidos numa audiência por ocasião do final do Ano da Vida Consagrada, alertando sobre o perigo de apegar-se ao dinheiro, “esterco do diabo”, como reação à diminuição das vocações (uma “esterilidade” que não deve induzir à tentação do “desespero”), e recomendou a obediência, porque a anarquia é “filha do demônio”, e a “proximidade”, começando pelos irmãos e as irmãs, evitando o “terrorismo” dos boatos nas comunidades religiosas. Francisco deixou de lado o discurso que havia preparado (“é um pouco aborrecido lê-lo, prefiro falar com vocês daquilo que me vem ao coração, de acordo?”), e falou sobre três palavras-chave da vida consagrada: profecia, proximidade e esperança.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, foi publicada por Vatican Insider, em 01-02-2016. Foi traduzida por Benno Dischinger.

Quanto à esperança, disse o Papa, “eu lhes confesso que a mim me custa muito quando vejo a diminuição das vocações, quando devo receber os bispos e pergunto”’: ‘Quantos seminaristas têm?’; ‘Quatro, cinco... ’, quando vocês têm, em suas comunidades religiosas, masculinas ou femininas... um noviço, uma noviça, dois, duas, a comunidade envelhece... quando há quatro ou cinco freiras velhinhas que levam em frente mosteiros grandes até o final: isto, a mim, me faz vir uma tentação contra a esperança: ‘Mas, Senhor, o que sucede, por que o ventre da vida consagrada se torna tão estéril?’ Algumas congregações fazem o experimento da inseminação artificial – prosseguiu o Papa entre os risos dos presentes.

“O que fazem? Recebem (indiscriminadamente, ndr): ‘Vem, vem’, e logo os problemas que há aí dentro... é preciso receber com seriedade, é preciso discernir bem se esta é uma verdadeira vocação e é preciso ajuda-la a crescer. E creio que contra a tentação do desespero que te dá esta esterilidade devemos rezar mais. E rezar sem cansar-nos. A mim me faz muito bem ler esta passagem da Escritura, em que Ana, a mamãe de Samuel, rezava, pedia um filho; eu lhes pergunto: ‘Seu coração, frente a esta diminuição das vocações, reza com esta intensidade? Nossa congregação necessita filhos, filhas? ’ O Senhor, que é muito generoso, nunca faltará à sua promessa, mas devemos pedir, devemos bater à porta de seu coração. Porque há um perigo, é feio, mas tenho que dizê-lo, quando uma congregação religiosa vê que não tem filhos nem netos, e começa a ser cada vez menor, se apegam ao dinheiro. E vocês sabem que o dinheiro não te vai ajudar nunca, ao contrário, destruirá”.

Quanto à “profecia”, o Papa concentrou sua atenção no tema da “obediência”: necessita-se, recomendou o Papa jesuíta, uma “obediência forte, uma obediência não militar, não, essa é pura disciplina e é outra coisa, senão uma obediência que doa o coração: isto é profecia. ‘Mas, tu não queres fazer algo? ’, ‘Sim, mas segundo as regras tenho que fazer isto e isto e segundo as disposições isto e isto’. E, se não vejo claro, falo com o superior e a superiora, mas depois do diálogo obedeço. Esta é a profecia, contra a semente da anarquia, que parece ser o diabo. ‘Tu, que fazes? ’, ‘O que me agrada’. A anarquia da vontade é filha do demônio, não é filha de Deus – sublinhou o Papa -; o Filho de Deus não foi anárquico, não chamou os seus a resistirem contra os seus inimigos, e também o disse a Pilatos: ‘Se eu fosse um rei deste mundo, teria chamado os meus soldados para defender-me’. Não, Ele obedeceu ao Pai, somente pediu: ‘Este cálice não, mas que se faça tua vontade’. E quando Ele te diz que faças uma coisa que muitas vezes não te agrada”, prosseguiu o Papa com um gesto da mão no queixo, “meu italiano às vezes é muito pobre, de modo que tenho que usar a linguagem dos surdos-mudos”, explicou: “a obediência é preciso engoli-la, mas se faz isso”.

Quanto à proximidade, os religiosos são “homens e mulheres consagrados, mas não para afastar-se do povo e ter todas as comodidades, não, para aproximar-se e para entender a vida dos cristãos e dos não cristãos, os sofrimentos, os problemas, todas as coisas que só se compreendem se um homem ou uma mulher consagrada se faz próxima, na proximidade. ‘Mas, padre, eu sou uma freira de clausura, e que devo fazer?’, porém pensem em Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões, com seu coração ardente, ela estava próxima, nas cartas que recebia dos missionários a tornavam mais próxima do povo. Tornar-se consagrados – prosseguiu Francisco – não significa subir um, dois, três degraus na sociedade. É certo, muitas vezes escutamos dizerem aos padres, ‘Sabe, padre, eu tenho uma filha freira, um filho sacerdote’, e o dizem com orgulho, é certo, é uma satisfação ter filhos consagrados. Mas, para os consagrados não é um status de vida que me faz ver os outros assim (a partir do alto, ndr): a vida consagrada me deve levar à proximidade com o povo, proximidade física, espiritual, conhecer o povo”.

“O primeiro passo, - continuou Francisco, - de um consagrado, ou de uma consagrada, “o irmão ou a irmã da comunidade”, é a “proximidade”, mas “carinhosa, sim”? Boa, com amor. Eu sei que nas comunidades nunca se fofoqueia”, - exclamou o Papa com uma ironia que arrancou o aplauso dos presentes. - “Uma maneira para afastar-se dos irmãos e das irmãs da comunidade é justamente este, o terrorismo das fofocas. Escutem bem: não as fofocas, o terrorismo das fofocas”, insistiu, “porque, quem faz fofocas, é um terrorista dentre da própria comunidade, porque lança como que uma bomba, aquela palavra contra este ou aquele e logo se vai tranquilo: quem faz isto destrói como uma bomba e se afasta. Isto, o apóstolo Santiago... dizia que a virtude humana mais difícil é a de dominar a língua. Se me vem algo a dizer contra um irmão ou contra uma irmã, lançar uma bomba de fofocas, é preciso morder com força a língua”, exclamou de novo o Papa entre aplausos. “Se tu lanças uma bomba de fofocas em tua comunidade, isto não é proximidade, é fazer a guerra, é provocar distâncias, provocar anarquismo na comunidade. Se neste Ano da Misericórdia cada um de vocês conseguisse não fazer o terrorista mexeriquento ou mexeriquenta, seria um êxito de santidade bastante grande para a Igreja”.

O cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de vida religiosa e as Sociedades de vida apostólica, abriu o encontro na Aula Paulo VI sublinhando que “sabemos que ainda é grande o número dos que deixa a vida religiosa, em muitos lugares se tem acentuado a diminuição das vocações, outros enfrentam dificuldades, mas neste Ano santo vemos renascer a esperança e a confiança no Senhor”. E indicou que com o Ano da Vida consagrada se empreendeu um caminho de conversão que teve a ver inclusive com o uso do dinheiro e dos bens. D. Rodriguez Carballo, Secretário do mesmo dicastério, agradeceu ao Papa pelo Ano da Vida Consagrada que se encerra hoje (foi de 29 de novembro de 2014 a 2 de fevereiro de 2016).

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Francisco aos religiosos: não se apeguem ao dinheiro por causa da diminuição das vocações. - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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