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17 Julho 2015

"Existe um grande limiar de incerteza em que se inserem tanto os apoiadores de Tsipras quanto os dissidentes, dentro do próprio Syriza. Tanto os apoiadores afirmam frequentemente que não estão certos do que fazem, quanto os dissidentes internos tomam o cuidado de evitar o discurso da traição ou de destituição do atual premiê. O reconhecimento desse limiar é positivo porque mostra como existe uma margem de manobra construtiva para ambos os grupos, por dentro do Syriza, para avançar no enfrentamento contra as instituições da troika e a classe dominante europeia e grega", escreve Bruno Cava Rodrigues, em texto publicado no Facebook, 16-07-2015.

Segundo ele, "o Syriza está passando por um teste que, embora seja num pequeno país mediterrâneo, significa muito para quem se sente implicado neste ciclo de lutas. É um momento riquíssimo e interessantíssimo, em que todos em certa medida também estamos sendo interpelados".

Bruno Cava Rodrigues é graduado e pós-graduado em Engenharia de Infraestrutura Aeronáutica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica - ITA, graduado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e mestre em Direito. É blogueiro do Quadrado dos loucos e participa da rede Universidade Nômade e é coeditor das revistas Lugar Comum e Global Brasil.

Eis o artigo.

1) O "acordo", outro nome para a imposição pela troika, com Merkel, Schäuble e Juncker à frente, foi aprovado ontem no parlamento grego por 229 sim x 64 não x 6 abstenções. A maioria absoluta do Syriza votou com o premiê Alexis Tsipras, dos 149 deputados do partido: 111 sim x 32 não x 6 abstenções.

2) A Grécia é o país mais atingido da União Europeia pela crise, com já 5 anos de agudo empobrecimento, altas taxas de desocupação, desencanto com a política e cortes sociais.

3) Segundo pesquisas de opinião deste mês, Tsipras goza de uma popularidade de mais de 60% e a maioria da população confia nele para enfrentar a crise.

4) O Syriza emergiu da mobilização social contra a austeridade, mas também da aposta na via eleitoral. É o primeiro vetor institucional surgido da Praça Syntagma e do ciclo global de lutas contra a crise do capitalismo que venceu uma eleição majoritária. Em janeiro de 2015, conquistou 35% dos votos válidos e, em consequência, elegeu o primeiro-ministro.

5) O Syriza é uma coalizão heterogênea, com várias correntes políticas, redes de solidariedade, coletivos e movimentos sociais. O nome do partido é uma sigla que começa com "coligação". Mas não inclui a velha esquerda da guerra fria, representada pelo "partidão grego", o KKE, nem a velha centro-esquerda do Pasok, que por décadas integrou o sistema bipartidário da casta política corrupta, que se repete noutros países europeus (como na Espanha, entre PSOE e PP).

6) O dissenso à esquerda contra o Syriza, hoje, vem basicamente de três grupos:

a) esquerdistas ligados ao KKE e às velhas estruturas residuais do eurocomunismo, com 5% de representação parlamentar;

b) grupos esquerdistas, autonomistas e anarquistas que rejeitam qualquer via partidária ou eleitoral;

c) grupos internos ao Syriza, especialmente a corrente "Plataforma de esquerda".

7) Os grupos a) e b) já apontavam a traição do Syriza e Tsipras desde o princípio, seja por considerá-los a "nova direita", seja porque qualquer opção pela via eleitoral significa trair o movimento das lutas.

8) O grupo c) tensiona por dentro do Syriza, contra Tsipras, em virtude do resultado das negociações em Bruxelas na semana passada, no momento em que, depois do "oxi" do referendo de 5 de julho, o primeiro-ministro aceitou o ultimato dado pela troika sob pena da insolvência.

9) As avaliações sobre a questão se distribuem, basicamente, nos seguintes argumentos:

a) Tsipras deveria ter aproveitado o "não" no referendo para romper de vez com a troika, ao que seus partidários respondem que a negativa não implicava sair da União Europeia e do euro, como aliás o governo discursou durante a campanha pelo "não";

b) Tsipras capitulou diante das exigências traindo a alma do Syriza, que deveria ser um partido anti-austeridade sem concessões, ao que se responde que nem todo recuo é traição e que, na hora H, o premiê foi surpreendido com a determinação da Alemanha em jogar a Grécia para fora da janela da UE, o Plano Schäuble original, na verdade, era o Grexit, ademais, o discurso da "traição" e "capitulação" tem um fundo moral que geralmente é utilizado para reafirmar o próprio radicalismo de pelotões ideológicos do "nem-um-passo-atrás";

c) Se Tsipras não estava preparado para ir até o fim nas negociações, não deveria ter convocado o referendo, gerando uma confusão comprometedora e uma contradição automática, ao que se responde que o referendo foi antes um voto de confiança ao premiê e ao Syriza para enfrentar a crise, além da tentativa de remobilizar a sociedade grega num momento decisivo, e não apenas para dar "poder de barganha", além de alastrar as redes de solidariedade pró-Grécia para além do território nacional;

d) Tsipras deveria partir para Planos B, C e D, sem ficar dependente do euro e da troika, ao que se responde que, com apenas seis meses no governo, não foi possível construir alternativas viáveis, que a transição abrupta com a volta do dracma acabaria levando a uma situação catastrófica (falta de dinheiro nos caixas, desabastecimento, não-pagamento de pensões e auxílios), além disso, com o tempo ganho, os Planos B, C e D podem ser reforçados daqui em diante, em paralelo à injeção de liquidez pelo BCE, e que não basta estatizar bancos e criar "planos quinquenais", se a moeda não tiver um fundamento real de confiança e produtividade sociais;

e) Tsipras aceitou um acordo pior do que antes do referendo, um erro estratégico, ao que se responde que, além do pacote de afluxo financeiro ser bem mais robusto, pôde expor exaustivamente os mecanismos de violência da troika, especialmente do governo da Alemanha, além de rachar aquela, uma vez que o FMI está tensionando internamente a Comissão Europeia por um "acordo" melhor;

f) Finalmente, Tsipras deveria estar preparado para sair da UE e do euro, por razões geopolíticas anti-imperialistas, numa linha eurocética, pois se chegou a um ponto de não retorno, ao que se responde que na entrevista de segunda o próprio premiê disse ter consultado China, Rússia e EUA, que nenhum deles deu nenhuma garantia substantiva, que o espaço político europeu não só é disputável como está sendo (destaque para Espanha, Irlanda, Itália e Portugal), que o Grexit não pode ser objeto de uma discussão romântica, e que uma vez que a Grécia saia da UE, a crise no país deixa de ser um "problema europeu" para se converter numa questão de ajuda humanitária e desenvolvimentista.

10) Existe um grande limiar de incerteza em que se inserem tanto os apoiadores de Tsipras quanto os dissidentes, dentro do próprio Syriza. Tanto os apoiadores afirmam frequentemente que não estão certos do que fazem, quanto os dissidentes internos tomam o cuidado de evitar o discurso da traição ou de destituição do atual premiê. O reconhecimento desse limiar é positivo porque mostra como existe uma margem de manobra construtiva para ambos os grupos, por dentro do Syriza, para avançar no enfrentamento contra as instituições da troika e a classe dominante europeia e grega. O Syriza está passando por um teste que, embora seja num pequeno país mediterrâneo, significa muito para quem se sente implicado neste ciclo de lutas. É um momento riquíssimo e interessantíssimo, em que todos em certa medida também estamos sendo interpelados.

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