Estamos em guerra? "Sim, mas não necessariamente justa." Entrevista com Michael Walzer

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19 Novembro 2015

Estamos realmente em guerra? E, se estivermos, é uma guerra "justa"? Duas perguntas muito diretas: que têm um sabor quase maniqueísta e, talvez, pecam por simplismo. Mas que também vão ao cerne das emoções e das reflexões compartilhadas nestas horas por dezenas de milhões de europeus, cuja consciência foi abalada pelos ataques de estilo militar nas ruas de Paris.

A reportagem é de Arturo Zampaglione, publicada no jornal La Repubblica, 18-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E Michael Walzer não retrocede. "Sim, estamos em guerra", responde o filósofo e cientista político do Institute for Advanced Studies da Universidade de Princeton. E acrescenta: "É uma guerra justa e necessária, contanto que ela seja combatida sem esquecer os princípios éticos e de liberdade sobre os quais se fundamentam as nossas sociedades".

Desde 1977, quando foi publicado Just and Unjust Wars, o mais famoso dos 28 livros que ele escreveu e em que ele repropôs a teoria da "guerra justa", ligando-a a princípios morais e libertando-a da chantagem de um estéril pacifismo, Walzer sempre foi a figura de referência dos intelectuais liberais norte-americanos. E o foi especialmente nos anos em que a Casa Branca se obstinava a ver apenas soluções militares para todas as crises e a traduzir os medos da opinião pública em controles cirúrgicos sem muitos temores com a privacidade e as liberdades.

Eis a entrevista.

François Hollande não tem dúvida: estamos em guerra, diz o presidente francês, insistindo no papel de liderança do Estado Islâmico nos ataques em Paris. Muitos políticos europeus, no entanto, parecem mais cautelosos. O que você acha?

Nós os bombardeamos a partir do ar, eles nos atacam pelas ruas: não podemos não falar em guerra. Mas é uma guerra muito peculiar: apenas para começar, não existe a tradicional "linha de frente", e muitas vezes vemos grupos díspares que se combatem entre si. Por outro lado, não se trata de uma genérica guerra contra o terrorismo, como naquela declarada de modo propagandístico por George W. Bush depois dos ataques do 11 de setembro. A guerra contra o IS é muito concreta, real, embora seja tão estranha que – eu confesso – nunca vi uma semelhante.

Por que diz isso?

Basta fazer uma panorâmica dos beligerantes para se dar conta de estranhezas e contradições: temos uma aliança entre xiitas, Hezbollah e Bashar al-Assad que lutar contra o IS, mas também contra todos os sunitas. Enquanto isso, os EUA são aliados da Arábia Saudita, que, no entanto, financia secretamente os jihadistas. Os turcos bombardeiam mais os curdos do que o IS: e, em vez disso, os curdos são os mais temíveis adversários no terreno dos jihadistas. A Rússia tem um papel ambíguo: de apoio a Assad, mas também aos ataques franceses. Enquanto isso, na Europa, a guerra é conduzida principalmente pelas forças policiais.

Essas peculiaridades, como você as chama, contribuem para a sensação de desorientação da opinião pública europeia. E repropõem um dilema: é possível conduzir uma guerra "justa"? Como?

Sim, a guerra contra o fanatismo islâmico é justa, mas também deve seguir alguns princípios. Por exemplo, não pode se limitar apenas às operações militares, mas também ter uma dimensão política, diplomática, ideológica. E também deve respeitar certas regras de engajamento em termos de proteção das populações civis e de proporcionalidade das operações militares.

Parece-lhe que os bombardeios franceses contra Raqqa tem mais o sabor da retaliação do que da ação cirúrgica contra o IS?

É cedo para dizer. Certamente, não seria eticamente correto – nesta assim como em todas as outras guerras – lançar toneladas de bombas em uma cidade que tem uma numerosa população civil, sem perseguir um objetivo estratégico específico. Por isso, eu defendo há muito tempo, embora percebendo os riscos, que precisamos ter in loco uma presença muito mais difundida da inteligência, a fim de minimizar os danos colaterais contra as populações civis.

Na Europa também se entrevê o perigo de uma involução dos controles antiterrorismo. Iremos refazer o caminho norte-americano?

O tema é o mesmo em ambas as margens do Atlântico: como defender a segurança dos cidadãos sem cair em um regime autoritário. Nós, liberais norte-americanos, criticávamos duramente o Patriot Act, a lei aprovada depois do 11 de setembro, porque violava os limites constitucionais. O nosso governo foi além. Vocês, europeus, não devem cometer o mesmo erro, embora eu convide todos os progressistas a não subestimar o medo que se espalhou na sociedade, e que, por enquanto, faz o jogo apenas da extrema-direita.

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