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06 Janeiro 2016

Gary deveria ser a cidade do século, a cidade mágica, deveria representar o sonho americano de progresso. Aqui, no início do século XX, no estado de Indiana (a aproximadamente 30 km de Chicago), o presidente da United Steel Corporation, Elbert H. Gary, construía a sua fábrica de aço, dando vida a localidade homônima. Iniciou assim um surto de peregrinação para esta pequena cidade às margens do Michigan: procuravam sorte, em particular após a segunda Guerra, imigrantes provenientes da destruída Europa e afro americanos cansados da perseguição no Sul. Do nada, Gary se tornou um dos polos produtivos mais importantes do país, mas junto à gloriosa expansão industrial se instalaram rapidamente os grandes problemas da América de hoje, sobretudo, a afirmar as desigualdades sociais e as discriminações raciais.

“Crescendo em Gary não tinha como não ver a pobreza, a discriminação. Era impossível não ver que alguma coisa não estava funcionando”, lembra o economista Joseph Stiglitz, que nasceu e cresceu na proletária e rude Gary. E neste contexto o premio Nobel de Economia amadureceu seu interesse pelo estudo das desigualdades. De origem judaica, Stiglitz cresceu escutando as discussões entre a mãe Charlotte, progressista e apoiadora do New Deal, e o pai Nathaniel, pequeno empreendedor com posições mais conservadores mas sempre politicamente próximas aos democratas.

“Nos anos ’70 – a lembrança de Stiglitz, turma 1943, de seu pai – se torna um grande apoiador dos direitos civis. Tinha um forte senso cívico e de responsabilidade moral”. Uma pesquisa publicada em 2014 pelo Departamento americano para a educação descobre que o sistema escolástico USA (97 mil escolas foram avaliadas) não garante as mesmas oportunidades de aprendizagem a todos os estudantes (1/4 das escolas com estudantes de origem latina ou de cor não tem acesso a cursos de álgebra de segundo nível ou de química).

Um tema ao centro dos estudos de Stiglitz, e há tempo ao centro dos seus pensamentos: quando vivia em Gary, tinha uma governanta, Fannie Mae Ellis, uma mulher de cor crescida no sul do país, obrigada a deixar a escola aos seis anos. “As nossas expectativas eram ir à escola – lembra o economista – e me perguntava porque uma pessoa daquele valor tão brilhante pudesse frequentar somente um grau de instrução fundamental... Não tinha palavras para descrever mas me atacou, me deu muita repulsa”.

Impulsionado por um idealismo que é claramente evidente pelas suas palavras – reconduzidas, olhando da perspectiva judaica, aos princípios de Tzedakah, justiça social – o prêmio Nobel se concentrou na análise das falhas do sistema econômico e de algumas das teorias que o regem. Para o economista, o neoliberalismo erra ao pensar que os mercados levem de forma autônoma a soluções eficazes; e em um mundo onde a globalização constitui um fenômeno econômico positivo (tema ao qual dedicou uma conhecida obra, A globalização e seus opositores, Einaudi, 2002) é ainda mais crucial controlar o mercado global. Do contrário? Os resultados são vistos na própria cidade natal de Stiglitz, aquela Gary que sonhava em ser uma locomotiva e que ao invés é um fantasma: a abertura do mercado global fez quebrar a indústria local de aço e 90% dos trabalhadores em poucos anos estava desempregada. “Na economia moderna se deve correr para conseguir ficar parado”, o trabalho de uma situação de produção frenética que dizimou muitas empresas e ampliou em vários países a lacuna na diferença entre ricos e pobres. Uma fotografia que faz jus, em particular aos Estados Unidos, a qual foi em grande parte dedicado o último livro The great divide. Unequal societies and what we can do about them (2015).

A entrevista é de Daniel Reichel, publicada por Avvenire, 03-01-2016. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis a entrevista.

Professor, o senhor trabalhou bastante para analisar as desigualdades seja nos Estados Unidos seja em escala global. Se precisássemos traduzir em dados, de que fenômeno estaríamos falando?

Se olharmos o quadro atual, 1% da população detém cerca de 25% da renda, e nos últimos 30 anos essa proporção cresceu em 3 ou 4 vezes. Ouvi que não devemos nos preocupar com quem está no alto, porque os benefícios cairão em efeito cascata também para os pobres e para a classe média. Não é assim: quem está no fundo da escala social hoje está pior. Em quarenta anos a renda média permaneceu praticamente invariável, mas os salários mínimos reais são hoje mais baixos também com base nos salários de 60 anos atrás. Isso explica porque hoje nos Estados Unidos existe, por exemplo, um forte movimento político que incentiva o aumento do salário mínimo. E penso em particular nas mulheres, que para o caso de ser a única fonte de renda e ter um filho aos seus cuidados, se encontram em situação de extrema dificuldade. No entanto, a disparidade de renda determina também a disparidade das oportunidades. Isso se poderia compensar, por exemplo, com uma boa instrução pública, mas nos Estados Unidos isso não acontece.

Qual o peso do sistema escolar e educativo para que uma sociedade seja mais ou menos desigual?

É fundamental e necessário investir em políticas de educação direta também para as famílias. Uma brincadeira que seguidamente faço aos meus alunos é que a decisão mais importante da vida deles é a de não escolher os pais errados. É uma brincadeira, mas corresponde à verdade e devemos fazer de tal modo que a situação mude. E, como frisava meu colega Anthony Atkinson (Nobel de Economia 2012), é necessário iniciar projetos dedicados à primeira infância.

No entanto, o senhor alcançou o topo sem que a sua família fosse da elite.

Minha mãe me encorajava a usar o cérebro. E tive a sorte de ter grandes professores ao longo da minha vida escolar.

Para fazer com que mais pessoas cheguem às universidades, existe hoje a modalidade de ensino a distância. O que o senhor pensa a respeito?

Certamente, em termos gerais, é positivo porque garante aos estudantes que não podem frequentar de outro modo, de ter uma formação. Mas acredito ainda que os professores são importantes, o que devemos fazer é levantar o nível da educação.

A respeito da desigualdade, Israel havia enviado um projeto, o socialista de Kibutzim, que queria derrubá-la. Mas falhou. Que lição pode ser extraída disso?

Não conheço muito bem a realidade dos kibutz para responder. O que sei é que Israel nasceu sobre a força da equidade social e hoje, do contrário, é um dos países nos quais a diferença mais aumenta. O projeto original era extraordinário, voltado a criar uma sociedade justa. Hoje estão se afastando cada vez mais daquele objetivo inicial.

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