A Igreja e o rosto da misericórdia. Entrevista com Andrea Tornielli

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18 Dezembro 2015

Há poucos dias, a editora Piemme anunciou para o mês de janeiro, em concomitância com a Feira do Livro de Frankfurt, a publicação do livro-entrevista com o Papa Francisco de Andrea Tornielli, vaticanista e coordenador do sítio Vatican Insider.

A reportagem é de Francesco Gagliano e Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 14-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tornielli, ao qual o sítio Il Sismografo fez algumas perguntas sobre o livro intitulado "O nome de Deus é Misericórdia" [no Brasil, publicado pela editora Planeta], ressalta: o papa "apresenta o coração do seu pontificado e comunica, com a sua linguagem simples e direta, a grande mensagem do Ano Santo da Misericórdia".

Eis a entrevista.

Em janeiro, será publicado em diversas línguas e ao mesmo tempo o seu livro-entrevista nascido de conversas com o Papa Francisco. O seu título é muito significativo e desafiador: "O nome de Deus é Misericórdia". Como nasceu o projeto e qual era o seu propósito?

Sempre me impressionou a centralidade dessa mensagem no Papa Francisco. A partir daquela primeira missa com o povo na paróquia de Sant'Anna, no domingo, 17 de março de 2013, quando, na homilia feita de improviso, comentando o Evangelho que fala da adúltera salva e perdoada por Jesus, o papa disse: "A misericórdia é a mensagem mais importante de Jesus". Assim, enquanto eu assistia o momento em que Francisco anunciou o Jubileu da Misericórdia, eu disse para mim mesmo que seria bom lhe fazer perguntas sobre isso, tentando ir ao coração, compreender onde se originou essa abordagem e esse olhar.

Obviamente, o livro, que chegará algumas semanas depois da abertura do Ano Jubilar da misericórdia, se centra justamente nos conteúdos deste Ano Santo. Dias atrás, você disse: o papa fala "para todas as almas, dentro e fora da Igreja". O que Francisco pode dizer no Ano Jubilar para as pessoas que pertencem a povos, culturas, tradições não cristãs? Onde está o "gancho", por assim dizer?

Há muita necessidade no nosso mundo de misericórdia e de perdão. "Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão", escrevia São João Paulo II na mensagem para o Dia da Paz publicada logo depois dos atentados do 11 de setembro de 2001. Portanto, o perdão tem um valor até mesmo social, até mesmo público, até mesmo internacional. Mas eu acho que a mensagem da misericórdia fala para todas as almas, porque todos, sem exceção, precisamos nos sentir verdadeiramente amados, escutados, acolhidos assim como somos. E é nesse abraço de misericórdia que descobrimos limitados, pequenos, necessitados de perdão. Costuma-se dizer, e com razão, que hoje se perdeu o sentido do pecado. Eu acrescentaria que também se perdeu a esperança de poder recomeçar, de poder ser continuamente pegos novamente pelos cabelos e salvos. Essa é a grande mensagem cristã, que o papa faz reverberar para além de fronteiras e barreiras: existe um Deus que te quer bem, te espera, vem te buscar para te abraçar.

Depois das conversas com o papa, você teve alguma ideia sobre por que ele pôs no centro do seu pontificado a misericórdia de Deus? Na sua opinião, que relação o papa percebe entre o amor de Deus pelas Suas criaturas e os inúmeros sofrimentos e dilacerações desses Seus filhos?

A resposta para a primeira pergunta foi dada pelo Papa Francisco no primeiro ngelus, naquele domingo, 17 de março de 2013, citando a velhinha que tinha ido se confessar com ele, recentemente bispo auxiliar de Buenos Aires. Aquela idosa tinha dado ao futuro papa uma grande lição de teologia, que brotou da fé dos simples, daquele sensus fidei que o povo de Deus tem, e que Francisco citou também no memorável discurso para o 50º aniversário do Sínodo: "Se o Senhor não perdoasse, todo o mundo não existiria". Sem a misericórdia de Deus, o mundo não ficaria de pé. Quanto à segunda pergunta: eu entendo que, se realmente se faz experiência do amor de Deus na própria vida, se se experimenta a Sua misericórdia e o Seu perdão, não ficamos indiferentes diante dos sofrimentos de todos os outros seres humanos. Eu penso na Madre Teresa de Calcutá e em como o seu rosto cheio de rugas representou o sorriso e a proximidade de Deus para tantos últimos, para muitos abandonados, para tantos pobres.

Neste "entrelaçamento", por assim dizer, de amorosidades entre o Pai e os Seus filhos, por Ele criados por amor gratuito, que lugar a Igreja ocupa hoje e amanhã, e especialmente qual "forma" de Igreja?

A Igreja, isto é, o povo de Deus existe para levar a todos esse anúncio de amor, de proximidade, de esperança e de redenção. Ela anuncia a vitória sobre a morte de um Deus que se fez homem e aniquilou a si mesmo sofrendo no mais infame dos patíbulos para salvar cada um de nós. E o cristianismo se espalhou graças ao testemunho de pessoa para pessoa. Não sou capaz de responder sobre qual "forma" de Igreja. Eu falaria mais de qual "rosto": o rosto da misericórdia, da proximidade, do acompanhamento, da ternura, do encontro, do abatimento de todas as divisões, esquemas e preconceitos. Jesus, nos Evangelhos, não se encontrava com as multidões simplesmente enunciando doutrinas. Ele falava de Deus, do Seu Reino e da Sua misericórdia, entrando em contato com as pessoas, com os seus corações. Ele se comovia diante dos seus dramas, não ficava indiferente. O Deus cristão tem o rosto de Jesus, que se comove "até as entranhas" por nós. Parece-me que esse é o rosto autêntico da Igreja. É isso, creio eu, que significa evangelizar.

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