Francisco tem uma temporada de férias rica em referências aos pobres

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11 Janeiro 2016

Os líderes geralmente têm seus calendários cheios de compromissos, alguns dos quais caem na categoria do “tenho de fazer” em vez de “quero fazer”. Os presidentes dão jantares de Estado, os CEOs participam de reuniões com acionistas, diretores têm momentos juntos dos pais e professores...

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 06-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O mesmo se aplica aos papas, especialmente durante as temporadas de férias, que sempre são cheias de eventos. Para sabermos as reais prioridades de um papa, às vezes vale olhar para o que ele faz, não naquilo que é tradicional ou esperado, mas no que concerne à sua escolha pessoal.

Se for este o ponto de referência, então parece claro o que Papa Francisco mais tinha em mente no Natal e Ano Novo: os pobres.

É claro, a tradição requer certo foco na pobreza em época de Natal. A história diz que o salvador do mundo nasceu quando um grande império estava no auge, mas não o fez na principal cidade e dentro de uma família poderosa. Pelo contrário, Cristo entrou para a história em um município marginal de um território ocupado, em uma família tão pobre que ele acabou sendo posto em um estábulo.

Se isso não servir para uma reconsideração de como o mundo avalia as coisas, então não sei o que o poderia ser colocado em seu lugar.

Francisco encontrou duas formas de marcar este sentimento para com os necessitados. No dia 18 de dezembro, ele se deslocou por Roma para visitar um albergue dedicado aos sem-teto organizado pela Caritas, a principal organização caritativa da Igreja. Aí ele abriu uma “Porta Santa da Caridade” como parte de seu Ano da Misericórdia. Foi a primeira vez que a abertura de uma “Porta da Caridade” fez parte de um ritual jubilar.

O ato de celebrar uma missa para um grupo de 200 pessoas representantes das várias atividades desenvolvidas pela Caritas de Roma – junto aos desabrigados, pacientes com Aids, mães com crianças com problemas de desenvolvimento, refugiados e assim por diante – foi uma expressão daquilo que, exatamente, deve ser o Ano da Misericórdia, segundo as palavras do próprio papa.

Por outro lado, Francisco fez uma visita surpresa na segunda-feira a Greccio, cidade acerca de uma hora de Roma, para ver o presépio projetado por São Francisco de Assis, cujo romance com a Senhora Pobreza é bem conhecido.

Na Itália, Greccio é um símbolo da forma como Francisco inspirou os pobres a usarem os meios mais simples para criar os seus próprios presépios, insistindo que Deus não se preocupa com refinamentos reluzentes, e sim com a pureza de coração.

Francisco igualmente se fez presente em um encontro com jovens que estava acontecendo em Greccio, dizendo a eles que a estrela de Belém, que levou os reis magos até Jesus, deveria levar, hoje, os cristãos em direção aos “menores, mais vulneráveis e marginalizados”.

Tanto a visita ao albergue como a ida a Greccio foram novidades e, sem dúvida, atividades bem-intencionadas. Porém, poder-se-ia perguntar se tais gestos fazem alguma diferença no mundo concreto. Aqui trago uma anedota para sugerir que, pelo menos às vezes, a resposta é sim.

Há quase 14 anos, eu estava em Antigua, Guatemala, cobrindo a visita de São João Paulo II, que iria canonizar um herói local chamado “Irmão Pedro”. Eu e alguns colegas fomos atrás de uma Igreja que havia recebido o seu nome em homenagem, mas acidentalmente acabamos chegando a uma pequena clínica também chamada Irmão Pedro, coordenada por um grupo de missionários franciscanos italianos.

O Rev. Giuseppe Contran nos convidou para entrar e nada em minha vida havia me preparado para ver o que acabei vendo.

Enquanto caminhávamos pelo corredor, ouvi um gemido profundo que parecia um gemido de um animal. Supus que vinha do lado de fora, talvez de um cão abandonado. Então, viramos para um outro corredor e caminhamos em direção a uma enfermaria cheia de crianças mantidas nas camas com barras de ferro erguidas em todos os lados. Pareciam as gaiolas que vemos em canis, como a mesma sensação de abandono e desespero. A ideia, obviamente, era evitar com que as crianças saíssem ou fossem para longe.

Elas estavam mentalmente acometidas e fisicamente deformadas, alguns em níveis baixos, outras em níveis que só podem ser descritos como grotescos. Algumas se balançavam violentamente, outras gemiam de dor cruel e constante. O reverendo Contran passou a mão pela testa de uma dessas crianças, acalmando-a e trazendo-lhe um sorriso ao seu rosto. Ele explicou que a maior parte delas havia sido abandonada, em geral deixadas de forma anônima na porta da frente da clínica por pais que simplesmente se esgotaram.

Às vezes os filhos nascem com deficiências por causa de um acompanhamento pré-natal inadequado. Ainda segundo Contran, às vezes eles nascem sadios, mas acabam ficando deficientes devido à fome e desnutrição. São, em outras palavras, casualidades da pobreza.

Os missionários franciscanos e seus ajudantes locais devotam todos os dias de suas vidas a cuidar destas crianças, trabalho que é física e emocionalmente desgastante, e que, sinceramente, ninguém faria. Perguntei a Contran o que os mantinha realizando este serviço, e ele contou que algo que ajuda é saber que o papa apoia esta obra.

“Esta visita [do pontífice à Guatemala] diz que o papa se preocupa com o que estamos fazendo, é isso o que a Igreja quer da gente”, disse.

É esta a mensagem que Francisco aparentemente quis deixar em seus dias de folga, incluindo todos os albergues, centros de juventude, clínicas e outras obras de caridade e misericórdia da Igreja, ações que tentam seguir a Estrela de Belém em direção aos esquecidos do mundo.

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