Há 30 anos, a morte do jesuíta francês Michel De Certeau, "excitateur de la pensée"

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11 Janeiro 2016

Há 30 anos, no dia 9 de janeiro de 1986, morria em Paris o historiador e filósofo jesuíta francês Michel de Certeau. Naquele ano, o Pe. De Certeau – 61 anos – celebrava o 30º aniversário da sua ordenação presbiteral.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 08-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os especialistas e uma parte significativa de estudiosos, desde sempre, aprofunda a obra desse pensador singular, e, assim, a sua fama foi crescendo progressivamente. Muitos, porém, tiveram uma primeira notícia de De Certeau, quando, no último dia 26 de setembro, o Papa Francisco, no seu discurso sobre a liberdade religiosa, citou um pensamento dele.

No Independence Mall da Filadélfia, o Santo Padre disse: "As nossas tradições religiosas nos lembram que, como seres humanos, nós somos chamados a reconhecer o outro/o Outro que revela a nossa identidade relacional diante de toda a tentativa de instaurar uma 'uniformidade que o egoísmo do forte, o conformismo do fraco ou a ideologia do utópico poderiam tentar nos impor' (M. de Certeau)".

Há muitos anos, o Papa Bergoglio conhece o pensamento do Pe. De Certeau e, entre os livros de que mais gosta, está um sobre o Bem-aventurado Pedro Fabro (Ed. Memoriale), editado pelo jesuíta falecido há 30 anos.

A revista Vita e Pensiero, na apresentação do livro "O estrangeiro ou a união na diferença", escreve:

"Proposto pela primeira vez em tradução italiana, este texto de Michel de Certeau foi publicado na França no outono de 1969. Portanto, é um dos seus primeiros livros, que, na leitura atual, não é datado, mas se enche de um valor especial, tornando-se uma espécie de introdução aos temas que o grande autor francês foi desenvolvendo, depois, ao longo dos anos, particularmente a experiência cristã e a dinâmica dos percursos individuais na espessura do corpo social. Uma forte atualidade também mantém o ponto de partida que move o texto: a crise das certezas religiosas, o vínculo cada vez menos forte das instituições da Igreja, a descoberta desconcertante de que, à experiência do crente, é intrínseco também um não saber. E Deus se mostra como um 'estrangeiro', um outro que irrompe, desestabilizando a desgastada 'domesticidade' que o cânone religioso o tinha confinado, que foge da tessitura densa demais, automatizada e resolvida da religião praticada pelos homens. Mas é precisamente nesse processo de 'perda' e estremecimento, pontualiza De Certeau, que pode se dar o acontecimento autêntico de ser surpreendido por Deus, no inesperado encontro com a Sua presença. 'Uma verdade interior só aparece com a irrupção de um outro', diz-nos, 'para que ele se desperte e se revela, é preciso sempre a indiscrição do estrangeiro ou o choque de uma surpresa. É preciso ser surpreendidos para se tornar verdadeiro'. Assim como os discípulos de Emaús, tomados pela revelação de que o 'estrangeiro' a cuja ignorância dos fatos olhavam com condescendência é realmente o Senhor e mudados por aquela revelação até mesmo na sua relação com os outros, assim também todos os cristãos encontram de modo novo a alteridade dos homens e, dela e com ela, são arrastados à experiência da alteridade de Deus. Os apóstolos nas estradas contemporâneas a Jesus, mas também um educador ou um pai diante de um jovem, um missionário que partiu para 'outro país', uma sociedade às lidas com as suas fermentações de mudança: são todas ocasiões para encontros com uma pluralidade de universos, com um entrelaçamento de laços sociais dos quais se pode sair mudado e mais verdadeiro. É o ideal, caro a De Certeau, da 'vida comum', aquela vida em que a experiência do encontro com os outros estimula a aceitação dos limites da própria particularidade e nutre o desejo do encontro com a alteridade e a surpresa de Deus. Aceitando se deixar mudar, cada um pode aprender a se tornar mais livre, mas também mais solidário com os outros, com os quais construirá, na mensagem lúcida mas confiante que está sempre sob as análises sociais de Michel de Certeau, 'a união na diversidade'".

* * *

Michel de Certeau, nascido em Chambéry no dia 17 de maio de 1925, foi um pensador eclético e versátil, além de prolífico. As suas obras varrem uma ampla gama das Ciências Sociais, da Psicologia à Sociologia e a Antropologia, além da História e da Filosofia.

A página da Wikipédia em italiano recorda: "Michel de Certeau nasceu em 1925, em Chambéry, na Savoia (França). Depois de obter uma licenciatura em filosofia com um caminho de estudos itinerante entre a Universidade de Grenoble, a de Lyon e a de Paris, seguiu uma primeira formação religiosa no Seminário de Lyon. Lá entrou em 1950, na Ordem dos Jesuítas, junto aos quais fez os votos em 1956. Queria ser enviado como missionário para a China. No mesmo ano da sua ordenação, Certeau tornou-se um dos fundadores da revista Christus, à qual permaneceu vinculado durante grande parte da sua vida. Em 1960, obteve o doutorado na Sorbonne, depois de discutir uma tese sobre um jesuíta contemporâneo de Inácio de Loyola, Pedro Fabro. De Certeau foi influenciado por Sigmund Freud e foi um dos membros fundadores da École Freudienne, de Jacques Lacan, um grupo que serviu como ponto focal para a escola psicanalítica francesa. Em 1984, foi eleito diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris".

A invenção do cotidiano

"Em 'A invenção do cotidiano', o autor combina os seus interesses intelectuais poliédricos para desenvolver uma teoria da atividade de produção-consumo inerente à vida de todos os dias. Segundo De Certeau, a vida cotidiana (everyday life) é distinta de outras práticas diárias, por ser repetitiva e inconsciente. Nesse contexto, o estudo de Certeau não está ligado nem ao estudo da 'cultura popular', nem às práticas cotidianas de resistência ao poder. Ele investiga e descreve de que modo os indivíduos navegam, inconscientemente, através das coisas da vida cotidiana, do caminhar na cidade à pratica da leitura. Talvez o aspecto mais influente de 'A invenção do cotidiano' está ligado à distinção operada por Certeau entre os conceitos de estratégia e tática. Ele conecta as 'estratégias' às instituições, enquanto as 'táticas' são utilizadas pelos indivíduos para criar espaços próprios nos ambientes definidos pelas 'estratégias'. No capítulo 'Caminhar na cidade', ele descreve a cidade como um conceito gerado pela interação estratégica de governos, corporações e outras entidades institucionais, que produzem mapas para planejar as cidades como um todo, com uma percepção de um voo de pássaro da cidade. Em contraste, no entanto, um pedestre que procede ao nível da rua se desloca de modos táticos, nunca plenamente determinados pelo planejamento definido pelas instituições, operando atalhos ou vagando sem meta em oposição à definição utilitária das grades estradais. Esse exemplo ilustra a afirmação de Certeau de que a vida de todos os atua como um processo de 'caça ilegal' [braconnage] em um território 'outro', que recombina regras e produtos que já existem na cultura de um modo influenciado, mas nunca completamente determinado, por aquelas regras e aqueles produtos" (Wikipedia.it).

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