“A divisão imperial retorna com outras formas”. Entrevista com Evo Morales

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Por: André | 12 Novembro 2015

Em conversa com o Página/12, o presidente da Bolívia analisa as novas ameaças que os processos de mudança na América Latina enfrentam, destaca sua sintonia com o kirchnerismo e manifesta sua confiança em que Scioli vença o segundo turno das eleições presidenciais argentinas.

Sempre se acredita que o poder muda aqueles que o exercem. Mas Evo Morales é um homem intacto. O mesmo chefe de Estado que, há quase 10 anos, recebeu o Página/12 imediatamente após a sua primeira vitória eleitoral, é aquele que, agora, em uma tarde parisiense tipicamente de outono, fala com o mesmo tom, a mesma lenta e respeitosa dicção, sempre olhando direto nos olhos, atento ao outro, como se cada palavra saísse do fundo da terra.

O presidente boliviano visitou a França pela quarta vez desde que foi eleito em 2005. Pouco depois da sua vitória, o chefe de Estado viajou para a França onde foi recebido pelo ex-presidente Jacques Chirac (conservador) em meio ao terror dos agitados empresários multinacionais que viam em Evo Morales um adversário radical, uma espécie de “nacionalista econômico” que colocava em perigo a continuidade dos benefícios que os investidores obtinham na Bolívia. Sobre ele foi dito de tudo e todas as coisas. Eles mudaram de ideia, em parte. Evo Morales continua o mesmo.

Uma década depois, o presidente foi recebido por François Hollande, desta vez em outro contexto e com outros desafios. O primeiro deles é a Cúpula sobre a Mudança Climática (COP 21) que acontecerá em Paris no final de novembro. Longe da irascibilidade, da desconfiança e dos temores da primeira visita, Evo Morales encontrou na França outra história.

A Universidade de Pau entregou-lhe o título de Doctor Honoris Causa em reconhecimento à sua política, que “se inscreve em uma ótica continental e equilibrada que defende a instauração do bem viver, o equilíbrio ecológico e a equidade social”. O título premia os resultados obtidos por Evo Morales e seu governo na luta contra as desigualdades, o acesso aos serviços básicos (água, educação, saúde) e a proteção da Mãe Terra, a Pachamama. Mas o próximo desafio não é apenas climático, mas também político, com o pano de fundo das mudanças que vão se desenhando nos países do Mercosul.

Nesta entrevista ao Página/12, Evo Morales expõe sua visão sobre a temática do clima, recorda com profundo carinho o falecido presidente Néstor Kirchner e quase reza em voz alta para que o peronismo não seja derrotado no segundo turno.

A entrevista é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 10-11-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Logo se completam – em dezembro – 10 anos de sua eleição. Passada esta década, você se sente mais compreendido por sua própria sociedade? E por seus vizinhos e o Ocidente?

Sim. Estamos falando de uma nova Bolívia com seu próprio modelo. No aspecto político, não há apenas uma democracia representativa, mas participativa. Não é uma democracia que termina no dia das eleições; não, o debate é permanente. Temos uma economia baseada na ideia de que os recursos naturais devem ser dos povos e sob a administração do Estado, uma economia também baseada na redistribuição da riqueza. Antes, a pouca riqueza que havia na Bolívia era exportada e o pouco que ficava estava privatizado. Agora somos donos dos recursos naturais e também garantimos os serviços básicos.

Essas políticas sociais, essas políticas econômicas, são mais ouvidas e conhecidas no mundo e também reconhecidas na Bolívia. Imagine que nós ganhamos com nosso movimento político e graças aos movimentos sociais seis eleições desde 2005! Das seis vezes, três vezes vencemos com mais de 50% e outras três vezes com mais de 60%. Isto nunca tinha acontecido desde a fundação da República. Com outras palavras, os movimentos sociais, sejam operários, originários, indígenas, transportadores, camponeses, todos esses setores juntos salvamos a Bolívia. Agora temos uma nova Bolívia.

Mas agora há mudanças que, em nível regional, podem desestabilizar essa configuração. No Brasil, a presidenta Dilma Rousseff enfrenta uma ferrenha batalha dos setores mais liberais, ao passo que na Argentina, de frente ao segundo turno que se aproxima, está presente a possibilidade de uma alternância política transformar o modelo atual. Em suma, o risco de que a configuração progressista da região se frature não é hipotética.

Lamento muito o retorno da divisão imperial daqueles tempos com seu modelo neoliberal, com seu instrumento econômico que é o Fundo Monetário Internacional. Eles retornam com outras formas de divisão imperial, não como no século XVIII ou XIX quando dividiam entre si o mundo. Deixa muito a desejar. Mesmo não havendo uma presença militar como antes, agora há permanentes agressões de caráter político, oculto, às vezes usando algumas ONGs, algumas fundações, às vezes com agressões políticas ou ameaças, usando seus embaixadores e até agressões econômicas, como aconteceu com os fundos abutres, no caso da Argentina.

Seria, no entanto, outro cenário com uma Argentina de diferente corte político. Nestes 10 anos, você compartilhou com a Frente para a Vitória uma fase de continuidade e fraternidade política.

Eu quero dizer que tenho muito respeito pelo kirchnerismo. Eu ganhei a presidência quando Néstor Kirchner era presidente. Ele me fez recomendações, me deu sugestões e me ajudou muito em temas de administração. Ele me acompanhou e veio várias vezes à Bolívia para me apoiar quando houve as agressões da direita. E com Cristina da mesma maneira. Resolvemos muitos temas juntos. Tenho muito respeito e muita admiração por ela.

O resultado do primeiro turno o pegou de surpresa?

Eu não conseguia acreditar que quase perdemos. Eu estava certo de que ganharia com uma margem maior. Mas agora temos como revanche o segundo turno que esperamos que Scioli vença para continuar este processo de mudanças. Durante a discussão sobre a Alca, Kirchner disse uma coisa. Recordemos que a Alca foi enterrada na Argentina graças a Néstor, a Lula, a Chávez e outros presidentes. Mas nessa época da Alca Néstor dizia: “A América Latina não pode continuar a ser o quintal dos Estados Unidos”. Eu guardei essa frase na memória e a repito como um pai-nosso.

Néstor Kirchner viajava para as Províncias e quando havia problemas pegava o telefone e os resolvia. Procuro imitá-lo nisso e ver como se pode resolver as questões pendentes. Tenho muita admiração por essa ajuda, por esse acompanhamento durante o começo da minha presidência na Bolívia. Espero que neste segundo turno tudo vá bem. Tenho muito esperança e confiança nos militantes revolucionários, nos militantes antiimperialistas. Antes de Kirchner havia uma competição entre a Bolívia, o Equador e a Argentina para ver quem tirava mais presidentes neoliberais. Não havia nem esta vida social nem política.

Imagine se vencer o opositor de Scioli, com que Parlamento vai governar! Espero que isto não seja visto como uma intromissão minha na política argentina, mas é a verdade, e o povo argentino tem que entender isto porque, caso contrário, haverá conflitos. Para começar, haverá uma péssima coordenação entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. Seguramente, quem vai perder não será nem o Poder Executivo nem o Poder Legislativo, mas o povo argentino. Assim é a política.

Mas, repito: essas agressões do império estão aí. Por isso, tenho muita esperança que esse povo antiimperialista da América Latina continue enfrentando democraticamente e derrotando os modelos do capitalismo.

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