Ex-líder diocesano alega que o Cardeal Müller frustrou investigações de abusos a coro de meninos na Alemanha

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03 Fevereiro 2016

Um ex-presidente do conselho diocesano em Regensburg, na Alemanha, afirmou que o Cardeal Gerhard Müller “sistematicamente” impediu a investigação de abusos sexuais cometidos contra meninos do famoso “coral de Regensburger Domspatzen” durante a época em que foi bispo da Diocese Regensburg.

A acusação contra Müller, atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF, coincidiu com outros 60 supostos casos de abusos sexuais que vítimas vieram a público denunciar desde que Ulrich Weber, advogado independente, publicou um relatório intercalar em janeiro deste ano, mostrando que três vezes mais meninos foram abusados entre 1953 e 1992 do que o número informado pela diocese.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, foi publicada em National Catholic Reporter, em 29-01-2016, a tradução é de Isaque Gomes Correa.

“A minha imparcialidade como advogado independente é o motivo por que mais vítimas agora querem me consultar. Elas sentem que eu irei escutá-las”, disse Weber ao sítio eletrônico domradio.de. Weber foi encarregado pela Diocese de Regensburg a seguir com as investigações de abuso a meninos do coral escolar.

Em uma longa entrevista à revista alemã Die Zeit, o ex-presidente do conselho diocesano Fritz Wallner descreveu como Müller (bispo de Regensburg de 2002 a 2012) e o seu vigário geral, o Pe. Michael Fuchs, impediram “sistematicamente” que casos de abusos sexuais fossem investigados. Na entrevista, ele pede também que Fuchs, ainda vigário-geral da diocese, se demita do cargo.

Em 2005, Müller dissolveu o conselho diocesano, segundo Wallner, “pois queria segurar as rédeas firmemente com suas próprias mãos e isso foi fatal para uma investigação interna dos abusos”.

Dois anos depois, Wallner disse que Müller instalou um sacerdote em uma paróquia, o qual tinha sido condenado por abusar sexualmente de menores em paróquias anteriores. Quando o padre foi novamente detido por abusar de crianças em sua nova comunidade, Wallner disse que Müller defendeu a sua decisão de reinstalar o padre salientando que ele havia sido assegurado, por seu psiquiatra, de que a pessoa em questão estava “curado”.

Perguntado na época se se sentia responsável por reinstalar o sacerdote agora que ele havia novamente abusado de menores, Müller disse que o sacerdote tinha negado o abuso 12 vezes, e que portanto este tinha uma “visão distorcida da verdade”.

Segundo Wallner, Müller ignorou as orientações da Conferência Episcopal alemã, de 2002, as quais recomendam que os padres condenados por abusar sexualmente menores de idade jamais devam ter novamente autorização para trabalhar com crianças ou jovens. Na opinião de Müller, cada diocese deveria assumir a responsabilidade em cada caso a esse respeito.

Em 2012, dois anos depois que o “tsunami” em volta dos casos de pedofilia na Alemanha, Áustria e Suíça trouxe à luz do dia centenas de casos de abuso sexual cometido por sacerdotes, Müller obstinadamente sustentou que nem o bispo nem a Igreja eram os responsáveis pelos abusadores. A responsabilidade encontra-se inteiramente com o perpetrador.

“Se um professor escolar abusa de uma criança, não é a escola ou o Ministério da Educação que deverá ser culpado”, disse à agência noticiosa DPA em fevereiro de 2012, quatro meses antes de se tornar prefeito da CDF.

Quando as primeiras acusações de abuso ao coro de Domspatzen foram reveladas em 2010, os envolvidos pediram por investigações mais aprofundadas, segundo Wallner, mas as autoridades diocesanas “pisaram no freio”.

“Muito mais vítimas teriam sido ouvidas, mas o ‘Sistema de Regensburg’, de Müller, evitou com que a verdade viesse à tona”, salientou Wallner.

Em sua opinião, o documentário intitulado “Pecados cometidos contra o coro infantil”, exibido numa rede de TV da Baviera em janeiro de 2015 foi o motivo pelo qual as autoridades diocesanas de Regensburg decidiram chamar um advogado independente para investigar a fundo os casos de abuso cometido contra os meninos do coral local.

“Foi aí que a diocese acordou”, disse ele.

Em uma missa na Catedral de Regensburg no dia 24 de janeiro, o bispo local Rudolf Voderholzer apelou às vítimas que estivessem hesitantes para dar um passo à frente e contatar Weber. Ainda que os abusos tenham ocorrido décadas atrás, “as feridas estão profundamente enraizadas e continuam aparecendo”, afirmou. Sabe-se agora que os crimes não foram somente maiores em número como também “muito mais graves”.

Tem havido tentativas – rejeitadas por Voderholzer – de se relativizar a punição corporal infligida às vítimas, afirmando que tais punições eram comuns na época.

“O fato de que a chamada pedagogia negra ou venenosa era costumeira naquele tempo, o que às vezes é usado para justificar os abusos, de forma alguma justifica a punição corporal excessiva e, certamente, não justifica os abusos sexuais que, agora, vieram à luz”, enfatizou Voderholzer. É essencial evitar todas as tentativas de justificação dos abusos “nesse caso sensível e problemático”.

Herdando o problema dos abusos em torno do coral de Domspatzen desde que se tornou bispo em 2012, Voderholzer pediu desculpas pelas autoridades diocesanas que não investigaram os casos “o suficiente” na ocasião. O bispo disse ainda que não poderia desfazer as “agonias” que as vítimas têm sofrido. “Tudo o que posso fazer é oferecer o meu mais sincero pedido de desculpas a cada um de vocês”, disse.

A diocese está criando agora um conselho especial, em que as vítimas de abuso estarão representadas. O grupo irá discutir meios de “realizar investigações consistente e completas”. O principal objetivo do conselho é obter o reconhecimento dos abusos e, de certa maneira, tentar fazer as pazes.

“Talvez nós consigamos dar apenas uma pequena contribuição no sentido de curar as feridas das vítimas”, afirmou Voderholzer. “Nenhuma quantia de dinheiro pode compensar o que aconteceu”, mas o conselho é meramente um “sinal no nosso remorso e vergonha”.

Enquanto isso, o presidente do Centro para a Proteção Infantil, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, o Pe. Hans Zollner, contou a jornal alemão Publik Forum, em 20 de janeiro, que “o perigo mais comum” no que concerne aos abusos sexuais cometidos pelo clero na Igreja é a atitude de que estes casos são melhores resolvidos pela própria Igreja sozinha.

“A origem de muitos dos problemas realmente sérios é quando a Igreja diz: ‘Nós iremos resolver este problema internamente já que só nós podemos, de fato, compreendê-lo’”, disse Zollner.

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